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16/12/2018

Não há virtude alguma em ser liberal ou “de centro”


[Artigo para o público em geral]

Ficar na média é ser médio, medíocre. Aristóteles jamais disse que “a virtude está no meio” no sentido de nos aconselhar na política moderna. Ele falava de outro mundo e outras coisas. Marx se deu melhor a respeito de nosso tempo: temos de ser radicais, no sentido próprio da palavra, de “ir às raízes”, cavocar para achar a origem dos problemas. O que quero dizer?

Sim, dois de meus heróis em filosofia política, disseram coisas sobre o liberalismo que devo retomar para me fazer entender. Richard Rorty, ele próprio, se declarou um liberal. Definiu ser liberal, na conta de Judith Shklar, segundo um tipo que iria sempre se colocar contra a política de humilhação dos poderosos sobre os sem poder. Peter Slotertijk, por sua vez, disse que a liberdade é algo muito importante para ser deixada nas mãos dos liberais. Estou com eles. Ou o liberalismo serve como um cultivo da não crueldade e prepotência ou não serve para nada – isso Rorty nos ensina. Enquanto que Peter Sloterdijk nos ensina que o maior bem dos liberais, a liberdade, não é de fato algo que estes, com o tamanho cerebral que possuem, possam proteger e desenvolver.

Há hoje na sociedade brasileira um projeto de democracia que muitos intelectuais querem negar. É o projeto americano, o projeto não-europeu, o projeto da vida-com-internet. Duas grandes forças, esquerda e direita, comandam a política. Um projeto quase americano! Nos anos oitenta, Weffort fez um pergunta fatal, agora respondida. Ele queria saber se nossa democracia, então restaurada, iria seguir o pluripartidarismo europeu ou o bipartidarismo prático americano. Vivemos hoje o bipartidarismo. Mas o tiro saiu errado, ao menos para os intelectuais que, então, optaram pelo PSDB: PT e PSDB não viraram Democratas e Republicanos. Somos americanos, mas de um lado temos um populismo de esquerda, corrupto, e de outro temos um grande Tea Party doido. Não são radicais, são apenas extremos. Mas não são extremistas. São todos bem conservadores. Bolsonaro e Lula são conservadores. E quem quer romper com a ordem institucional para se opor a tais figura da direita e da esquerda, não é nada inovador, em alguns casos – com Safatle à frente – são adolescentes fora de época. É tipo “16 é rebelião”. A única rebelião que um Safatle pode fazer é conseguir sorrir e, talvez, concatenar algumas ideias de modo a fazer algum raciocínio que seja apenas o enlaçar palavras.

A política nossa precisa de gente que esteja menos fanática pela guerra e pela paz. Bolsonaro e Mourão são de fato a barbárie. Querem mudanças. Mudanças que levariam o Brasil para um capitalismo do começo do século XX.  A popularidade de Lula, que está mostrando que ele poder governar o país da cadeia, por sua vez, diz que nosso eleitorado, talvez sem o saber, é na maior parte social democrata: quer benefícios do estado, pois de fato o país é pobre e os pobres, desde Vargas, imaginam que só o estado os salvará. Eles não estão tão errados assim, se olharmos a nossa história. Tudo isso é, de certo modo, ainda ficar na média, ainda não pensar para fora da caixinha. Nesse imbróglio, os que defendem o liberalismo o fazem de forma ditatorial, e começam a gritar – Reinaldo de Azevedo à frente – pela ideia totalitária de que ou somos todos de centro-direita ou não somos gente.

