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16/11/2018

Quem é fascista?


[Artigos para o público em geral]

Tem gente na esquerda que acha que todo mundo que não é do seu partido deve receber o qualificativo “fascista”. Há inclusive aquela moça que disse que o Lula é “o crush de todas as mulheres”, a Márcia Tiburi, que não quis conversar com aquele Kim, embora ela tenha escrito um livro que ensina como “conversar com um fascista” – e ela considera Kim um fascista. É um livro cheio de letras e páginas, mas deveria ser um livro vazio, já que na prática ela mostrou que não quer conversar com a direita fascista. Mas, enfim, quem são os fascistas ou, melhor dizendo, os neofascistas?

Uma outra tendência, e essa tem até apoio teórico, é aquela que vê no fascista um desequilibrado mental, um louco. A direita também faz isso, patologiza todo o comportamento diferente. Vê o extremista de tipo leninista como maluco. O liberal também age assim, criminalizando e jogando para o manicômio quem quer mudar radicalmente a sociedade. Essas posturas de não compreensão do extremismo não ajudam em nada o entendimento de nossa vida urbana moderna. Servem para conversas de disputas ideológicas, em que cada um quer ser enganado mais ainda pela sua própria tese.

Não estou dizendo que não existe maluco no mundo. John Lennon foi morto por um fã apaixonado. Bolsonaro foi esfaqueado por um indivíduo que diz que Deus lhe deu a ordem para eliminar o candidato. Não estou dizendo que o Cabo Daciolo e esse rapaz da faca não são meio esquisitos. É sempre bom pensar caso a caso.

Numa cultura como a nossa, Ocidental, as pessoas não costumam fazer atos ouvindo diretamente a voz de Deus. Seria diferente numa cultura menos laica, claro. Talvez Daciolo e o rapaz da faca até pudessem ser vistos como pouco esquisitos no Irã, onde há um bocado de gente disposta a explodir alguma coisa por conta de uma ordem direta, nos seus ouvidos, vindas de Deus. Patologia mental não é algo que se possa classificar sem levar em conta contextos culturais, tradições religiosas. Nenhum índio que enterra filho, se ainda no âmbito de sua cultura, é louco-sádico. Psicólogos que curam gays são energúmenos exatamente porque não sabem o que é o conceito de cultura.

Imagine a seguinte situação, que qualquer um que não esposa ideias de direita, pode encontrar no seu vizinho ou em um seu parente até próximo. Veja.

Podemos notar pessoas que estão ao nosso redor, e que tem preconceitos contra negros (mas não vão partir para a violência contra eles, no máximo vão lhes negar cotas e olhar torto), que acham que mulheres devem ficar restritas a certas ordens de homens (mas que não endossam violência física contra a mulher), que acreditam que estrangeiros não deveriam ficar no país (mas que não querem matar venezuelanos), que não gostam de gays (mas nunca pensaram em atirar uma pedra em um e, talvez, nem mesmo tirar um do emprego), que acham que pobres sempre devem existir (mas são capazes de dar uma esmola) etc. Gente normal. Não é? Mas que, numa sociedade liberal moderna, são as pessoas classificadas à direita; e são mesmo, já que defendem que uns sejam melhores que outros por razões que possuem pouca explicação razoável. (Esse amor pela hierarquia vinda da raça ou de fatores pouco mensuráveis é o centro da ideologia da direita, radicalizada no nazi-fascismo). Quem pode dizer que tais pessoas, diante de um liberal convencional, que prefere apostar em uma sociedade igualitária em oportunidades e que aceite diferenças que não impliquem em humilhação de alguns cuja cultura e modo de vida não é hegemônico, não é um indivíduo normal? Não as temos em nossas casas?

Criminalizar pessoas ou patologizar gente que, em política, é extremista, é péssimo caminho para o filósofo. O adjetivo fascista cabe para quem se porta como um Hitler. Mas cabe para alguém como a Le Pen atual? Ou cabe para ela o qualificativo “neofascista”? Deveríamos chamar o General Castelo Branco de fascista, ou só o Médici. E de “loucos sádicos”, eles dois ou apenas Brilhante Ustra? E Bolsonaro, quando fala que preferiria ter um filho morto que um filho gay? Louco ou simplesmente um conservador que fala pelos cotovelos sem pensar no que fala? Realmente um maluco? Maluco ou apenas um bobalhão que, enfim, nem percebe que talvez seus filhos sejam gays? (ah, só é gay quem faz sexo anal passivamente, pensa o tolo Bolsonaro!).

