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15/12/2018

Mais educação não implica em voto liberal democrático!


[Artigo destinado ao público em geral]

O iluminismo ingênuo se junta ao iluminismo rasteiro. O segundo eu analisei como sendo o de Prandi, na Folha (Não se pode querer intervenção militar?). Agora o jornal foi buscar o primeiro nos Estados Unidos, por meio de Yascha Moungk.

Deveríamos fazer como Platão: estudar filosofia (e talvez todas as ciências humanas) é algo para além dos trinta anos? Não sei! O que sei é que sem cabelos brancos as pessoas deveriam ficar mais caladas, mas, justamente nessa época da vida, falam demais.

entrevistado pelo Folha (06/06/2018) é cientista político. Está perdoado! Essa é uma raça que fala desde o nascimento, sem pensar. E como não pensa, diz coisas que todos nós, nascidos nos anos cinquenta ou antes, sabemos que não se pode dizer. Ele acha que “educação histórica” nos salva de votarmos em candidatos autoritários, em populistas de direita ou esquerda etc. Onde ele aprendeu isso? Ele acredita que povos como a Alemanha e a Rússia eram incultos quando se meteram no nazismo e no comunismo? Ele acha que não há intelectuais aos borbotões que estão chorando por Lula estar na cadeia? Ele acha que não há centenas de bons professores que possuem boa impressão dos anos da Ditadura no Brasil (1964-85)? De onde esse menino tira ideias?

Acreditar que uma educação geral melhor ou mesmo uma educação histórica nos tira de selarmos nosso destino nas mãos de candidatos autoritários e populistas não é ingenuidade, é hipertrofiar a própria atividade política, como se ela fosse algo para a qual todos nós estaríamos voltamos. Mas isso não ocorre na sociedade moderna, talvez exceto entre franceses. Cientistas políticos e outros animais acadêmicos que se politizam em excesso, e por isso se ideologizam, acreditam que todas as outras pessoas vivem como eles. Muitas profissões levam a isso, a fazer com que nós só tomemos os outros como inteligíveis a partir de nossas projeções nelas. Quem lida com o estudo da política politiza tudo, e acha que cada cidadão está pensando em política, vota de modo “consciente”, julga com uma razão proporcional ao seu grau de informação etc. Mas não é assim, não na modernidade, e não na democracia moderna.

Na democracia liberal moderna, em especial nos sistemas em que a política radical, de conflitos, nem sempre tem vez, e onde a política é feita sazonalmente, o voto é decidido momentaneamente, e por uma atividade muito pouco reflexiva. Não estou dizendo que ter um país mais educado, mais escolarizado, não importa para a questão de decisões políticas. Estou dizendo que a educação e a “educação histórica” ajuda nos conflitos, nas radicalizações em torno de demandas, mas, quanto à calmaria do voto, aí as coisas são decidas, não raro, por simpatias momentâneas. Um candidato não estúpido na direita, que mostre capacidade oratória e equipe, ou capacidade de decisão, pode conquistar pessoas com tendências à esquerda e vice-versa. Não estou falando de um Bolsonaro, claro. Aí sim, trata-se de um candidato que afasta pessoas inteligentes, de escolaridade boa etc. Mas estou falando de candidatos que são conhecidos e que, tendo acesso a meios de comunicação, podem ganhar a atenção por conta de retóricas objetivas e importantes momentâneas. Pode levar o voto de muita gente que, enfim, se pudesse acompanhar a política e se dedicar a refletir com mais tempo, talvez viesse a rechaça-lo.

Muitas pessoas sabiam que Hitler era anti-semita raivoso. Mas muitas pessoas eram de fato também anti-semitas, só que jamais endossariam o genocídio e, enfim, quando optaram por Hitler, estavam considerando um moço com uma retórica nacionalista que tinha apelo ao coração de uma nação humilhada. Hitler não venceu eleições. Mas teve votos. Na época, a Alemanha já havia há mais de 30 anos eliminado totalmente o analfabetismo! Quando os alemães saíram da Guerra e as fotos dos campos de concentração foram postas em murais em toda Alemanha, muita gente, mesmo já odiando Hitler, dizia: “isso não foi verdade, é tudo produzido pela indústria teatral de Hollywood, é tudo farsa dos americanos”. O engano e o auto-engano não são postos de lado por conta de escolarização ou “educação histórica”.

