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18/11/2018

A Era da Caricatura Sutil – Ainda a teoria da repulsa a partir do Uncanny Valley


[Artigo para o público acadêmico]

Na minha maneira de observar o fenômeno do Uncanny Valley (ver artigos 1 e 2 aqui), coloquei como hipótese de trabalho a ideia de que a estranhamento nosso não é sobre o diferente, mas sobre o semelhante, em especial o semelhante que se mostra sem o auto-controle esperado.

Essa tese pode levar a mal-entendidos. Uma leitura apressada pode acreditar que estou aqui me desmentindo. Afinal, sou daqueles que, de certo modo, possui simpatias para com a visão de Sloterdijk, aquela visão que mostra que o indivíduo contemporâneo é um experimentador, um cultuador de si, o que implica, inclusive, no direito de testar a autoextinção. Então, se o indivíduo atual é já um descontrolado, por que achar que a aparência que mostra humanos com traços que apontam para um possível descontrole seria assustador?

Todavia, no meu entender, é exatamente essa condição do indivíduo contemporâneo, aquele que leva adiante o projeto de produção humana que sempre vai do mimo ao mais-mimo, e que se põe como auto-intensificador, que se coaduna perfeitamente com a manutenção do Uncanny Valley, com a verdade mostrada pelo vale do estranhamento no gráfico.

Ou seja, se vivemos uma época da auto-intensificação (Sloterdijk) ou auto-positividade (Byung-Chul Han) ou em uma época pós-moralista (Lipovetsky) que se faz pelo emocionalismo, ou, ainda, em um tempo de reconhecimento sem ética, no qual a identidade é alcançada sem a pessoalidade (Agamben), se tudo isso é válido, é justamente nessas condições que mais temos que procurar delimitar de modo estreito o que é o estranho. O que é não ter controle em uma época em que o auto-controle foi esgarçado? O que é ser isento de auto-controle ou com novos tipos de autocontrole e, então, estranho a ponto de causar repulsa? Antes de perder importância, o Uncanny Valley é, então, ainda mais notável – e de fato assim se faz. E que se diga de passagem: os habitantes do Uncanny Valley não mudaram, desde 1970, quando o conceito foi criado e o gráfico foi elaborado.

Ao falar das dimensões da sociedade individualista, Peter Sloterdijk tem uma passagem que, penso eu, no geral não seria desmentida pelos autores citados acima. Ele diz que esse individualismo é alcançado, em parte, por conta da transformação da sociedade em um “agregado excitável de clientes, compradores e consumidores, que se cuidam e se mimam a si mesmos”.[1] Ele continua, e então descreve as mudanças da subjetividade sob esse novo ritmo: tudo caminha “do sentido do puritanismo do trabalho à orientação liberal do tempo livre, da poupança séria ao crédito alegre, da renúncia do consumo ao apetite pelas vivências, da heroicização das virtudes empresariais à glorificação das proeminências do esporte e do entretenimento”.[2] Tudo isso empurra o “sujeito pós-moderno” no sentido dele se desembaraçar, ou mesmo eliminar, o que era até então o cultivo da autoestima e a formação da personalidade por elementos adequados ao capital. [3] 

Em suma: vivemos um tipo de desregramento. As pessoa deixaram de lado o auto-controle. O princípio da auto-conservação, que inclusive batizava a racionalidade, caiu diante do princípio da auto-intensificação. Ora, se assim é, então é bom que saibamos o que restou de nós que é o estranho? Ou no que nos transformamos que continua sendo, no vale do gráfico, o que nos causa repulsa. Se o auto-controle não conta, então qual tipo de auto-descontrole é admissível? Que face tememos que nós mesmos apresentamos nessa nova situação?

Ora, é exatamente no momento em que a subjetividade sofre essas transformações que devemos ver, então, como que o Uncanny Valley, mantendo-se estreito e fixando o que é o semelhante-estranho que não toleramos, diz muito de nós. Talvez aí tenhamos de falar, a respeito do Uncanny Valley, não propriamente de uma face estranha por conta da falta de autocontrole, mas de uma estética específica do descontrole. Nisso, é significativo que um vampiro não nos horrorize tanto quanto um palhaço, ou que o lobisomem não cause nenhum dano diante de um rosto de um boneco de ventríloquo, ou que a Bruxa da Branca de Neve não assuste mais criança alguma, enquanto que apareçam crianças e adultos que se sentem bem incomodados com a moça-propaganda do Magazine Luíza, ou com aqueles bonecos de jogadores que ficam junto da Renata Vasconcelos, agora na Copa da Rússia. De certo modo, o que notamos é que, no geral, o Uncanny Valley não adquiriu outros habitantes. É o similar com peculiaridades que lá está. O robô quase humano que lá está, ainda!

