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15/12/2018

“Lula lá!” Para um novo estudo do populismo


Lula não é o repeteco de Vargas ou Brizola ou Jânio ou Collor. Seu populismo tem originalidade. É preciso notar que há algo de sincero em uma certa “emoção pelo bem”, que de fato ele provoca, coisa que foi mais difícil de sentir nos que seguiram seus antecessores de práticas populistas brasileiras. Nisso, Lula merece ser estudado. Os grandes nomes da filosofia política brasileira não fizeram isso. Duvido que façam. Contra ou a favor, estão envoltos no lulismo de uma tal maneira que parece não conseguirem botar a cabeça para fora da nuvem ideológica.

Não tenho os pés fora da Terra para dizer que, como filósofo, sou mais capaz de uma objetividade maior, quanto a Lula, que os colegas. Mas não vou deixar de tentar:

Ponho o populismo na mesa, em duas partes, a parte objetiva e a parte subjetiva. Ele tem sua faceta objetiva que, a meu ver, entre vários outros analistas, recebeu de Francis Fukuyama uma definição bem útil. Cito abaixo.

“Quer surjam nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia, os populistas são previsíveis. Seus primeiros alvos em geral são os imigrantes e as elites. Eles convocam os cidadãos ‘verdadeiros’ a retomar sua pátria, por meio de muros nas fronteiras e protecionismo comercial. A imprensa livre também sofrerá ataques e será descrita pelos populistas como propagadora de desinformação (fake news ) e inimiga da verdade. Em seguida, o populista voltará suas armas contra os mecanismos do Judiciário e do Legislativo responsáveis por contrabalançar o poder do Executivo. Apesar da preocupação mundial diante de populistas como Donald Trump nos Estados Unidos, Recep Tayyip Erdogan na Turquia e Viktor Orban na Hungria, ainda existe confusão considerável sobre o que é (e não é) populismo. A partir das múltiplas definições de populismo que estão em circulação, é possível destilar três características essenciais: criação de políticas públicas populares, mas insustentáveis; designação de um grupo populacional específico como único membro “legítimo” da nação; e adoção de um estilo de liderança altamente personalizado, com ênfase no relacionamento direto com ‘o povo’.” (Folha, 01/02/2018)

Exceto a questão dos estrangeiros, que é sempre uma marca mais própria do xenofobismo que marca o populismo de direita, todas as outras características foram inoculadas por Lula no petismo e na esquerda em geral, ou por ação nova ou por ação de restauração do modo tradicional de se fazer política no Brasil. Havia estofo e tradição para isso, mesmo tendo o PT nascido para lutar contra o populismo e contra os partidos comunistas tradicionais. No caso da característica chamada “ataque ao Legislativo”, Lula fazia isso no passado (“O Congresso tem 500 ladrões”). Ao final dos dias, antes da prisão, ficou só no ataque ao Judiciário, uma vez que, quanto aos partidos, havia já, desde sua primeira eleição, ampliado o leque de corrupção para que todos os partidos estivessem na sua mão, inclusive a oposição oficial, o PSDB (Lula sempre soube que Aécio se beneficiava da corrupção com os Batista, a corrupção que também era a sua própria – mas jamais deixou o PT jogar isso no ventilador em campanha).

A diferença da ação de Lula em relação aos outros populistas brasileiros é que ele inaugurou uma quase-religião. Ele empurrou para fora do partido a verdadeira religião, a das Comunidades Eclesiais de Base, para que o PT se tornasse ele próprio uma igreja, de modo a ter em seu chefe não um Papa ou um Bispo Maior, mas o próprio Deus. Lula se declarou ser “uma ideia”. No seu último discurso antes da prisão, afirmou que ele ressurgirá na alma de cada brasileiro que, em milhões de cantos do Brasil, irão levar adiante sua luta. Nada mais místico do que isso. Aliás, nesse último discurso, houve missa e a ateia Dilma leu uma “oração”. O surrealismo deu o tom.

Mesmo hoje, com o petismo já denunciado e mostrado como corrupto (no palanque de Lula, no sábado, dia da sua prisão, não havia ninguém do PT não envolvido em denúncia de corrupção!), seria completamente fora de propósito, tanto do ponto de vista lógico quanto empírico e moral, afirmar que as pessoas que ainda acompanham Lula de modo fanático (não o mero eleitor), são todas insanas e/ou desonestas. Para compreendermos o populismo de Lula, nesse caso, temos de passar à segunda parte da questão, que é a observação do populismo pelo seu lado subjetivo. Quem ele alcança? Quem ele pega?

