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26/05/2018

Ainda cabe lutar contra a ideologização?


[Artigo preferencialmente indicado para o público acadêmico]

A metafísica se funda em duas ideias: a primeira, é que estamos imersos em uma dualidade, mundo real e mundo aparente, realidade e ilusão. A segunda é que o mundo real é absoluto e funda tanto a si mesmo quanto o mundo aparente. Essas duas ideias juntas formam o que chamamos de “platonismo”, termo que todos usamos sem dar muita bola para toda a complexidade do pensamento fundador da filosofia, o de Platão.

O pensamento anti-metafísico, característico da filosofia contemporânea, é o que se utiliza de Nietzsche para dizer que a história da filosofia é “a história de um erro”, e que logo que o positivismo destruiu a ideia de “mundo aparente”, também fez com que surgisse um passo a mais, aquele que fez desaparecer “o mundo real” – eis aí então o término da metafísica ou, no jargão do Louco de Nietzsche, a “morte de Deus”.

Platão criou a ideia de sairmos da Caverna. Nietzsche lançou a tese de que a ideia de Caverna é uma ideia agora inútil. Platão fez da filosofia a busca pelo real. Nietzsche trouxe a filosofia para o contexto da arte, onde tudo que não importa é o que chamamos de real. Platão falou em literal e metafórico; Nietzsche deu oportunidade de Davidson falar que metáfora não é um esconderijo de um sentido literal.

A ideia de Nietzsche, levada a cabo, deveria nos afastar dos mecanismos de desideologização. Deveríamos ficar de fora daquilo que é a metáfora tradicional do pensamento filosófico, ao menos até os modernos, que é aquela que posso exemplificar por meio de Alain Badiou: ele vê a ideologia como também tendo uma faceta real. Ou seja: há o real e o aparente, e o real se esconde por meio de uma máscara, que mostra o aparente, mas que, como máscara, também é real. O real da ideologia. Mas essa noção de que a ideologia é uma máscara e, portanto, uma peça real do vestuário, é um problema. Um problema que os bons leitores de Nietzsche deveriam notar como um problema.

A máscara é uma peça tradicional do teatro. Badiou acredita que com analogias do teatro ele pode provocar desideologizações. Há de se notar, no teatro, que a máscara é real. Ela não deixa ver o real, mas só o representado, todavia, como peça que cobre o rosto real ela é um artefato real. Se a ideologia é tomada como máscara, podemos então acreditar que a ideologia é retirável do rosto real e, quando assim ocorre, encontramos o “real realmente real”. Desideologizar é, então, descobrir, desvendar, desvelar. Mas será mesmo que uma máscara pode ser tirada sem arrancar junto alguma pele ou pedaço do rosto? E se pensamos na transformação do teatro, quando a máscara grega ficou de lado e os próprios rostos vieram a se fazer de máscaras? E quando no século XVIII estar na Corte era estar oficialmente mascarado, com perucas e todo o tipo de cosmético? E hoje, quando já não sabemos e, enfim, não queremos nem saber, o que é o rosto “verdadeiro” da mulher ou do homem, ou seja, o que seria o rosto “natural”? Se pensamos nessas transformações, começamos entender que a ideologia tomada como máscara não é uma peça retirável. As técnicas de desideologização, dessa maneira, podem parecer todas inócuas.

Nasce daí a ideia pós-moderna de idolatria do relativismo máximo. Nasce também daí a ideia de uma situação de pós-verdade, que não é a do relativismo. Pós-verdade é o regime pelo qual o que é o fake é necessariamente aquilo que vale a pena ser visto e passado adiante. Nesses dois casos, vivemos a ideia que técnicas de desideologização podem não funcionar, pois o rosto real se perdeu faz tempo na sua fusão com a máscara. Ideologia, desse modo, se ainda é um conceito válido, talvez tenha que ser qualquer coisa, menos a máscara. Se aceitamos essa ideia, então a própria noção de desideologização não faz mais sentido. Muitos são os que acreditam piamente que é assim que devemos encarar até mesmo a pedagogia escolar. Não haveria mais nenhum ensino não ideológico a ser ensinado. Assim, não teríamos mais que fazer outra coisa senão abrir a escola a todas as ideologias, e deixar o circo pegar fogo. Qualquer tentativa de dizer: “aqui está o que queremos ensinar, pois é o verdadeiro e o certo”, seria uma atitude de censor.

Muitos freireanos, muita gente de esquerda, entrou por essa via: não há verdade, não há conteúdo que deva ser ensinado por critérios epistemológicos, mas só por critérios de justiça social, sendo esta justiça aquela que engolimos a partir do igualitarismo posto pela Revolução Francesa. Mas, então, o que é que é legítimo ensinar? É legítimo ensinar tudo que é a favor do igualitarismo, e censurar tudo que é contra? Ou, façamos de conta que é a direita que assume o ensino: temos então de ensinar hierarquias de sangue e de dinheiro como sendo o que queremos reproduzir socialmente? Que critérios temos para contar nossa história e fazer nossas opções em sala de aula? Ou não temos nenhum critério e, então, sonhamos com o dia em que podemos fazer da escola um jornalismo que acha que o correto é “ouvir os dois lados”? Escola é, então, apenas uma versão do jornal?

O problema todo hoje é o de reformularmos a noção de ideologia, caso ainda possamos acreditar que a filosofia tem a ver com desideologização. Minha sugestão tem sido a do rigor dos clássicos. Ensinar os clássicos pelo prazer que eles nos dão de vermos a engenhosidade autoral. Um exemplo aqui deve ajudar.

Machado de Assis é um clássico da literatura nacional e, mais recentemente, mundial. É um clássico porque pode trazer para o campo do universal a experiência particular sem descaracterizá-la. Mas, Machado de Assis tem suas preferências filosóficas. Ele é um schopenhauriano de mão cheia. O mundo é regido não pela Razão, como queria Hegel, mas pela Vontade. Sendo assim, o mundo é um caos e, sendo o caos, é onde o Mal põe suas manguinhas de fora. Quando ensinamos os jovens terem o gosto apurado por Machado de Assis, estamos ensinando também a doutrina de Schopenhauer – casa-se aí a disciplina Literatura com a disciplina Filosofia. Mas, não estamos dizendo que a concepção de Schopenhauer é a que temos que adotar só pelo fato de que Machado se tornou grande autor por meio dela (e, claro, de seus atributos pessoais, o dom etc.). O clássico é clássico porque admite esses deslocamentos e vários outros. Ele nunca reduz o pensamento, ele sempre o amplia. Ele não dá diretrizes, mas ele nos faz pensar em como as diretrizes são criadas. Já eram “Pai contra mãe”? Leiam!

Essa via de trazer como conteúdo do ensino os clássicos não é nenhuma novidade. Assim se estruturou o conteúdo da Escola Média desde o final do século XIX. Inclusive no Brasil, quando tínhamos um ensino médio digno desse nome. Ainda que o mundo todo esteja constantemente reformulando isso, não é optando pela ignorância de achar que tudo é ideológico que se cria uma boa escola.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: empresa japonesa cria máscara em três dimensões do rosto da pessoa que assim deseja. Máscara para mascarar-se de si mesmo!

 

 

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3 Responses “Ainda cabe lutar contra a ideologização?”

  1. Bruno
    30/04/2018 at 19:53

    A Metafísica foi um pensamento que, na sua origem, foi contrário ao Tempo? Ou à História?

    • 30/04/2018 at 20:51

      Tempo! Mas também, em certo sentido, história.

  2. 30/04/2018 at 16:19

    Legal, Paulo!

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