Como se pode ver, atitudes fascistas são atitudes fascistas. São possíveis de serem identificáveis melhor do que pessoas completamente fascistas, em especial em um mundo em que o nazi-fascismo se tornou o símbolo do crime contra a humanidade. Então, mesmo a Guerra esteja lá em 1945, qualquer um que tenha certo amor por Hitler, e que não seja estúpido (há estúpidos!), não vai dizer desses seus amores por aí. Identificar-se com o perdedor da guerra e criminoso é só para tonto (há tonto!). Assim, o fascista pode disfarçar, pode se dizer de direita, mas negar ser fascista – e isso pode ser verdade. Pode falar, mas, enfim, em uma série de atitudes, endossa posições que foram as de Hitler e do ideário neonazista – oscila entre um conservadorismo que caberia na casa de Bush, mas não na mesa de Trump. Pode ser uma pessoa má. Mas pode ser uma pessoa de bom coração, e que acredita que uns devem mandar nos outros e que os que mandam são de uma raça melhor, de um tipo melhor, e por isso mandam e devem ser obedecidos. Esta sim, a hierarquia de explicação mística, é uma característica central do tal do nacional socialismo de Hitler e do fascismo de Mussolini ou de Franco ou de Salazar ou de Pinochet.

Um dos melhores estudos sobre o pensamento conservador no Brasil, sem cultivo de preconceitos, foi feito por Marilena Chauí, inclusive com ensaios de chefes integralistas. São do tempo em que Marilena era uma pesquisadora, não uma militante política que resolveu, também ela, deixar que a ideologia lhe tirasse o discernimento filosófico. Ela ainda não havia sido morta pelo lulismo. Esses estudos devem ser recuperados.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

Foto: Filho de Bolsonaro posa armado e ao fundo a bandeira usada pela organização de “Supremacia Branca” americana, ligada à KKK. Nesse caso, ele se assume como defendendo os ideários da KKK, um braço do que é considerado o neofascismo americano. Não se trata de imputação, ele tirou a foto e colocou nas redes sociais. Se chamado de fascista ele diria frases como “foi brincadeira” ou “eu nem sabia de onde era essa bandeira” etc. Agiria como o próprio pai faz, que sempre se desmente?

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16 Responses “Quem é fascista?”

  1. Gustavo
    06/11/2018 at 13:52

    A direita política se encarrega de fazer o que a esquerda propõe. Em toda história foi assim . Lênin disse : “O fruto natural do comunismo é o anti comunismo , e antes que os anti comunistas se organizem , organizemos nós o anti comunismo”. Como agora no Brasil, se os que dirigem a política ( pois não é o Lula, o Bolsonaro ou outro fantoche) percebem que há uma reação muito forte da sociedade em geral contra o socialismo ( que é o embrião do comunismo), pega-se um elemento comunista ou que partilha de alguma idéia que conduzirá ao socialismo/comunismo e funda um novo movimento anti comunista. Por exemplo O Benito Mussolini “criador” do facismo, recebeu esse nome de Benito do pai em homenagem ao um famoso comunista, Benito Juarez do México. Mussolini era anarquista, foi durante 10 anos diretor do jornal Avanti! do partido socialista / comunista da Itália ( http://www.avantionline.it/). De repente ele ficou anti comunista , isso se deu porque quando o comunismo/ socialismo na itália estava desmoralizado , produzindo muita revolta no povo , farto da bagunça e todos queriam acabar com isso, Mussolini viu essa oportunidade, se apresentando como anti comunista tomando o poder em nome dos anti comunistas. A manobra é ardilosa, pois pegou ele um ou dois chefes mais visíveis do comunismo / socialismo falido e liquidou-os, depois fez leis comunistas para aplicar na Itália.

