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16/12/2018

A Escola de Frankfurt serve ou não para analisar Bolsonaro?


[Artigo para o público acadêmico]

Escrevi aqui no meu blog que as análises da Escola de Frankfurt não mais serviam para analisar o neofascismo, uma vez que elas estavam presas à “teoria da falta”. No campo sociológico e político, a “teoria da falta” vê o nazifascismo e, enfim, o neofascismo despertado por Bolsonaro, como doutrinas que crescem no espaço aberto por crises econômico-financeiras. Falta emprego, esperança e quadros políticos, então, tudo isso é preenchido pelo chefe fascista e sua proposta conservadora. Eu disse e repito que discordo dessa visão. Disse e repito que o fascismo do passado tinha uma proposta positiva. Bolsonaro também tem uma agenda positiva de reformas, são reformas reacionárias, mas são reformas. Elas não são tapa-buracos, elas são de desejo de muito gente.

Disse isso, mas alguns leram uma tal coisa como sendo um descarte meu de toda a Escola de Frankfurt. Eu não tenho o costume de descartar filosofias – nenhuma!

Há parte da filosofia social da Escola de Frankfurt que me é interessante, e que não se pauta pela falta, pelo negativo. Essa parte é útil, e nosso bolsonarismo atual parece ser bem inteligível segundo os escritos de Adorno e Horkheimer. Refiro-me à teoria da sublimação não acabada. Falo aqui do que, com ares hegelianos, os frankfurtianos chamaram de pseudoformação, e que muitos aqui no Brasil chamaram – a meu ver de modo errado – de semi-formação. Do que se trata? É a falsa completude do caminhar do Espírito, em termos de Hegel; é a sublimação enganosa, em termos de Freud – ambos autores usados pelos frankfurtianos.

Resumindo ao máximo: para suportarmos a civilização, que nos tira da selvageria do poder instintual e que nos dá afazeres duros e superiores, temos de incorporar mecanismos de auto-governo que podem começar com auto-repressões e práticas ascéticas, mas que logo nos coloca num novo patamar prático de liberdade. Quem se engaja no projeto moderno vive a sociedade liberal como um ganho. Adota a postura do competidor individual, a ordem do mercado liberal, se familiariza com a tecnologia e com os Direitos Humanos, e se submete de bom grado às leis da vida moderna civilizada, a chamada “sociedade burguesa”. As energias instintuais são sublimadas. Perde-se em violência, ganha-se em arte. Há uma certa amortização da libido, sim, mas em compensação há uma erotização que se canaliza para trabalho, que pode ser o trabalho não-alienado. O capitalismo em associação com a democracia liberal adora esse mundo. Uma sociedade assim é o ideal da Folha de S. Paulo, de Rede Globo e, atualmente, das esquerdas que, enfim, deixaram de ser comunistas. Quem não sublima, ou seja, não passa por transformações internas de autogoverno, por si só, reclama da repressão. Vê tudo ao seu redor como o que não pode entender, como uma canga posta pela modernidade para lhe tornar escravo. Vive se rebelando contra a tecnologia, a ciência e, principalmente, os intelectuais que defendem o projeto moderno moral – dos Direitos Humanos – e o espraiamento da disciplina escolar. Ao mesmo tempo, sente que o arauto desse projeto são os grandes meios de comunicação, e o atacam por ele disseminar uma moral pervertida. Afinal, quem tem a libido em estágio selvagem, não pode ver sexo pela TV. Sexo e violência pela TV é só para gente sublimada, tão civilizada que não se sente motivada pelo que passa na tela, ainda que, segundo critérios, possa se sentir sensibilizada. Os bolsonaristas são, como fascistas, os que não sublimaram, os que se sentem apenas reprimidos pela modernidade. E eles reagem. O líder deles diz que eles vão se libertar de tudo isso se libertados da “ditadura do politicamente correto” e da “lei feita por comunistas”. É o canto de sereia que os não sublimados querem ouvir. Choram pelo “capitão”! Que este venha instaurar um regime sem lei, onde valha, então, a lei das selvas. Assim fizeram os que choraram de emoção ao virem Hitler falar o que Bolsonaro fala, e que até pouco tempo falava de modo muito mais integral e veemente.