Para isso, vou usar de um conceito, por mim modificado, de Peter Sloterdijk: bastardia. O filósofo alemão lança mão da bastardia para falar do rompimento com o pai, vindo dos que em algum momento entortaram a história. Da minha parte, uso o conceito de bastardia para entender os que até quiseram mudar o curso da história, ou querem, mas o fazem por serem bastardos, por serem completamente carentes de autoridade, aquela autoridade protetora que precisamos quando somos crianças.

Subjetivamente o populismo se arrasta por meio da existência dos bastardos. Na modernidade, a bastardia se amplia fácil, uma vez que se vê diante de massas de desgarrados pelo deslocamento espacial ou temporal ou social (Paulo Freire chamou essa gente de “desenraizados”, depois, com um termo menos feliz, de “oprimidos”). A bastardia moderna sempre dá chances para o populismo ser uma faceta importante na democracia. Estes, os bastardos, são pessoas sem pai,  ou seja, sem proteção. São aquelas que não tiveram o “pai herói”. São pessoas fracas, que estão ávidas de adoção. O populista pode roubar e fazer o diabo, ele sabe que, se der pseudoproteção ao desamparado irá conquistar o país onde a bastardia tem chances de imperar. Ele sabe que irá tirar toda a energia, necessária à própria vitalidade, sugando a dignidade do bastardo.

Lula foi e é mestre nisso. Seu discurso pré-prisão se fez peça típica, cheio de bravatas. Uma peça assim, segundo o figurino, pode e deve criar ilogicidades a granel. O ilógico é a melhor forma de criar condições de sugar o bastardo. Pois o bastado vive do ilógico, vive do milagre de ter sido adotado pelo paizão que surgiu do nada e que, por sua vez, também é um bastardo. Sim, o populista bom se apresenta, ele mesmo, como um bastardo. Ele é o doente que veio para curar outros doentes, pois se apresenta como o médico-mágico que curou a si mesmo.

Eis o discurso pré-prisão de Lula, em três pontos significativos.

Diz que se entrega não por vontade própria, mas por conselho da militância, para que esta não fique ouvindo dos opositores frases do tipo “ah, Lula está foragido”. Ora, mas de fato, no momento do discurso, já estava foragido. Estava ali no bunker do Sindicato dos Metalúrgicos fazendo o que?

Diz que vai “para as barbas deles”. Ou seja, ir para a cela especial é, para ele, um ato de coragem! Mas não é. Trata-se apenas de um destino ao silêncio, um beco sem saída. Se realmente tivesse o que fazer fora da cela, iria para o Uruguai. Prefere a cela por uma razão simples: não tem como manter a farsa senão na cela, como vítima. É o lugar para o qual os corruptos têm mesmo de ir.

Diz também que irá “provar inocência”. Que bobagem! Ora, se está indo para a cadeia é justamente porque o processo já terminou, ele já foi considerado culpado. As provas foram apresentadas. Duas instâncias o julgaram. Não há mais como reverter o quadro a fim de se tornar inocente. No máximo vai tentar espernear para não ficar os doze anos preso. Mas, como último recurso, o populista sempre apela para a fala a mais ilógica possível. Quanto mais fantasioso, mais este discurso pode se colocar como poderoso, e deixar migalhas aos fragilizados que ele enganou e engana.

Coloca-se como um pai (de todos os bastardos) martirizado, o homem que não tem o triplex que lhe foi destinado, como se isso o isentasse de ser corrupto. Afinal, se o triplex estivesse em seu nome, o processo nem precisaria de nada para declará-lo culpado por corrupção passiva. O crime de Lula foi, justamente, o de receber o dinheiro e de ocultá-lo. Ou seja, o crime não é só receber o dinheiro! Mas ao bater na tecla de que é vítima, ele atinge em cheio o coração do bastardo. O próprio pai, então poderoso, mostra-se fragilizado por uma injustiça terrível. Uma injustiça causada pelos juízes, os que têm altos salários e são poderosos. A primeira injustiça foi ter sido, ele também, um bastardo que vendeu limão na rua (segundo a lenda que ele mesmo criou). A segunda injustiça foi ele ter dado um prato de comida para o pobre, adotando-o, mesmo que a custa de “alguma concessão à burguesia golpista”. Mostrando-se assim, Lula torna um bastardo que fica à mercê de ser novamente um bastardo, e deixa todos os bastardos seguidores no desespero. E sabemos o quanto religião é coisa de desesperados. Ao bastardo lá embaixo do palanque o que se anuncia é que ele vai perder seu pai novamente. Seu pai vai deixá-lo, vai para uma cela. Ele, o bastardo, então sofre. Está sozinho novamente.

