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26/05/2018

Marx jamais esteve interessado em liberdade. O que é nossa utopia atual?


[Artigo para o público em geral]

Hegel foi um pensador da liberdade. Marx jamais esteve interessado em liberdade, mas em emancipação. Hegel acreditava que a história caminha de menos liberdade para mais liberdade. No início, um só era livre, os outros, obedientes ao livre. Depois, cada vez mais, a liberdade viria agraciar mais e mais pessoas. Marx também tinha uma filosofia da história. Ele acreditava que a história poderia ser desenhada a partir de revoluções políticas de emancipação, até que, com o trabalho coadjuvante da ciência e da técnica, o homem se emancipasse completamente do trabalho.

Essa característica do marxismo, essa sua filosofia da história, lhe deu enorme força de convencimento, especialmente após a Comuna de Paris e a Revolução de 1917 na Rússia. O homem poderia abdicar de querer a liberdade dos liberais, ou seja, a liberdade individual do cidadão proprietário, para então adquirir a emancipação do humano sem a canga do estado e do labor. “Socialismo + eletrificação = comunismo” era a fórmula de Lênin, em uma das interpretações do marxismo que se tornou bastante popular.

Na verdade, uma boa parte da humanidade está cada vez mais emancipada do trabalho, por meio da tecnologia. Uma parte da humanidade tem controle de seus estados a ponto de poder falar na diminuição dele. Mas, em ambos os casos, a emancipação começou a perder prestígio diante da falta de liberdade liberal. Quanto mais a crítica marxista ajudou a falar que mais importava a emancipação que a liberdade individual, mais o mundo todo começou a ver que sem liberdade individual como base, todo o resto que pudesse ser conquistado seria inócuo. Povo emancipado, Homem emancipado, nação emancipada, gêneros emancipados – tudo isso se revelou ou pouca coisa ou engodo sem que se pudesse falar em liberdade individual como direito individual, como parte fundamental dos Direitos Humanos. A força dessa premissa ajudou bem o liberalismo a se tornar o senso comum de nossa época.

O liberalismo combina com a sociedade de mercado, e com os graus de emancipação que ela permite. O liberalismo combina com a sociedade de direitos das democracias ocidentais modernas, e com isso proporciona os graus de liberdade individual que esta permite. De alguma forma, Hegel e Marx poderiam ficar satisfeitos!

Mas, se é assim, por que os marxistas não sossegam? Por dois motivos: um é político, o outro é filosófico.

O motivo político é que os marxistas acham que não existe meia emancipação, só total emancipação. É necessário para uma sociedade emancipada que ela não tenha ninguém que seja proprietário dos meios de produção, pois isso é que põe a força de trabalho como sendo mercadoria e transforma o trabalhador moderno é uma nova versão de escravo. Há variantes aí nessa interpretação e pode-se falar em distribuição ou não de mais valia etc.

O motivo filosófico é que os marxistas não acreditam que alguém possa ser emancipado, de verdade, se não puder encontrar Deus ou, o que dá no mesmo, a saída da Caverna. Escapar de véus ideológicos, que não são frutos de doutrinas intelectuais e, sim, produtos vindos da reificação e do fetichismo que compõem a alienação, tudo oriundo do mercado, é condição sine qua non para que cada um de nós tenha a clarividência, o encontro iluminado com a Realidade. A emancipação final não é só não ter que trabalhar, mas também é ter o conhecimento dos mistérios do mundo, é estar em êxtase de nada desejar, o estado que os teólogos, como Agostinho, identificaram como sendo aquele de quem encontra Deus, finalmente. Eterna satisfação, inclusive e mais que tudo, da curiosidade.

Nietzsche disse que os modernos inventaram a felicidade. De fato. Mas os marxistas inventaram até mais que a felicidade, eles criaram uma novidade fantástica: a utopia da vida feliz não é o lugar nenhum, não é de fato o u-topos, mas um lugar realizável, o próprio Planeta, e para isso bastaria saber a filosofia da história marxista e pensar em uma teoria da revolução. O marxismo tirou a utopia do seu caráter a-histórico para casá-la exatamente com o inimigo de toda utopia, a história. O próprio inimigo da filosofia, a história, deveria, então, realizar a filosofia. Eis aí o caminho da felicidade.

Acreditar que essa felicidade – ingênua, caduca, traiçoeira e divina – foi abandonada é a grande bobagem dos intelectuais de nossa época. Acreditar que ela depende do marxismo, então, mais bobagem ainda. O pedido de felicidade dos contemporâneos está reforçado à medida que mitigado. O homem moderno quer pequenos prazeres, diminutas felicidades. Ele quer sentir o pequeno sabor de ver a tecnologia emancipando-o do trabalho árduo, ainda que não de todo o trabalho. Ele quer sentir o pequeno prazer de ter alguma liberdade garantida por direitos políticos em sua sociedade, ainda que ele saiba que se tiver mais dinheiro terá como fazer tal liberdade mais palpável, em especial diante do aparato jurídico em que vive. Há uma diminuição de expectativas, de um lado, mas de outro, há a expectativa nova de nunca ter de morrer. E, nesse caso, já estamos fora do campo do liberalismo e do marxismo, fora de Hegel e Marx, e completamente inseridos numa nova forma de utopia, aquela que só os que entenderam de fato a tecnologia e o capitalismo podem imaginar.

O ideal da filosofia política não é mais a liberdade ou a emancipação, mas a vida eterna. Estamos montando todas as possibilidades, em vários sentidos – troca de cérebros, vida virtual, transferência de consciência, saúde para longevidade, segurança para troca de órgãos, engenharia genética etc. – para que possamos trocar de vez os sonhos do século XIX, de emancipação do trabalho, por sonhos do século XXI, de emancipação da carga pesada terráquea. Estamos vivendo rumo à leveza total.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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6 Responses “Marx jamais esteve interessado em liberdade. O que é nossa utopia atual?”

  1. Paulo Altino
    05/05/2018 at 23:46

    Verdade. Preciso ler mais…; Obrigado pelo texto e pela dica. Um abraço..!!

  2. Thiago Leite
    05/05/2018 at 20:47

    Paulo, onde compro teus livros sobre ‘história da filosofia’?

    • 05/05/2018 at 21:05

      Thiago, nas livrarias Martins Fontes, Saraiva, Cultura, Livraria da Folha, Livraria Travessa e por aí vai.

  3. Paulo Altino
    05/05/2018 at 09:25

    Como alcançar a vida eterna sem transcender da matéria ao espírito? Todos nós vivemos presos ao tempo e espaço nesse plano terrestre. Será que todo este avanço tecnológico é capaz de proporcionar aos homens e mulheres a felicidade plena ao ponto de criarmos uma dimensão de um mundo sem problemas (doença, fome, falta fé trabalho e etc.)? Ora, se alcançamos, conforme afirma o texto, o ideal da liberdade e emancipação, por que pessoas ainda morrem de fome, por que o aumento incontrolável da violência, por que vivemos mais uma cultura do TER, que uma cultura do SER..; Penso que só alcançaremos nossa emancipação de humanos quando vencermos a nós mesmo.

    • 05/05/2018 at 09:47

      Paulo, você tá brincando? O texto é fácil de ser entendido meu caro! Putz!

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