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26/05/2018

Coutinho coloca sua adolescência contra Marx


[Artigo para o público em geral]

Coutinho é um jovem lusitano que carrega um título de “doutor em ciência política”. Escreve na Folha. Põe-se na modinha de se dizer conservador. E eis então que, seguindo o que todo conservador precisa fazer, tece um artigo de meia dúzia de linhas destruindo um grande autor que ele não leu: Marx. Não se espantem, já disse, tá na moda isso de “ser jovem conservador”.

O interessante é que ele próprio se desautoriza. Ele diz que não vê Marx como cientista ou filósofo, mas como profeta. Como profeta, ele declara, Marx fracassou. E lambuza seu artigo com frases fantásticas, chamando Marx de homem de “cabeça estreita”!

Por que os conservadores têm tanta dificuldade em compreender Marx? Exatamente pelo mesmo erro de certa esquerda condenada por Coutinho. Eis o problema: considerar Marx um profeta é tomar uma pequena parte pelo todo, é cometer aquilo que chamamos de desonestidade intelectual. Ou seja, pega-se o que há de menor em um autor e, então, facilmente, sem critério, pode-se transformar tal coisa em uma caricatura, e eis que se passa a bater na caricatura. Comemora-se aí uma vitória de tolo. Coutinho fez isso, como fizeram centenas de outros colunistas nesses quase últimos duzentos.

Marx foi colocado ao lado de Hume na história da filosofia – os dois grandes filósofos da modernidade, responsáveis por dois grandes ataques ao modo de pensar tradicional. Mas Coutinho acha que ele pode escrever em jornal com desdém sobre esse tipo de gigante. Lembra-me um aluno de primeiro ano de faculdade que fez um texto dizendo “neste ponto, Marx se excedeu”. Até os colegas, também ingênuos, riram muito. A adolescência gera abortos vivos.

Claro que Coutinho diz que leu Aron e então tomou a crítica desse homem contra o marxismo com o correto para toda a vida. Duvido que depois de Aron tenha ido realmente ler Marx. Veja a frase que ele cita para destruir Marx (temo que logo ele fará algo assim contra Newton, Darwin, Freud e chegará fácil a Einstein): “(…) Primeiro, a condenação de um mundo corrupto, onde o pecado original é substituído pela exploração capitalista sob a forma da mais-valia”. (Folha, 08/5/2018).

Ou seja, ele nunca abriu O capital. Ele associa a “exploração capitalista sob a forma de mais valia” a um “pecado original”. Ora, cuidado aí. Nos textos de Marx a palavra “exploração” não tem uma conotação pejorativa. Explorar um mina significa tirar dela o ouro. Explorar a força de trabalho significa aproveitar-se do que a força de trabalho pode dar. Num contexto exclusivamente moral, aí sim a palavra “exploração” pode ser negativa. Mas Marx jamais colocou o capitalismo exclusivamente num contexto moral. Se ele falou de moral, o fez no contexto de sua crítica ao liberalismo, a ideologia do capitalismo. Mas não fez isso na própria crítica ao capitalismo. O capitalismo é uma forma de organização da vida que fez com que o mundo inteiro viesse a conhecer uma condição de existência completamente diferente de tudo que ocorreu no passado. Foi isso que Marx disse. A mais valia nunca foi vista por Marx como algo pecaminoso ou dando vazão para um pecado. Por uma razão simples: ela é um bem, ela é o “mais”, ou seja, “o mais valor”. Ela não causa mal, ela causa abundância. Ela é o que o trabalho do homem produz, sob capitalismo e só sob capitalismo, que pode gerar mais valor do que aquele necessário para que a própria força de trabalho seja reposta. Marx brindou o capitalismo por ter conseguido isso, a produção da mais valia. E brindou a si mesmo por ter descoberto isso, e com tal descoberta viu o que Smith e Ricardo não viram.

Para Smith e Ricardo o mais valor poderia vir da troca. Marx não condenou a troca nem achou que ela não era da “natureza humana”, como Coutinho diz no se artigo. Marx simplesmente disse que a troca não explicava o fato da força de trabalho poder ser reposta com o que produzia e ainda assim gerar um valor a mais. Ele percebeu que o modo de produção capitalista, por sua extrema racionalidade em específico, conseguiu gerar esse mais valor. Então, a teoria do valor-trabalho, já vista nos economistas anteriores, se completou com a descoberta de Marx, a mais valia. Ricardo, Smith e Marx formam um bloco teórico que o bom estudante aprende em conjunto em Economia.

Depois dessa descoberta alvissareira, então Marx apontou que nem tudo era róseo. Mostrou que mesmo num mundo que havia criado a chance de fazermos mais do que em qualquer outro modo de produção, ainda assim tínhamos pobreza. E assim, a irracionalidade do mundo, que quis mostrar, foi justamente esta: justo agora que chegamos a uma situação de produzir tanto e de tudo, e de forma a exibir certa racionalidade interessante, ainda temos o irracional perdurando no âmbito geral, pois ainda temos camadas de pessoas, que aumentam em número, e que estão na miséria. Quando olhamos o Primeiro Mundo hoje, com problemas de super produção e super abundância (que dá origem ao mundo da leveza), vemos a desgraça da riqueza, e ai olhamos para o Terceiro Mundo e encontramos a desgraça maior da pobreza, que proporcionalmente se amplia. E falamos aqui de Primeiro Mundo e Terceiro Mundo, hoje em dia, antes como uma observação em relação a segmentos sociais que como uma questão de mera geografia.

