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11/12/2018

A biologia de Nietzsche sem aspas


[Para o público acadêmico]

Considero a professora Scarlet Marton a maior autoridade em Nietzsche da América Latina. Foi com ela que aprendi a dar atenção para a “fisiologia” de Nietzsche, a “biologia” de Nietzsche. Utilizei desses conhecimentos para escrever livros e artigos sobre o corpo, em especial o meu O corpo de Ulisses (Escuta, 1995), um estudo sobre a concepção de corpo na filosofia de Adorno e Horkheimer.

A parte mais interessante da concepção de corpo de Nietzsche, e que Scarlet Marton utiliza para fustigar a leitura que Heidegger faz do filósofo do grande bigode, é aquela na qual o nosso corpo aparece como uma pluralidade, não uma unidade. Somos um “conjunto de seres vivos”, diz Nietzsche. Heidegger afirma que Nietzsche se insere no âmbito de uma metafísica, em especial a “metafísica da subjetividade”. Segundo Heidegger, o que Nietzsche faz nada muda de substancial, e que ele apenas troca, no âmbito da subjetividade, a mente pelo corpo, mantendo o centro da ideia de sujeito como peça unificada, propícia para uma metafísica. Scarlet Marton, por sua vez, entende o pensamento de Nietzsche não como metafísico, mas como uma cosmologia. Na busca de evitar a interpretação heideggeriana, diz que, na sua leitura, Nietzsche não aparece como quem mostra o corpo como um sujeito, um equivalente da mente. O corpo em Nietzsche é um elemento plural, um “conjunto de seres vivos” que não detém nem uma razão e nem uma vontade unificadas, unidirecionadas e postas a serviço de um projeto intencional. Não haveria aí, portanto, um sujeito propriamente dito, na figura do corpo.

Até aí, então, a filosofia de Nietzsche permanece como filosofia. Sua biologia do corpo ou suas considerações fisiológicas seriam como narrativas sem respaldo científico. Aliás, um respaldo científico desnecessário, claro. Mas, se lemos o artigo de Helio Schwartsman na Folha, “Os quatro Tombos” (11/11/2018), começamos a ter de pensar em tirar as aspas das palavras “biologia” e “fisiologia” de Nietzsche.

Baseado em Virovolution de Frank Ryan, Schwartsman fala das funções de vírus e bactérias em nossos comportamentos. A conclusãso é estarrecedora, e colabora com os descentramentos já feitos por Copérnico, Darwin e Freud: “Alguns pesquisadores já sugerem que seria mais adequado pensarmos em nós mesmos como superorganismos do que como indivíduos isolados. Acrescenta-se assim, aos 30 trilhões de células humanas, algo como 39 trilhões de bactérias.” Assim, o estudo vai muito além do que até então advogávamos quanto ao nosso pertencimento à “terra”, ou seja, a evidência de que a mitocôndria era um animal independente que foi absorvido. Trata-se de algo mais efetivo, mais direto, menos uma questão de fossilização, digamos assim. O que Ryan mostra realmente nos leva à ideia nietzschiana de corpo não como uma visão filosófica propícia ao combate contra a metafísica, mas a uma hipótese científica que, enfim, poderá mudar toda nossa biologia e até mesmo nossa medicina.

Daqui uns anos poderemos ver nas matérias escolares, na disciplina biologia, não só Darwin, mas Nietzsche.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, fillósofo.

7 Responses “A biologia de Nietzsche sem aspas”

  1. 27/11/2018 at 05:53

    Professor, fiquei muito admirado de ver Freud na apresentação da sua página ao lado de grandes pensadores e, tanto quanto sei, honestos. Digo isso porque a psicanálise é apenas uma pseudociência. Confirme em sites, como por exemplo, um brasileiro que tenho em grande consideração(traduz artigos científicos de revistas revistas por pares, o “Universo Racionalista”. Nele fiquei a saber que ele forjou tratamentos que legitimavam a sua teoria da psique humana. Trocou os nomes dos/das(sobretudo das) pacientes que tentou tratar sem sucesso que depois de psicanálise, inclusivé se vieram mais tarde a cometer suicídio. A sério, confirme! Eu também fiquei admirado. Tenho aprendido imenso consigo e vejo todos os vídeos e tenho também passa–los a amigos. Isto não é uma crítica, se fosse seria das construtivas!

    • 27/11/2018 at 12:04

      Zé Cortez, nunca fale isso da psicanálise. Nem tente falar em ciência ou não ciência se referindo a Freud. Freud e Marx escreveram filosofias, mas numa época em que ter status de ciência era importante. HOje, não mais. Sabemos o que é filosofia. A psicanálise o marxismo são grandes construções teóricas, devem ser lidos com inteligência, jamais com desconhecimento. Estude a coisa.