Sejamos claros, desde 1970, quando o gráfico que deu origem ao vale do estranhamento apareceu, já vivíamos o que agora é intenso e teorizável. Apesar de não termos naquela época a Internet e, de certo modo, existir aqui e ali metanarrativas capazes de competir com a hegemonia do individualismo de hoje, sabemos muito bem que estamos, de lá para cá, em uma mesma Era. Vivíamos a era do indivíduo que já abandonava o culto do autocontrole. Agora, é só mais fácil perceber isso, dado a amplitude com que tudo se deu nesse sentido.

O Uncanny Valley não faria sentido em uma época de uma subjetividade estável. Mas em uma época de transição como a nossa, trata-se de algo que ganha realmente importância. Pois estamos em uma época em que a subjetividade é incorporada por um tipo de individualidade e esta, por sua vez, se mostra de maneira peculiar: o boneco pode ser nós mesmos, mas segundo uma pequena alteração estética que diz que talvez estejamos num desencontro entre espírito e corpo. Ou pior, que podemos ser uma cópia de nós mesmos, um duplo gerado num laboratório daqueles que produziu a Dolly.

Talvez seja bom, mesmo, tirarmos mil selfies, para todo dia garantirmos que somos nós mesmos nas imagens que conseguimos de nós mesmos. Talvez seja por isso que fazemos tanta micagem nos selfies. A estética de uma pequena falta de autocontrole pode nos dar a dica de que à noite fomos trocados corporalmente. Num mundo rico, de democratização do luxo e, portanto, de império da leveza, como confiarmos em uma ontologia? Como saber se o peso da realidade está vigente num mundo em que rompemos com a gravidade a todo momento?

Na verdade, o que nos causa repulsa no Uncanny Valley tem a ver com a estética da perda de auto-controle, ou seja, a estética específica e especial de um tipo de descontrole. Essa estética é peculiar e é bem delimitada e ressaltada. Um robô parecido conosco, mas que pode falhar na hora de falar, ou falar esquisito, ou demonstrar algum traço estético não-humano ainda que seja muito parecido com o humano, é mais assustador agora, nessa transição do modelo de subjetividade moderna para o que Sloterdijk chama de pós-moderno. Mais agora que nunca esse robô ou boneco pode ser um espelho traidor, que nos revele que não estamos tão preparados para ser os seres leves e desmedidos e pseudo-dionisíacos que vieram a partir do seres do auto-governo da formação moderna clássica. Ou que nos revele apenas o medo que temos de ser essa nova figura.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

[1] Sloterdijk, P. Sphären III – Schäume. Frankfurt am Main. Suhrkamp, 2004, p. 850.

[2] Idem, ibidem.

[3] Idem, ibidem, 850-51.

Gravura: Robô chinês chamado de “Yangyang”.

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4 Responses “A Era da Caricatura Sutil – Ainda a teoria da repulsa a partir do Uncanny Valley”

  1. Guilherme Hajduk
    03/07/2018 at 08:30

    Imagino que, nesse vale, perambula os mais repugnantes desvios psicológicos e físicos do ser humano — eis o verdadeiro Vale de Lágrimas! Me parece ser um amontoado das mais sutis formas de caráter e de personalidades que reprimimos instintivamente. Veja o palhaço: um ser cômico e trágico; alegre e melancólico; seguro em certos atos mas inseguro em certas emoções. Veja como ele trás à tona, em nossa consciência, toda a nossa natureza dúbia; e talvez esquizofrênica, que sempre tenta permanecer enterrada bem lá no fundo do nosso oceano, onde, próximo à areia mole e escura, esconde todo tipo de criatura marítima bizarra que o homem nem imagina que exista. Vemos essa estranheza e percebemos o quão vulneráveis somos — “Será possível? Um dia, eu, logo eu, poderei ficar assim? O limite do bizarro foi superado, e eu mesmo posso tê-lo superado e me tornado esse monstro até que outro me supere na monstruosidade?” — assim fala nossa cautela contra a nossa insânia. Aquele traço que mal detectamos o porque de nos parecer fora de lugar, portanto estranho, é o traço que joga na nossa cara a possibilidade; a possibilidade de tornar possível muitas coisas monstruosas, fazendo-nos temer a possibilidade de um futuro miserável ou um passado hipotético, na medida em que nos permitimos pensar, a partir de então, que a realidade poderia ser outra mais deformada do que esta que se apresenta para nós no conjunto de coisas. — Mas tudo isso pode ser descartado imediatamente com a simples cogitação de que se tem algo que nos programou — ou se simplesmente somos programados conforme nascemos, sem que nada queira ou deixe de querer –, nos quis para aceitar e amar tudo do jeito que aí está, e tudo o que não é deve ser abominado (“localizado e destruído”).

  2. Tiago
    02/07/2018 at 13:36

    Acabei de ler o artigo 1, que referenciou, está lá essa articulação, no último parágrafo.

  3. Tiago
    02/07/2018 at 13:23

    Paulo, o transsexual tbm não causa o mesmo tipo de aversão? Como isso se liga à hipótese da perda de auto-controle?

    • 02/07/2018 at 13:28

      Tá implícito ou talvez até explícito no meu texto, não? Você não leu os outros?

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