  2. Roberto
    11/10/2018 at 11:26

    Eu nunca havia parado para pensar nessa curiosíssima possibilidade dos filhos do Jair Bolsonaro, todos na casa dos 30 e 40 anos (exceto o Renan Bolsonaro, que conta 19 anos), e nenhum deles é casado!
    Será mesmo que os quatro filhos (Renan incluso) são homossexuais? Ah, se for, que bem-merecido karma! Ele, que tanto prega o ódio aos gays, teria gerado quatro! Aliás, isso não poderia sinalizar para a possibilidade da sexualidade realmente ser herdada geneticamente???

    • 11/10/2018 at 16:40

      Roberto, é evidente que eles são misóginos. E entre eles, há os que são francamente incapazes de qualquer relacionamento.

  3. aristeu chamberlain
    18/09/2018 at 16:40

    uma questão: há, mesmo um vinculação, direta ou indireta, entre antiliberalismo e fascismo?

    • 18/09/2018 at 19:21

      O antiliberalismo tem uma expressão direta no fascismo. O fascismo é a criação de monopólios PRIVADOS nacionais com proteção do estado. É um regime burguês, capitalista, por isso conservador. Mas não quer livre concorrência interna, quer espaço para essa burguesia no âmbito externo com garantia de sobrevivência interna.

  4. aristeu chamberlain
    12/09/2018 at 21:25

    para adorno, “todo ser humano é um fascista em potencial”.

  5. Luciano
    11/09/2018 at 18:50

    Paulo, poderíamos considerar um atitude fascista incentivar o suicídio? No bairro onde moro um rapaz ameaçava se jogar do prédio onde morava e pessoas estavam revoltadas dizendo que os policias envolvidos na operação “poderiam estar fazendo outro serviço mais útil”. Isolaram a área num raio de 100 metros pq pessoas vaiavam o rapaz e o mandavam pular. Quando ele se entregou as vaias continuaram. Eu acho isso uma desumanidade e falta de empatia extremas. Poderia se enquadrar como uma atitude fascista?

    • 12/09/2018 at 08:14

      Luciano, não! Incentivar os fracos a se matarem vai muito além do fascismo. O fascismo não é sinônimo de crueldade, é sinônimo de hierarquias rígidas, esta é sua base. A crueldade com os desesperados é alguma coisa que é muito anterior ao fascismo.

  6. LMC
    11/09/2018 at 11:49

    A família Bolsonazi apoiou Crivella
    contra Marcelo Freixo na última
    eleição pra prefeito do Rio.Precisa dizer mais?

    • 11/09/2018 at 12:32

      Sempre é preciso dizer mais e evitar clichés fáceis.

  7. Guilherme Hajduk
    10/09/2018 at 23:09

    Foto: filho de Bolsonaro posa com sua ridícula cabeça que tem cabelo apenas da metade pra trás.

  8. Hilquias
    10/09/2018 at 20:38

    Muito bom! Meus amigos de esquerda nunca conseguem entender como funciona o fascismo e o conservadorismo. A direita mais malucona tem tentado botar Hitler e Mussolini na conta da esquerda.
    Mas eu percebo exatamente o que você diz no texto com parentes e conhecidos, vizinhos, pelas conversas no ônibus, no serviço. Conservadores com graus variados de perversidade (em alguns casos, até ingênuos, de bom coração, contra desrespeito aos Direitos Humanos, mas reacionários demais). Alguns até me lembram algo do seu texto sobre John McCain em 2008.
    Mas cômico mesmo é ver os “héteros” carregando o “mito” nas costas.

  9. Hilquias
    10/09/2018 at 20:36

    Muito bom! Meus amigos de esquerda nunca conseguem entender como funciona o fascismo e o conservadorismo. A direita mais malucona tem tentado botar Hitler e Mussolini na conta da esquerda.
    Mas eu percebo exatamente o que você diz no texto com parentes e conhecidos, vizinhos, pelas conversas no ônibus, no serviço. Conservadores com graus variados de perversidade (em alguns casos, até ingênuos, de bom coração, contra desrespeito aos Direitos Humanos, mas reacionários demais). Alguns até me lembram algo do John McCain.
    Mas cômico mesmo é ver os “héteros” carregando o “mito” nas costas.

  10. Carlos
    10/09/2018 at 20:02

    O fascismo está intimamente relacionado com fenômenos autoritários.

    O esfaqueador provavelmente passará por consultas médicas para avaliar sua sanidade mental.

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