  2. andre ribeiro filho
    13/11/2018 at 18:34

    ÔÔÔ Professor…. O senhor quer rir um pouco ??? … do Bolsa ???… vou indicar um vídeo dele…. foi a melhor entrevista que fizeram com ele… eles editaram legal… colocaram musiquinha…. câmera lenta…. o ponto alto… eles colocaram dois gays se beijando bem do lado do Bolsa… eu ri muito…. o bolsa com sorrisinho amarelo…. todo constrangidinho… parecia uma virgem…. um ator fez o que os jornalistas queriam fazer com o Bolsa e não conseguiram ….. deu de dez a zero nas entrevistas do bonner e da globo news…. Os jornalistas deveriam se inspirar nesse vídeo…..quatro anos no You tube… não viram…não fizeram o dever de casa…. o nome do vídeo no You tube é “”” PODEROSO CASTIGA ENTREVISTA O DEPUTADO JAIR BOLSONARO 27/04/2014 PANICO NA BAND”””

  3. andre ribeiro filho
    13/11/2018 at 18:18

    ENGANANDO O BOLSA…(O SURGIMENTO DE UMA AMIZADE)… O Mercado conversando com o Paulo Guedes… – “””ÔÔÔ Guedes…a gente pode te pedir um favor.??? e o Guedes respondendo…. “”claro, se estiver ao meu alcance”””… e o mercado continua… – “””Olha só, guedes… voçê sabe que a gente retribui bem quem colabora com a gente, né..??? “”” e o Guedes … _ “”” claro que sei… jornalistas, economistas, politicos…. “”” e o Mercado continua o pedido…. “”” – Então Guedes… a gente tá achando que os nossos candidatos… o Alkmim… o Meireles…o Amoedo… estamos com a desconfiança de que eles vão virar mingau nessa eleição… e que o maluco do Bolsa pode ganhar””””…. e o Guedes respondendo … _ “”” é realmente… pode acontecer… o povo tá mesmo puto da vida””” e o Mercado…. _ “””” ÔÔ Guedes, o nosso pedido é o seguinte… não vai ser difícil… será que voçê poderia se aproximar do Bolsa pra gente…???? fazer amizade com ele…??? enfim… conversar com ele… mas não diz que foi a gente que pediu….ele gosta de descontração…. conta uma piada de gay com ele…. ele vai rir… vai se amarrar…. aí voçê faz uma outra brincadeira de abraço hetero…. de mulher fêia…. essas coisas que ele gosta….. ele é meio bôbo…. ele vai rir com voçê… diz que assistia ele no Super-Pop… ele vai achar voçê super-agradável… aí voçê pega a confiança dele ….. e se prontifica a ajudar o governo dele… ele não conhece ninguém mesmo dessa área…. sempre foi preguiçoso… a gente queria que voçê fosse o chefe da economia do governo dele…ele vai comer na sua mão…. voçê não gostaria de ser ministro da Economia, guedes…???? e o guedes…. super-ambicioso… com um baita sorriso na cara…. respondendo assim…. “”” é mesmo… adorei a idéia… deixa comigo que eu vou enganar o Bolsa… vocês podem ficar tranquilos””” e assim surgiu a amizade entre Bolsa e Paulo Guedes

  4. Gustavo Deister
    13/11/2018 at 18:03

    Paulo, um texto incrível que assume essa possibilidade é o “Monadologia e Sociologia” do Gabriel Tarde, contemporâneo de Nietzsche, que ficou apagado pelo sucesso de Durkheim. Deleuze o comenta em um dos Mil Platôs, e é impressionante como ele tenta dar conta das complexidades sociais a partir da perspectiva infinitesimal, molecular e monádica. Muito bom seu texto, boa lembrança para pensar o corpo em Nietzsche. Heidegger faz malabares para não lidar com esse problema da multiplicidade e centrar toda interpretação de Nietzsche no eterno retorno do mesmo. Abraço!

    Gustavo.

  5. Manuela Ávila
    12/11/2018 at 12:41

    Será que toda essa crítica social que atualmente tem feito e postado no Youtube é uma fuga de si mesmo? Será que você tem medo de fazer em si mesmo um processo profundo de autoconhecimento?

  6. Hilquias Honório
    11/11/2018 at 22:48

    “Alguns pesquisadores já sugerem que seria mais adequado pensarmos em nós mesmos como superorganismos do que como indivíduos isolados. Acrescenta-se assim, aos 30 trilhões de células humanas, algo como 39 trilhões de bactérias.”
    Isso me deixava aterrado na adolescência.
    Mas genial: Nietzsche na aula de biologia? Talvez em um futuro bem próximo.

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