Go to ...

on YouTubeRSS Feed

25/04/2018

Uma filosofia da história para não-ovelhas – Recortando Rorty contra Chantal Mouffe


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Os Estados Unidos tem a democracia liberal como modo social de vida, o resto do mundo a toma como um modo de governo. Só na América a democracia ganhou essa condição, de esteio da vida cotidiana. Uma boa parte dos intelectuais do passado americano (John Dewey à frente) nunca opôs a democracia liberal a qualquer outra coisa senão ao modo de vida da Europa do Antigo Regime. Este, por sua vez, nesse tipo de análise, era tomado como um modo não natural de vida, uma irracionalidade, um caminho fora da reta para a liberdade e felicidade.

Não podemos deixar de notar isso: a primazia da democracia liberal como um elemento da sociologia, para americanos, enquanto que ela é um elemento que cabe na análise política, para europeus. Americano gosta de conversar, divergir, criar narrativas para tudo, e prima proteção a minorias na hora de votar e decidir pela vontade da maioria. É uma maneira de ser, não uma condição da política. Sem convencimento, as pessoas não se engajam em trabalhos comuns – os americanos aprenderam isso ao se sentirem orfãos da Mãe Inglaterra.

Não raro, o erro é desconhecer essa questão, quando há autores escrevendo e comparando pensadores europeus e americanos. Os outros erros seguem este primeiro. Em um livro de título Sobre o político (São Paulo, Martins Fontes, 2015), Chantal Mouffe é vítima de um descuido desse tipo.

Ela defende, pela esquerda, uma política de antagonismos, mas logo avisa que não compactua com nenhuma forma de terrorismo. Ora, qual intelectual endossaria o terrorismo, assim, em um livro? Então, é certo que ela está falando, de fato, não de terrorismo, mas de seu pé-atrás diante de uma política que inclua a violência material, a guerra. O “antagonismo” que ela prega é uma maneira de fazer política radical, e que não ceda ao desejo afoito de se chegar a um consenso, como um regra básica e objetivo último da democracia. Nesse sentido, ela condena Habermas e Rorty, por conta deles insistirem na universalização da democracia e por conta de assim agirem na base de que esta é o campo dos consensos. A democracia para ela inclui antes dissensos que consensos, antes agon que calmaria que não ajuda as velas. Todavia, nessa igualação entre Rorty e Habermas, ela erra.

A diferença entre Habermas e Rorty é que o primeiro quer a universalização da democracia à medida que encontra fundamentos filosóficos para ela, que a legitimam como sendo o melhor dos mundos possíveis, enquanto que o segundo também deseja a sua universalização, mas admite não ter qualquer fundamento filosófico para tornar a democracia liberal ocidental o ponto de chegada da história humana. Mouffe conhece essa diferença, mas a desconsidera em nome do que vê nesses autores como iguais. Ambos estariam como que domesticando a política, admitindo-a como um terreno de apaziguamento, de conversão em favor do consenso.

Mouffe não percebe que se Rorty assim age, em favor de consensos que se obtém de tempos em tempos (e não consensos eternos), é justamente porque ele vê a democracia liberal, em boa medida, como o que se põe como esteio da vida social. Que aja conflito no âmbito político, ele admite (como não admitiria?), mas para que possamos viver no cotidiano, nossa vida social precisa de consensos em milhares de situações de trabalho comum. Mouffe não percebe essa perspectiva tipicamente americana de Rorty, que desloca o olhar da democracia para o modo como ela aparece nos Estados Unidos, como uma forma de condução da vida que não tem a ver com a política, a política dos políticos e dos movimentos claramente políticos.

Todavia, Mouffe comete um segundo erro; ela pensa que Rorty acredita que a história deva ser uma história de ovelhas. Rorty não diz nada que se possa pareceer com isso. Tanto a vida social quanto a vida política, em determinados momentos, guarda situações muito mais antagônicas do que quer hoje ser admitido por neomarxistas.