Isso é Marx. Essas descobertas são de Marx. A parte de Marx que profetiza o comunismo é tão diminuta e tão posta em aberto que qualquer aluno de ciências sociais (talvez não de ciência política, né?) que não for um estúpido sabe que isso poderia estar na boca de qualquer outro visionário, não necessariamente de Marx. Aliás, Marx deixou claro que “comunismo” era um nome para o futuro, não uma descrição. Que o marxismo tenha entrado no movimento operário de caráter socialista e tenha se tornado quase que sinônimo de movimento socialista – inclusive para os partidos que pregam reformas e não revolução, como a velha social democracia – isso se deveu não pela militância de marxistas ou pelo ideal do comunismo, mas simplesmente porque as obras de Marx se mostraram mais consistente que outras para explicar o capitalismo. Aliás, não foram poucos os que mostraram que Engels considerou a via social-democracia tão legítima no contexto do marxismo quanto qualquer outra. Coutinho é europeu e não sabe que a social democracia se reivindicou também marxista! Mas onde estudou esse moço?

O pecado original é pecado. A exploração da mais valia não é pecado. O pecado original não sai de nós, disse Agostinho. Mas em relação à extração da mais valia não cabe dizer se ela sai de nós ou não, se é possível encontrar um Paraíso sem Mais Valia. Isso por uma razão simples: o capitalismo é essa situação em que estamos – é o nosso “real”. E Marx disse que o comunismo seria o nome dado ao que poderia vir depois (talvez hegelianamente antes em termos lógico-históricos que históricos), mas ele jamais traçou um panorama do comunismo. Ele apenas fez o que o filósofo faz. Após traçar descobertas sobre a realidade, fornece uma pequena parte ética que, pela tradição filosófica, tem um pé na utopia. Se não fosse assim, não seria filosofia. A parte normativa, ética, é sempre posta na filosofia e todo filósofo sabe que ela é colocada de forma ad hoc. Exceto Platão, que fundiu metafísica e utopia e política, creio que todos os filósofos tiveram essa sensação.

Outro dia um outro conservador criticou Paulo Freire sem ler. Agora é Coutinho com Marx. Vamos aguarda o próximo. Essa gente não sossega. Talvez sejam um reflexo da própria esquerda juvenil, que não raro elogia sem ler. As adolescências se encontram no horizonte de Marlboro, não era assim que se dizia? Pois é!

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Ilustração: do livro O capital para Crianças – talvez um bom caminho para o Coutinho começar.

Veja mais três artigos meus, recentes, sobre Marx:

  1. Marx: duzentos anos sem Iphone
  2. O que é ser marxista e o que é ser liberal?
  3. Marx jamais esteve interessado em liberdade

 

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8 Responses “Coutinho coloca sua adolescência contra Marx”

  1. 11/05/2018 at 02:15

    Agora, só falta esse Coutinho abjurar a obra do próprio Camões, pelas mesmas razões obscuras que ele ataca Marx.

  2. LMC
    09/05/2018 at 16:42

    Pros Coutinhos da vida,qualquer
    candidato a Presidente reaça,
    Bolsonaro,Alckmin,Ciro(se o PT
    não apoiar ele)serve pra “salvar
    o Brasil do comunismo”.Coutinho
    é o Pondé português.

  3. Francisco
    08/05/2018 at 20:22

    Tem razão. Gosto de filosofia como gosto de fotografia ou música, áreas nas quais nunca tive formação universitária. Interesso-me por filosofia como um hobby, embora um hobby interessante para quem faz uma graduação em Direito; tenho noção de que serei sempre deficiente nesse jogo de linguagem quando for interagir com filósofos com uma boa formação.

    De qualquer forma, fico satisfeito com a resposta, pois esclarece que o estilo de Marx é aquele mesmo do capítulo que li (não há “outro Marx”), e fui apressado em atribuir a ele estilos literários dos quais ele mesmo possa ter sido precursor. A menção a Platão salienta esse ponto.

    • 08/05/2018 at 23:27

      Sim, você entendeu. Os filósofos dependem de seus paradigmas. É necessário a descoberta da mais-valia, na filosofia de Marx, para ele fazer filosofia e revolução. E a revolução é, na concepção dele, a realização da filosofia. Isso não quer dizer que a revolução seja a revolução de tipo Francesa ou Bolchevique.

  4. Francisco
    08/05/2018 at 15:57

    A única leitura que fiz de Marx diretamente, ainda que por uma tradução, foi a do capítulo A Jornada de Trabalho (Vol. I, Livro Primeiro, Cap. VIII) para a disciplina Introdução às Ciências Sociais na faculdade de direito. A “pegada de filósofo” não chega a ficar evidente nesse capítulo; parece um texto de historiador, de sociólogo, de economista ou de jornalista. Ou será que o “Marx filósofo” se expressa justamente por esse estilo literário híbrido? Gostaria de indicações de capítulos onde o “Marx filósofo” aparece mais explicitamente, por ex., como crítico da dialética hegeliana.

    • 08/05/2018 at 18:20

      Francisco, o Marx filósofo é o Capital todo. ACho que seu problema é ter uma visão de leigo, de não saber o que é um filósofo faz. Com a sua visão, nem o criador da filosofia, Platão, seria filósofo em A República.

  5. Roberto
    08/05/2018 at 13:23

    Eu diria q Marx é mal lido e assim interpretado, assim como a bíblia também o é. Ou seja, são duas grandes obras, mas que ao serem usadas por mentes ignorantes contribuem para fundamentar o mal.

    • 08/05/2018 at 13:39

      Roberto o Mal não precisa de fundamento. Ele ocorre e pronto.

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