Veja como funciona: Bolsonaro quer que possamos bater em filhos, contra a “ditadura do politicamente correto” que, baseada na ciência da psicologia atual diz que a menor violência física ainda é uma violência – não só desnecessária, mas prejudicial no presente e no futuro da criança. O contato físico com qualquer grau de violência, quando vem do ente amado pela criança, é sempre uma catástrofe (não estou dizendo que criança não tem que sofrer com a “vida dura”, estou dizendo que não deve ser agredida por quem ela espera que seja seu guardião). A violência do amado sempre é  pior violência! Bolsonaro quer a prática da violência porque ele entende que só ela educa, só a repressão educa. Ele entende educação como aquilo que ele teve, ou seja, só repressão e nenhuma oportunidade de sublimação. Não à toa ele quis resolver um problema trabalhista, de salário, com bomba e terrorismo, e por isso foi “reformado” no Exército e ganhou um ficha suja. Se estivesse em outro país, não seria só reformado, seria banido do Exército com desonra.

Tudo isso é pura Escola de Frankfurt, dizendo que essa formação adquirida pelo povo brasileiro (Bolsonaro já está perto dos 40% de intenção de voto, enquanto tem mais de 40% de rejeição) é exatamente a pseudoformação. O Espírito da época é pseudoformado, e o Brasil o exemplifica em termos de história e geografia, integrando-se na narrativa mundial de crescimento do ideário conservador. Em toda parte de nosso país, mais e mais gente não entende coisas como o Jornal Nacional, e não mais se educa por escolas, e sim por youtubers e falsários da Internet (foi o que sobrou!), que, não raro, também não passaram pela escola. E os pastores de religião caça-níquel ocupam as TVs noturnas, para que essa gente que não entende o Jornal Nacional também possa ter “notícias”. Essa gente quer se livrar disso que não entendem: teoria da evolução, déficit primário, inflação, necessidade de vacina, direitos humanos. Essa gente diz: veja como o Olavo de Carvalho escreve livros sem ter ido à escola, e veja como ele não acredita, como nós, que “o homem veio do macaco”. “Claro, nós e ele sabemos que o homem veio do barro, com o sopro de Deus, e a mulher veio de uma costela, ou seja, um pedaço, uma fraquejada”.

Os que seguem Bolsonaro são os que leem a Bíblia literalmente. Foram preparados pelos inimigos do “politicamente correto” – alguns, claro, até “escrevem livros”. Essa pseudoformação, essa não sublimação, pode tranquilamente atingir gente aparentemente escolarizada. Pois às vezes há interesse do escolarizado de surfar no público do não escolarizado. O clima da pseudoforrmação é propício para tal. A onda conservadora parece dar lucro. E muitos querem tirar sua casquinha, achando que não irão de roldão. Hoje vemos um Reinaldo de Azevedo, que era puxa saco do Pondé, reclamando do êxito de Bolsonaro. Amanhã veremos um Alckmin reclamando porque seu partido foi parar na base de formação do partido de Bolsonaro. Em ambos os casos, tais feitos se fizeram por conta deles terem, um dia, aceitado reiterar o discurso de Bolsonaro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

 

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18 Responses “A Escola de Frankfurt serve ou não para analisar Bolsonaro?”

  1. silvio menezes da silva
    01/12/2018 at 16:05

    Professor Paulo, poderia comentar a respeito daquela figura esquisita chamada Diogo Mainardi? teria sido ele importante cabo eleitoral do bolsonaro? desde já agradeço!?

    • 01/12/2018 at 21:39

      Diogo é o maior poço de mágoa pessoal que já vi. O pai dele é maluco, explica tudo.

  2. josé fernando
    07/10/2018 at 12:13

    Enquanto Wittgenstein abolia a noção de sujeito da filosofia (algo que vemos tanto na inexistência de qualquer sujeito majestático na prática dos jogos de linguagem, quanto no sujeito ético tractatiano que sendo um ponto sem extensão se dilui na atitude que mantém em relação à totalidade dos fatos que se inserem nos limites de seu mundo), os almofadinhas frankfurtianos ainda tentavam fazer uma filosofia edificada nas noções de sujeito e racionalidade. Para mim, pensadores absolutamente periféricos na história da filosofia.

    • 07/10/2018 at 20:21

      José Fernando, sinto-lhe lhe dizer, mas pensando assim você mostra que não pode nunca ler filosofia ou tentar sequer fazer o curso de filosofia. A filosofia cobra respeito e humildade de estudantes de filosofia. Achar isso que você escreveu é não entender nem Wittgenstein e nem os frankfurtianos. Achar que uma filosofia derrota outra em definitivo, como se se tratasse de ciência, é um erro crasso. Nem vou falar, claro, sobre o adjetivo “almofadinhas” que aí incorre em erro por outros motivos. Não entre pela filosofia no estilo Karnal. Entre certo. Esqueça essa coisa infantil de querer tomar partido em filosofia. Quem não sabe apreciar a beleza de Wittgenstein junto com a bela dos frankfurtianos pode estar trilhando filosofia de modo antifilosófico. Nada há de mais atual, aliás, que o debate sobre a subjetividade atualmente: Sloterdijk, Rorty, uma série de wittgensteinianos, Alain Renault e outros parceiros, e até mesmo Derrida, deram enormes contribuições para repor a conversa sobre a subjetividade nos tempos contemporâneos. Você ouviu o galo cantar mas não sabe onde.

