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29/03/2020

Pós-verdade, pós-política e pragmatismo


Pragmatismo é a doutrina que diz que a verdade é o útil. É assim que William James o definiu, no início do século XX. Por sua vez, Richard Rorty,  no final do mesmo século, trouxe esse ensinamento para o campo linguístico. A verdade é função da linguagem em seu uso. E os usos em que o termo verdadeiro aparece (que são três) podem ser bem determinados. (1). Nesse segundo caso, há quem venha a confundir a atitude pragmatista como um aval ao movimento que outra chamamos de pós-moderno, e que agora reaparece com o nome de pós-verdade, algo que se liga à pós-política. Mas, isso tem fundamento?

Não! O pragmatismo prega uma superação da discussão sobre a verdade enquanto polo metafísico. Quer também, e por motivos técnicos em lógica, que possamos sair da prisão da noção de verdade como correspondência. Mas, de modo algum, endossa a tese da pós-verdade.

No campo da época da pós-verdade, a superação dos discursos sujeitos ao critério de verdade e falsidade não indica que vivemos sob a mentira, e também não diz que a verdade é o útil ou está sob os critérios do uso da linguagem, em termos determinados. Os enunciados em uma situação de pós-verdade são avaliados pelo seu espetáculo, pelo seu irracionalismo, pelo seu absurdo. O enunciado ou o conjunto de enunciados (uma “teoria”) é aceita se quebra o bom senso e nos joga para  a sensação de saber mais por conta de estarmos diante da revelação de algo que só os “iniciados” sabem, algo incompreensível, que desrespeita o que chamamos de sentido por conta de seu vínculo ao non sense. A época da pós-verdade não é a época das fake news. É a época das fake news se estas forem espetaculosas. A época da pós-verdade é a época da teorias da conspiração, em especial se estas forem contrárias ao bom senso.

Sair do jogo de verdade e falsidade e ir para o campo da pós-verdade não é dizer que a verdade é o útil ou algo de performance linguística determinado, mas é dizer que se pode acreditar, dar crédito, louvar, aquilo que o bom senso diria para desconfiar. A pós-verdade é o tempo do “like” no que é esdrúxulo. Por isso mesmo é a época da pós-política.

A pós-política é a situação em que não há mais negociação possível, nem luta de classes, nem qualquer conflito, uma vez que o poder está ocupado pelo palhaço, por aquele que para tudo tem uma saída tosca e engraçada – o humor a desgraça predomina e tira qualquer parâmetro para algo sério. O confronto é sério. A negociação é séria. Mas se a pós-verdade é o império do fim do bom senso, então a pós-política é o reino do confuso, do poder que abre mão de se exercer pela via indireta, e se exerce pela abertura ao que pode gerar a anomia. A ousadia da pós-política é sua marca. Mas é uma ousadia conservadora. No limite, o que se imagina é que o capitalismo continue funcionando por detrás, ou na frente, das pantomimas do príncipe tornado louco.

O pragmatismo, ao contrário de tudo isso, está afinado com a política liberal e, para alguns, com a política de esquerda. Pois o útil é o que se estabelece pelo bom senso, não pelo non sense.

(1) Sobre os usos de “verdadeiro” consulte o segundo volume de A aventura da filosofia, da Editora Manole.

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