Carecemos, ao menos como ponto de partida para inspiração, de uma filosofia política que, na América, foi levada adiante antes por Obama que por Bill Clinton. Obama ficou oito anos na Casa Branca, e pela primeira vez foram oito anos sem escândalos, sem qualquer caso de corrupção, e até mesmo os escalões subalternos andaram corretamente. Além disso, recuperou a economia americana. Essa economia estava em frangalhos com a crise da jogatina do sistema financeiro, e ele fez isso com intervenção estatal pesada, mas de modo inédito, sem que com isso qualquer das liberdades individuais ou liberdades de empreendimento fossem cerceadas. Liberal? De centro? Jamais! Populista? Ora, conheço só um energúmeno entre os intelectuais brasileiros que disse que Obama é populista. Obama fez uma política diferente da dos liberais, e ao mesmo tempo não cedeu um milímetro ao pessoal do Sanders e ao pessoal do Tea Party. Ele encarnou algo além da  mediocridade. Não caiu na esparrela de achar que cota social atrapalha a democracia e muito menos caiu na bobagem de achar que “American Democracy” é uma fórmula que se deva exportar sob a égide da Pax Americana. Obama fez da Casa Branca um laboratório de anti-metafísica: não há chave para fazer política, há somente a política do caso a caso. Ser radical é não ter ideias preconcebidas, e poder poder escapar de ser aprioristicamente de centro, de direita ou de esquerda. A coragem de tentar olhar os problemas caso a caso é a virtude da imaginação. Obama foi imaginativo e ao mesmo tempo um negociador incansável. Conversou com todas as correntes políticas, e mantém um cacife político hoje que é insuperável.

O que quero dizer é que a política da mediocridade, que é a política de centro, arrasta a direita e a esquerda juntas, pois tudo que se faz é tirar direitos ou conservar direitos ou se cobrar direitos. Uma política além disso é a política que consegue impulsionar um povo para inventar direitos. Hannah Arendt chegou a vislumbrar isso quando disse que o fundamental é o direito de ter direitos. Se Mourão-Bolsonaro querem tirar direitos, e o PT e Ciro querem restaurar direitos (tirados por Temer), e se o PSDB quer sabe-se lá o que com direitos, então não vamos adiante. Isso é o de sempre na história da República. É necessário gente que esteja pensando na criação de uma sociedade estapafúrdia com direitos que só os plutonianos, talvez, saibam quais são.

Dou muito valor para os que cuidam de animais, para os que são veganos, para as minorias que inventam cruzamentos de tradições artísticas, para os anões que não querem maçanetas mais baixas e mas sim portas eletrônicas. Dou valor para os que querem mais ainda: uma sociedade sem portas e, portanto, sem maçanetas, eletrônicas ou não. Acho bárbaro que tenhamos inventado sutiãs que levantam os peitos. Acho mais bárbaro ainda que possamos ter o Viagra. Tenho apreço até pelos que barram a ciência, pondo-lhe empecilhos éticos e, assim, obrigando-a a ser mais criativa ainda. Aposto mais nos que vão às raízes dos problemas e, para solucioná-los, buscam antes a imaginação que qualquer outra coisa. Marx teve a coragem de falar de uma sociedade sem trabalho e sem estado. Ser medíocre é considerar isso uma proposta ingênua. Só os utópicos no sentido de Marx, das “utopias vagas” de Rorty, são gente a favor do Partido da Imaginação, gente da minha raça.

Vamos ter que ter imaginação mesmo, pois vivemos numa sociedade onde a conversação não se dá na Ágora ou no mercadão, mas na Internet, com todos falando com todos, e mostrando aos jornalistas e a todas as posições políticas tradicionais que agora a lei é a da guerra contínua, num pega para capar onde todos têm o direito de ofender todos, e ao mesmo tempo de amar todos. O direito de falar se ampliou. Os não imaginativos se ressentem diante disso. Vivem falando de “ódio na internet” … Ohhh! É como se agora, com a Internet, estejamos vivendo as Duas Guerras Mundiais que produzimos só com rádio e jornais convencionais. Não estamos. Estamos em numa acomodação incrível de sermos liberaizinhos de por e tirar direitos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

Foto: inventar coisas simples, por que não?

 

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16 Responses “Não há virtude alguma em ser liberal ou “de centro””

  1. mathaus
    09/12/2018 at 05:02

    Sobre Obama: nem sei se ele realmente governou alguma coisa, durante os 8 anos de mandato tudo que eu vi foi um garoto propaganda de marca de tênis, e também houveram aquelas obstruções que os republicanos malucos fizeram no congresso porquê “Obama estava implantando o comunismo na america”, algo familiar?

    sobre Sanders: seu texto o “pintou” como radical, mas veja, ele representa o consenso pós-guerra, nada inovador mas não é um monstro tentando implantar a “ditadura do proletário” ou os “sovietes do povo” como dizem.