Há determinados momentos que as pessoas desejam experimentar a ideia de arriscar a perda de direitos, caso possam ver grupos odiados perderem direitos junto com elas. Nessa hora o auto-engano pode favorecer o engano e ambos serem, no fundo, nada enganoso, e sim o real desejo de opção por viver numa sociedade opressiva. Muita gente troca a liberdade por uma possível menos liberdade caso essa menos liberdade seja uma faca na garganta de grupos que, segundo tais pessoas, precisam pagar pela liberdade de fazer o mal, que exibem sem punição. Existe o gosto por ditadura.

Entender a política reduzida à política que se faz em torno do voto e só do voto acaba criando, na cabeça de quem pensa assim, uma relação de causa e efeito entre tipo de educação e voto que, para falar a verdade, nem é uma relação de causa e efeito – nem de modo relativo e bem distante.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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4 Responses “Mais educação não implica em voto liberal democrático!”

  1. Matheus
    10/06/2018 at 10:02

    Estou gostando muito dos seus textos esclarecedores sobre a origem da vontade “tirana” de um povo. Mesmo não sendo pelas vias mais categóricas como faria um “Etienne La Boetie”, afinal você é um pragmatista, brasileiro, contemporâneo. Muito boa essa redescrição do que viveu o povo brasileiro na última ditadura, para além do que todos os manuais de história de ensino fundamental e médio tentam nos passar “categoricamente”.

    A resposta me parece sempre um “sim e não”. Sim por um lado, não pelo outro, houve ditadura e sua cruel arbitrariedade? Sim, mas não de modo uniforme e constante, houve momentos (e principalmente, locais) de relaxamento e brandura. E sim, uma ditadura agora certamente traria de volta muito do que foi a antiga (tudo aquilo que sempre vem no pacote “ditadura”), mas não, não seria igual, idêntica, uma repetição do passado, seria outra coisa, mesmo com pacote clássico da ditadura.

    Posso falar pela minha cidade, interior de SP, aqui a escola pública só veio começar a ruir em meados dos anos 2000, na segunda metade da década para ser mais preciso… Isso muito mais pelos mandos e desmandos dos governos municipais e estaduais (a maioria PSDB, e isso não implica que uma gestão PT teria sido melhor, hein), sim as boas escolas, não sei como, conseguiram sobreviver aqui a todo o período ditatorial. Se eu fosse um pesquisador de história, certamente essa investigação de história local me interessaria muito.

    Sinto falta dessas histórias, dessas histórias pequenas, que acontecem aqui e ali, que ninguém dá muita importância. Sempre tenho medo desses figurões que teimam em falar de “Brasil”, não conheço direito esse lugar, e por tanta falta de conhecimento, acumulada de tantas formas e por tantas razões, quando teimamos em falar de “Brasil” acabamos parando naquele lugar terrível, o lugar-comum.

    • 10/06/2018 at 10:08

      Matheus, a ideia de que sou um pragmatista é apenas para dizer que, de vez em quando, sou alguma coisa. Talvez eu seja apenas um simpatizante do estilo Rorty. Eu não tenho posição definida a não ser a minha própria, que não está pronta. E nem estará.
      Sobre o resto que escreveu, concordo.

  2. LMC
    07/06/2018 at 11:16

    Quando os professores fazem
    greve,os políticos vem com
    esta conversa de que “ah,
    a Alemanha tem um povo
    educado e elegeu Hitler”.Pior
    que “professora não é mal paga é
    professora mal casada” do Maluf.

    • 07/06/2018 at 12:41

      A Alemanha não elegeu Hitler meu caro. Mas povo educado não vota em que você quer.

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