Seu sofrimento tende a ampliar seu fanatismo. Seu desamparo tende a fazer seu corpo ter reações de todo tipo. Pode cair em depressão. Pode desacreditar da vida. Quando Stálin morreu, a população dizia: “e agora, o Timoneiro se foi, nosso pai se foi, como faremos sozinhos?”. Já era uma segunda bastardia. Lênin havia morrido e, naquele segundo momento, veio o falecimento de Stalin. O que passava na cabeça da enorme nação em estado de bastardia completa: o resto do mundo, o mundo capitalista, estaria à espreita da Pátria Mãe do Socialismo (não seriam as outras nações todas elas novas Alemanha hitlerianas?). E essa mãe não tinha mais o grande marido, o grande pai, para protege-la. Como foi fácil criar uma geração de pequenos ditadores burocratas na URSS após a morte de Stálin!

Para onde irão os desamparados? Ora, não se transformarão em indivíduos autônomos. Já chegaram a tal grau de dependência que só lhes resta procurar um novo pai. São os pais urubus, que nos dias finais cercaram Lula para ver se pegam alguma parcela de seu eleitorado. Na verdade, já são a terceira geração de bastardos.

O populismo tem essas duas facetas que se unem assim: bravatas contra poderosos adrede escolhidos e emocionalismo distribuído entre os desamparados e incapazes de viver no mundo da concorrência de estilo liberal.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Autor entre outros de Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018).

PS: Ao final do livro Quem matou Vargas, de Cony (eu acho que li aos 16 anos), ele se rende ao populismo varguista que combateu na juventude. E assim permaneceu brizolista até o fim da vida. O bom escritor não conseguiu, ele mesmo, curar-se da bastardia.

O texto acima está aqui em PDF, para os que quiserem guardar, ou imprimir e usar em trabalhos acadêmicos, ou citar etc.

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13 Responses ““Lula lá!” Para um novo estudo do populismo”

  1. lucas
    10/04/2018 at 08:36

    Paulo, o conceito de esquerda ainda cabe ao PT?

    • 10/04/2018 at 09:23

      Lucas, esquerda é uma noção relativa na política diária. Esquerda só é conceito para professores de filosofia, de preferência franceses, como Deleuze. Duvido que americanos pensem esquerda nesse sentido.

  2. LMC
    09/04/2018 at 14:52

    Maluf e Cunha eram deputados,
    tinham foro privilegiado e mesmo
    assim,foram presos.Viu,Aécio?

    • 09/04/2018 at 14:53

      LMC não entendo seus comentários aqui, com coisas que não tem a ver.

  3. LMC
    09/04/2018 at 11:09

    Dizem que Lula não é Vargas?
    Mas ele gosta de fazer o papel
    de Vargas se dizendo o pai
    dos pobres,ataca a imprensa
    que não puxa o saco dele,etc,etc.

  4. Bruno Marcondes
    08/04/2018 at 21:46

    Paulo, você conhece o filme “A Morte de Stálin”?

  5. Eduardo Rocha
    08/04/2018 at 21:16

    Muito bom! Acompanhei os acontecimentos pelo noticiário. Paulo, além dessa sua análise. Não podemos considerar também que os bastardos são pessoas que tiveram mães na época do útero com “gravidez difícil”? . Mães mal alimentadas, gravidez com estresse, mães que não mimaram seus fetos, mães que não fizeram massagens na barriga, mães sem companhias porque elas mesmas são bastardas. Que tem poucos anjos e daimons. Que não conseguem fazer uma canção materna, nem há de se imaginar a boa nova começando a produzir a boa massagem, ou o evangelho, isto é, as congratulações de boas-vindas que sempre são emitidas pela mãe ou de parentes. Mensagens de promessas que não podem ser cumpridas, mas que sem elas o homem pereceria. Mensagens como: “tudo vai ficar bem”. Mães que os pais foram embora, sofreram traição, agressões ou ainda filhos com déficit de reconhecimento ou mimo. O bastardo não veria em um populista alguém no âmbito da filogênese e ontogênese como “um dos nossos”? Alguém que além de falar pode ter um cheiro no qual eu me reconheça? Os cheiros que são “dos nossos” é reconhecido e cria uma situação de “estar em casa”, nos aconchega, já o odor dos “outros” é feito para distanciar e evitar. Não são eles os filhos considerados “invasores”, os “idade do meio”, que são injustiçados desde o útero?

    • 09/04/2018 at 07:06

      Eduardo, o bastardismo que citei é simbólico, claro.

  6. Bruno
    08/04/2018 at 17:37

    Isso eu já sei.

    • 08/04/2018 at 18:06

      Bruno, pois é, a gente tem esperança na esquerda. Vira até uma certa forma de preconceito contra tudo que não é esquerda, e então nos perdemos até no conceito de esquerda. Não pode.

  7. Bruno
    08/04/2018 at 14:32

    “Ir além do pai, com a condição de saber servir-se dele”. Lacan

    Será que a esquerda consegue?

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