O exemplo mais claro dado por Rorty é de quando ele analisa Walt Whitman à luz do hegelianismo existente na América no tempo deste e de John Dewey. No livro Para realizar a América, que traduzi para o Brasil junto com Alberto Tosi Rodrigues, Rorty escreve:

  • “O futuro ampliar-se-á infinitamente. Experimentos com novas formas de vida individual e social interagirão e reforçarão mutuamente. A vida individual tornar-se-á inimaginavelmente modificada e a vida social inimaginavelmente livre (…) Um romance de diversidade innfinita não deve, contudo, ser confundido com o que atualmente é chamado ‘multiculturalismo’. Este último termo sugere uma moralidade ligada ao viver-e-deixar-viver, uma política de desenvolvimento ombro-a-ombro pela qual membros de diversas culturas preservam e protegem sua própria cultura contra as incursões de outras culturas. Whitman, como Hegel, não tinha interesse em preservação ou proteção. Ele queria competição e debate entre formas alternativas de vida humana – um agon poético, no qual estridentes discordâncias dialéticas seria resolvidas em harmonias inéditas até então. A ideia hegeliana de ‘evolução progressiva’ que foi a grande contribuição do século XIX para a política de o pensamento social, é que qualquer um pode desempenhar o seu papel contra o outro. Isso ocorreria de maneira não violenta se possível, mas violenta se necessário, como foi de fato necessário na América em 1861″.  (Rio de Janeiro, Editora DP&A, 1988, pp. 60-61).

 

Rorty fala de Whitman e cita Hegel, mas trata-se de estilo. Na verdade, ele assim fala como quem endossa tais desejos do poeta e do filósofo. Esse trecho citado em destaque, penso eu, deixa claro, contra a leitura de Mouffe, que Rorty não participa de nenhuma perspectiva na qual a democracia futura, como lugar de riqueza de criações, deva ou possa se universalizar sem uma política agonística. Esta perspectiva rortiana está londe pregar uma política de ovelhas, sem violência. Nesse sentido, Rorty é até mais radical que a própria Mouffe, que prega o agonismo mas nunca a violência. Rorty não prega a violência, mas lembra que Hegel não via o progresso como algo pacífico, e que a própria América soube disso em 1861. Ou se derrotava os escravistas ou não se teria nenhum passo na direção de uma universalização da democracia liberal.

Rorty condenou a invasão do Iraque feita por Bush. Era uma invasão baseada numa mentira. Mesmo que fosse uma verdade, Rorty nunca apostou suas fichas da universalização da democracia a partir da Pax Americana. Por isso, quando da invasão do Afeganistão, pediu perdão ao mundo antecipadamente pelo que seu país faria a todos. Essas atitudes pacifistas e em favor da racionalidade do diálogo, em Rorty, nunca foram uma via ovelhística, mas o reconhecimento de que tais situações não eram as situações de impasse, como a de 1861 na América.

Rorty chegou a dizer que ele teria disposição de convencer qualquer nazista de que a vida na democracia liberal americana era melhor do que a vida sob o nazismo. Mas ele deixou claro que não tentaria tal façanha com o próprio Hitler.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo. São Paulo, 15/03/2018

Foto: Chantal Mouffe by © Serena Campanini / AGF/SIPA

Tags: , , , ,

3 Responses “Uma filosofia da história para não-ovelhas – Recortando Rorty contra Chantal Mouffe”

  1. Anderson Silva
    15/03/2018 at 16:31

    Complexo……

    A liberdade é o tema central? Por um lado, alguns a tomam como uma máxima política, ou um fundamento para a construção do Estado, por exemplo (o que aconteceria com os Europeus?) e, por outro lado, existiria uma liberdade que extrapola a máxima política, que não é apenas um tijolo colocado no alicerce de uma construção, mas é um modo de vida, uma forma do próprio construtor do edifício respirar….. (?)

  2. Rokko
    15/03/2018 at 16:10

    “Ora, qual intelectual endossaria o terrorismo, assim, em um livro?” – Márcia Tiburi…opa, desculpe! Márcia Tiburi não é uma intelectual. 😉

    • 15/03/2018 at 17:59

      Márcia Tiburi não sabe o que fala, não vale.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *