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21/10/2018

Chantal Mouffe e seu marido diante do omelete


[Texto indicado para o público em geral]

O problema de quem se diz pós-marxista nos dias de hoje já não é mais problema, é patologia. Afinal, às vezes sentimos que nunca existiram marxistas, mas somente marxistas-leninistas! Eles não se enquadram mais no mundo em que vivemos, que é um mundo que aboliu a ideia de revolução adrede preparada (mas não a ideia de revolução). Eles não sabem se querem o socialismo pois, afinal, ninguém quer. Mas, enfim, eles guardaram, da infância, um anti-liberalismo (que pode vir até de teóricos da direita!) que os impulsiona a continuarem existindo aqui e ali.

Chantal Mouffe e seu marido são da corrente de estrategistas políticos chamada de “agonistas”. Eles se indispõem diante de Rorty, Habermas e Rawls, que não são estrategistas, e sim adeptos, por vias filosóficas diferentes, da política democrática constitucional, na via do que liberais americanos e social-democratas europeus se equivalem. Assim fazendo, Chantal & marido pregam a ideia de que política se faz na democracia, em prol de uma situação melhor, claro, se puderem construir uma “democracia radical”. Essa democracia deve ser feita e também proporcionar um “agonismo com antagonismo” (Arendt levaria a um agonismo sem antagonismo – dizem eles), que leve a mais “pluralidade” e a uma “nova hegemonia”.

Bem, com palavras ao vento é tudo muito fácil. Mas quando as palavras pedem explicação, em especial a palavra “hegemonia”, aí as coisas ficam mais difíceis. Se não aposto só na política parlamentar, mas também nos grupos de pressão (ou “movimentos populares”) que saem às ruas ou criam outras formas de colocar na parede gente liberal-conservadora que não quer dar espaço para as minorias (e, enfim, para o que antes chamávamos de “pobres” ou, de modo ainda mais arcaico, “classe operária” ou “trabalhadores”), estou então no âmbito do agonismo com antagonismo. Mas faço isso para que, depois de certo tempo, as propostas políticas que apoiei sejam o costume, as leis e, enfim, se consolide nova hegemonia. Ora, se sou um filósofo político, posso dizer isso e esperar meus leitores criarem o que quiserem. Mas e se sou cientista político ou estrategista político, se sou daqueles – como Mouffe & marido, e outros de cultura francesa – que preciso dizer “ao povo” “o que fazer”? Tenho a pretensão, sempre, de dar uma de Lênin. E então, eis o problema: de qual agon estou falando?

Agon é conflito. O mundo helênico é dito um mundo do agon. O agon se dá no teatro, mas também na vida grega. Quando o grego faz a guerra contra os que não são gregos, ele luta contra a “barbárie”, os que promovem apenas o balbuceio. Não falar grego é balbucear. Alcíbiades dizia que gente que toca instrumentos de sopro é porque não sabe falar; um povo culto fala, não fica com coisas na boca que os impede de exercer a boa retórica (se lermos os trabalhos sobre o silêncio e linguagem, de Agamben, vamos dar razão ao general!). Contra gente que não tem retórica, a guerra é feita também matando, pois guerra é guerra. Mas uma coisa é matar um grego outra coisa é matar um bárbaro. O grego não pode ser dizimado, o bárbaro, se desaparecer, não fará falta para o mundo real.

O mundo grego era um mundo do agon nas lutas entre cidades gregas, mas não entre gregos e persas. Nietzsche chegou a dizer que o êxito de Sócrates foi o de transferir o agon, posto no sangue grego, para o âmbito da dialética. Manteve a jogatina intacta nessa transferência. Manteve o tesão pelo lúdico, próprio do grego, sem decretar que a tarefa para tal era o arrancar sangue. Mas será que todos os gregos gostaram de Sócrates? Sócrates mesmo foi herói de guerra. Não me consta que não gostasse de empunhar uma espada. Tomar vinho para valer e cercar uma cidade, deixando-a sem comida e sem água por dias, e depois dar umas espetadas nos habitantes, é algo do curriculum vitae de Sócrates.

Que tipo de agon está no agonismo de Mouffe & marido? Ela & marido não podem dizer. Ela diz que rechaça o terrorismo. Ora, todos nós rechaçamos. O terror não é mais o terror só trucidante das Brigadas Vermelhas, o terror virou algo do ISIS, que é anti-civilização, algo que não cabe não só no Ocidente, mas também no Oriente. Suportamos a morte, mas não a destruição de museus! Não é necessário estar sob a grande capa atual de hegemonia do liberalismo para dizer que o terrorismo “não vale”. Se o terrorismo não vale, qual o grau de violência suportado pelo agonismo desses estrategistas agonistas? Se mato mil pessoas sou terrorista? E se dou um murro na cara de uma mulher, sou machista ou, antes disso, apenas violento? Mas se mato um guarda branco assassino e corrupto, sou assassino vindo do movimento negro? E se dou uma facada (de leve) numa mulher na rua, e grito “Deus vencerá, morte aos pecadores ocidentais”? O que sou? Quando sou militante político radical ou apenas assassino? Eles, Mouffe & marido, não podem dizer. Não podem falar porque não são mais leninistas, embora não saibam o que é fazer política sem ser leninista, ou, então, sem ser liberal. Estão presos ao século XX. Estão ainda sob o peso da mentalidade de antes da Queda do Muro. E vão morrer assim. Não inovarão. São revolucionários que estão diante da tarefa de fazer omelete não só sem quebrar os ovos, mas com a impossibilidade de contar para as galinhas que vão quebrar os ovos.

No mundo atual, da suavidade máxima – fruto do mercado em alta expansão e das tendências anti-gravitacionais próprias da modernidade -, nós não podemos ir ao galinheiro recolher ovos e contar paras as penosas que iremos quebrá-los, que vamos fazer omelete. Elas começariam um pó-pó có-có insuportável, histéricas. Mas, se não podemos dizer que vamos fazer omelete, como avisar todos, inclusive as galinhas (que, enfim, fazem parte da população) que é necessário o omelete com ovos quebrados se queremos comer omelete?

Assim são os livros de Mouffe & marido: não sabem o que fazer com a palavra “radical”. E para piorar, adjetivaram a palavra “democracia” com ela!

Posso ser de uma minoria e adotar posturas radicais. Sou negro nos Estados Unidos. Um dia ligo a TV e vejo um jovem negro, bem gordo, sendo enforcado por um policial, e escuto que o moço está dizendo que está sendo sufocado, que está sem ar, que vai morrer. E aí vejo o cara morrer. Não preciso conhecer Luther King ou saber da história de meus pais e avós. Não mesmo! Imediatamente, pelas redes sociais, chamo mais colegas que, a essa altura, já já haviam me chamado, para sairmos às ruas protestando contra a polícia. O presidente do país é negro. Sabe tudo. Mas, eu não peço para alguém do partido dele vir às ruas. Eu acredito nele, mas  não o chamo mais. Eu saio e, no furor da coisa, agrido policiais brancos. Onde isso é parável? Quando é que  o agon-com-antagonismo decreta que não vou ouvir mais o presidente negro e vou criar atos de violência contra policiais que, afinal, estão aí há anos fazendo a mesma droga?

Mouffe & marido, e pior ainda Zizek (mas aí por efeito, pensou eu, de alguma coisa que ele consome por diversas vias), não sabem dizer. Não podem dizer. Muita gente que tem mentalidade de quem apoiou um dia Chê Guevara não sabe o que dizer nessa hora. Por isso vários professores universitários brasileiros também não sabem, embora falem pelos cotovelos. E alguns, inclusive, se vestem de Lênin e “dirigem as massas”. Que massas? Ora, as massas atuais devem vir com mussarela.

Do lado oposto, os liberais conservadores não possuem esse problema, eles podem advogar que se “baixe o cacete”, pois eles falam em favor da Ordem – principalmente quando estão errados. Depois ficam posando de blasés e dizendo que são anti-violência e que nem gostam de política! Se descuidar, vão no “Conversa com Bilau”. O cinismo dos liberais conservadores se torna o não-cinismo dos antagonistas que, enfim, não querendo ser cínicos, acabam sendo isso que vemos: gente que não sabe ou não pode dizer o que pensam sobre “democracia radical”. Temo que também este foi o problema de Bernie Sanders e do Plínio Sampaio, mas não é o problema do Boulos, que é de fato leninista da velha guarda e está vivendo a Guerra Fria. Aí, nesse caso, não é o chá do Zizek, mas o remédio da Marilena Chauí, que provoca a frase “Moro é da CIA”.

Queremos pensar para além do liberalismo de Obama, mas não sabemos. E fica ridículo quando dizemos que sabemos. Acho que Rorty chegou a dizer algo parecido com essa minha frase. Talvez seja o caso de, para não sermos uma caricatura do que fomos, falarmos de política sem sermos tão sabichões.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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4 Responses “Chantal Mouffe e seu marido diante do omelete”

  1. Matheus
    09/06/2018 at 15:25

    As massas de hoje em dia vêm com mussarela… pensei que seria mortadela kkkk

    • 09/06/2018 at 16:07

      Mortadela nunca foi para a massa. Acredite. Mortadela é cara.

  2. Francisco
    07/06/2018 at 16:09

    Tenho gostado de seus artigos mostrando um Marx que não era mostrado nas escolas dos anos 80 e 90 nas quais estudei (porque o pensamento marxista era ensinado como doutrina). O Marx que você descreve está mais próximo da fenomenologia do que da dogmática ou da imposição de uma theo-ria totalizante do mundo.

    No direito, graduação que estou cursando, noto uma preferência pela doutrina ligada à tradição de especulação a priori (analítica) dos conceitos. Embora seja importante essa análise dos conceitos na medida em que funcionam como uma “cola” para integrar as normas e dar-lhes uma coerência interna, não deixa de ser um modelo totalizante do direito. Quem acredita nesses modelos só consegue enxergar Marx como o propositor de uma doutrina total. Na fenomenologia, por outro lado, tenderíamos a investigar a “marxidade” do mundo, sem tentar provar que o mundo só se constitui de marxidade. Não intentaria tornar-se a única lente, mas mais uma lente possível dentre as diversas disponíveis.

    • 07/06/2018 at 17:21

      FRancisco! Devemos ler livros como livros. É só isso. Histórias. Quando lemos como cartilhas para nos levar ao Paraíso, ficamos meio tontos né?

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