  3. roberto noronha
    06/10/2018 at 17:02

    se um aluno de ciências humanas ou filosofia desconhece que Frankfurt-am-mein se localiza na alemanha… e pior que, nos eua naõ há nenhuma cidade com o mesmo nome de Frankfurt, como nos casos Cambridge( cidade inglesa, sede da universidade de mesmo nome). é triste, medonho… mas, a despeito da ignorância geográfica, é quase irônico supor que a escola de Frankfurt estej nos eua e não na aelmanha@

  4. Sérgio Souza
    06/10/2018 at 02:25

    Paulo, excelente texto. Mas, além dessas milhares de pessoas pouco desenvolvidas, muita gente também vai votar no Bolsonaro por medo da volta do PT ao governo. Imagina se o Haddad, Lula, Zé Dirceu e companhia voltam ao poder. O que você pensa sobre isso? E você sempre fala bem da escola, mas e o lado ruim da escola, enfrentar professores babacas, colegas chatos, grupinhos, quem não aguenta sai e não quer voltar ao jogo.

    • 06/10/2018 at 12:45

      Bem, eu não voto nesses povos. Veja, a pseudoformação não fala em gente pouco desenvolvida, fala em gente completamente desenvolvida. Por isso pseudo, e não semi.

  5. Felipe
    05/10/2018 at 20:49

    Sim Paulo, com certeza.
    O Bolsonaro e seus minions são espécimes valiosos no que tange a uma contribuição teórica acerca disso.

  6. Felipe
    05/10/2018 at 16:46

    Destaque para outros sintomas da pseudocultura: autofechamento do discurso, uso de expressões clínicas para qualificar o interlocutor (“psicopatia”, “degenerado”…), incapacidade de dialogar sem ofender, supercrescimento do Eu (sou e sempre serei melhor que você!), apelo desesperado a estereótipos…

    • 05/10/2018 at 17:14

      Felipe, creio que a pseudoformação, ou seja, a incompletude do Espírito quando ele se diz completo é uma fórmula adorniana que dá o que pensar.

  7. roberval noronha
    05/10/2018 at 16:40

    o padre Paulo Ricardo vive falando sobre essa escola de Frankfurt… até mesmo, um dia desses, estávamos na sala, eu com o o netebook ligado assistindo às tolices do vigário, apenas por não ter mais o que fazer naquela fria manã de sábado, quando a nossa diarista, uma senhora de 60 anos, perguntou-nos: “essa tal escola que ele está falando fica na Alemanha?” (ele estava falando do “marxismo cultural” e suas relações com a escola).aí tive de lhe afirmar que sim, fica na Alemanha.

    • 05/10/2018 at 17:16

      Já tive aluno que se espantava ao saber que a Escola de Frankfurt estava nos Estados Unidos, mesmo sendo alemã!

  8. Pedro
    05/10/2018 at 14:39

    Excelente, perfeito e top total este seu texto!

  9. LMC
    05/10/2018 at 11:09

    Um texto que merece ser publicado
    num grande jornal,PG.Todos os dias
    tem leitores tontos e cabeças-duras
    que escrevem nas seções de cartas
    dos jornais puxando o saco do mito(??????????).

    • 05/10/2018 at 11:14

      Um grande jornal não tem mais leitores para esse tipo de texto não. Os grandes jornais sabem disso. Não superestime o brasileiro.

  10. Tony Bocão
    05/10/2018 at 10:51

    Essa semana : Biblioteca da UNB vários livros sobre direitos humanos rasgados; cena da placa arrancada da Marielle. Pessoalmente tenho mais medo do mourão do que o próprio bozo (seria proposital ter um monstrinho como vice para evitar Impeachment ?) mas o estrago já está feito, as pessoas já se sentem representadas nesse espírito. Confesso que no debate de ontem, quanto ao apelo do Boulos que disse que só vamos votar no domingo porque muita gente morreu por isso, essa frase me fez colocou um puta aperto no coração, que a muito tempo achava que não ia mais sentir. Professor cuidado para não ser preso no futuro

    • 05/10/2018 at 10:55

      Tony, você acha que eu não amarguei, ainda menor de idade, duas prisões? E você acha que, na democracia, não sofri perseguições até piores? Falhamos no projeto educacional como um todo. E estamos pagando caro por isso.

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