    • 09/12/2018 at 13:39

      Mathaus, todo fanático de direita ou esquerda só enxerga o que ele próprio constrói, e você é o caso. Em termos populares: o lunático burro que fala em ditadura do proletariado quando ninguém mais fala. Xô olavete, vá de retro burrão.

  2. Erike
    19/10/2018 at 15:02

    Muito bom artigo professor.
    Você não acha que tal mediocridade é parte de uma enxurrada de análises rasas sobre o significado de liberdade hoje?
    Marx precisou percorrer um longo e doloroso percurso para “superar” Hegel, e nos mostrar o Real.
    Hoje nos parece que a liberdade se traduz em simplesmente ter. Não criar como você bem ilustrou. E ai será que essa liberdade Ter não nos aprisiona novamente no mundo das ideologias prontas?

    • 19/10/2018 at 17:54

      Entre o ser e o ter, a moda é o aparecer. Pense nisso Erike. Uma descoberta de Debord

  3. Anderson Xavier
    03/10/2018 at 18:46

    No meu navegador o botão responder não esta funcionando.

    Não sou aluno da UFABC, pelo site primeiro você faz um Bacharelado em Ciências e Humanidades em três anos e depois escolhe uma formação específica, que nas humanidades podem ser:

    Ciências Econômicas
    Filosofia
    Planejamento Territorial
    Políticas Públicas
    Relações Internacionais

    Abaixo esta a lista dos professores do curso de filosofia:

    Coordenador do Curso
    Prof. Dr. Paulo Tadeu da Silva
    Equipe de Trabalho
    Profª. Dra. Anastasia Guidi Itokazu
    Prof. Dr. Daniel Pansarelli
    Prof. Dr. Fernando Costa Mattos
    Prof. Dr. Flamarion Caldeira Ramos
    Profª. Dra. Juliana Bueno
    Profª. Dra. Katya Margareth Aurani
    Prof. Dr. Luis Alberto Peluso
    Prof. Dr. Luiz Fernando Barrére Martin
    Profª. Dra. Marcia Helena Alvim
    Profª. Dra. Patrícia Del Nero Velasco
    Prof. Dr. Paulo Tadeu da Silva
    Prof. Dr. Renato Rodrigues Kinouchi
    Prof. Dr. Valter Alnis Bezerra

    • 03/10/2018 at 18:50

      Dessa garotada aí que tá já como professor, não conheço nenhum… Ah, pera lá, conheço a bela Patrícia, excelente professora de Lógica.

  4. Anderson Xavier
    02/10/2018 at 16:41

    Eu sou burro e sempre tento aprender. O Azevedo é burro também mas ele se acha inteligente falando rebuscado.
    Paulo, o curso de filosofia da UFABC é bom?

    • 02/10/2018 at 17:54

      Não sei, Anderson, como está lá no UFABC. Eu estou fora da universidade, aposentado. Já nem conheço mais a garotada que dá aula.

  5. dnailo
    29/09/2018 at 16:11

    bem que o senhor poderia nos brindar, aqui ou yotube, com algum artigo sobre das ideias e conceitos de radicais, radicalismo e radicalidade, nos seus mais diversos matizes e espectros ideológicos, no decorrer da história ou pelo menos, a partir da revolução francesa de 1789, com os jacobinos e os anarquistas da segunda metade do século xix, os bolcheviques russos de 1917, etc. tematizar e problematizar é com o senhor, mesmo@

  6. Hugo
    29/09/2018 at 12:10

    Professor, o senhor foi bloqueado no Facebook? Sentimos sua falta lá na sua página.

    • 29/09/2018 at 14:41

      Logo volto. Mas estou no instagram, twitter e youtube

  7. LMC
    29/09/2018 at 11:42

    O candidato do Reinaldo Azevedo
    é o Alckmin,mais conhecido como
    o Sérgio Cabral paulista.Rarará!!!

  8. danilo
    28/09/2018 at 23:36

    muito bom seu artigo, professor. agora, outra palavra, entre muitas outras, é a tl “polarização” nas~eleilõeis, lendo, ouvindo e assistindo à mídia. que “polarização”” é essa?

  9. LMC
    28/09/2018 at 19:37

    Bah,o Reinaldo Azevedo já deu a
    definição de quem é bolsonarista:
    é direita xucra.É que ele não é 13 nem 17.

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