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21/10/2018

“Deturparam as ideias de Marx, dá-dá, gu-gu”


[Artigo para o público em geral]

Um brasileiro autodidata viaja para uma terra distante e encontra uma sociedade governada pelo Rei filósofo, dividida em castas de trabalhadores manuais, guardas protetores e uma elite intelectual.  Logo manda uma carta para a Academia, em Atenas, dizendo: “olha, meu caro Platão, encontrei a sua República, e aquilo não funciona”.

O entendimento de como se dá a relação entre as construções teóricas da filosofia política e a própria política efetiva das cidades é algo que se aprende aos poucos. É um trabalho escolar, do ensino médio, que é feito paulatinamente. Quando se chega na idade adulta sem ter passado por essa maturação, aí é tarde. Adquire-se uma ideia ingênua sobre a relação histórica e geográfica entre teoria e práticas políticas. Dificilmente há quem conserte uma cabeça apodrecida antes do amadurecimento.

Todavia,  penso que é possível fazer alguma coisa pelos cérebros dos que não fugiram da escola, os que foram iniciados na arte do ouvir e ponderar, na arte do desafio de ter de fazer provas escritas e conviver como diferente. O que segue abaixo, é para estes. Os autodidatas sabichões, aí não, aí eu dos deixo fazendo vídeos e escrevendo colunas jornalísticas como doutos.

Há várias tipos de construção em filosofia política. A clássica é aquela que está na origem da própria filosofia: a construção da cidade justa de Platão, que vem associada a uma metafísica. A metafísica dá o método para a verdade, de modo que a justiça a ser alcançada na cidade justa seja verdadeiramente justa. E também explica como que o rei filósofo fica sabendo da verdade e, assim, se torna o grande guardião da justiça verdadeiramente justa que rege a cidade.

Para além dessa figura clássica, há a utopia pura e simples, sem metafísica, como é o caso da Utopia de Morus ou da Cidade do Sol de Campanela e tantas outras. São idealizações cheias de detalhes, de funcionamento azeitado de uma sociedade completamente idealizada, sonhada. O detalhismo é colocado ali de modo que o leitor logo perceba que elas não são possíveis de serem construídas fora dos livros. Os livros, então, funcionam como que doadores de parâmetros que anunciam planos para sociedades que, enfim, estão fora dos livros, mas que não vão realizar o que está nos livros, todavia vão poder olhar para si mesmas de modo menos acrítico ao se compararem com as cidades utópicas.

Há também construções que não são utopias, são críticas do existente feitas não a partir da imaginação, mas da investigação empírica (pelos arquivos históricos e pelo contado direto), e só de maneira esporádica, por conta de uma filosofia da história ad hoc, apontam para alguma coisa futura, normativa, talvez possível de se parecer com alguma realidade. Esse é o caso da teoria de Marx das sociedades que se revolucionam, mudando modos de produção – do feudalismo para o capitalismo e do capitalismo para algo que, sem detalhes, ele chamou de comunismo.

Podemos acrescentar também aquela construção que não se pretende utopia e nem mesmo se associa a uma filosofia da história. Também não passa perto de qualquer metafísica. A teoria da sociedade justa de John Rawls é assim. Trata-se da formalização de uma sociedade liberal já existente (mais ou menos a americana), de modo que essa própria sociedade saiba como ela seria se pudesse ser posta em temos de uma jurisprudência justa. Construções teóricas desse tipo, que visam maior igualdade na preservação da liberdade, enfrentam construções utópicas como as de Nozick, que toma como ilegítimo qualquer imposto sobre a propriedade e, portanto, faz da própria sociedade justa de Rawls um centro de emanação de uma injustiça de base.

Cada pensador que trabalha com tais ideias sabe que, de alguma forma, agentes políticos irão se utilizar delas. Mas, de modo algum ele acredita que a vida social presente ou futura irá espelhar o que escreveu, exatamente porque o que escreveu é uma literatura, um tipo de ficção, e a realidade é sempre mais ficcional que a ficção, sempre mais fantástica.

Ser adulto é, portanto, não só entender a palavra “utopia” literalmente, mas também entender a palavra “teoria” como alguma coisa que ainda não é a prática. Ser adulto é entender que o que fazemos na realidade, mesmo quando inspirado em livros, não é análogo ao processo por meio do qual uma impressora desenha no papel aquilo que está estampado na tela. Mas ser adulto, assim, é algo que não alcançamos senão pela escola, pela conversa, pelos desafios postos pelo professor, pelo amadurecimento que é a disciplina de ler os textos clássicos e perceber como que eles se plasmam ou não na realidade cotidiana.

Ser adulto é ser capaz de compreender na sua amplitude a frase “se Rousseau estivesse vivo durante a Revolução Francesa, que em alguns momentos inspirou nele, certamente seria decapitado”.

O brasileiro é capaz de falar coisas como “o socialismo não deu certo” e não corar! O Brasil é capaz de ter uma esquerda que diz “deturparam as ideias de Marx”. É capaz de ter uma direita mais estúpida ainda, que diz o mesmo que a esquerda, mas em forma de pergunta: “então deturparam as ideias de Marx?”. Acham que estão fazendo uma ironia! O brasileiro precisa urgentemente ficar adulto. Há nesse pessoa infantil o não entendimento de como ideias e práticas se relacionam.  Esse relacionamento é complexo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

 

 

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