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11/12/2018

A origem de Bolsonaro é o antigo direito à merda


[Artigo para o público em geral]

O movimento intelectual moderno, com Bacon, nos alertou que “saber é poder”. Assim, teria poder aquele que dominasse o saber, ou diretamente ou colocando os seus sábios sob controle. A ideia básica, então desvelada, é que era o conhecimento que conferia capacidade política e, de certo modo, controle. Foi preciso um tempo de amadurecimento da modernidade para que Foucault nos dissesse que, na verdade, “poder é saber”. Só que quando Foucault nos disse isso, a palavra “saber” já havia ganho uma semântica múltipla.

Foucault nos alertou que a legitimidade do saber vinha não de suas características internas, lógicas, da possibilidade de ampliação de nossa potência cognitiva, e sim de sua topologia. Vinda de gente com poder, o saber tem poder, pois só então se apresenta como real saber. No limite, não raro conferimos sabedoria às pessoas que possuem poder.

Em situações democráticas, essa legitimidade perde força. Em situações autoritárias, podemos ter inúmeros exemplos de gente que, como Stalin, deu ditames até para a biologia soviética! Todavia, isso não quer dizer que a democracia não traz problemas para a questão de dizermos se alguém sabe ou não algo. Na democracia ampliada pela mídia e, agora, super expandida pela Internet, a topologia do saber se achata e se alarga. Todo lugar é um lugar que emite dizeres e que, por concordância da planificação democrática do próprio meio, pode reclamar legitimidade. Diplomas e razão perdem claramente para a força das “ditaduras da maioria”, principalmente as “unanimidades” que fingem serem minoritárias. Esse fingimento vem da direita, apegada ao senso comum moralista e conservador.

O pensamento da direita atual, que em geral as Universidades do mundo todo consideram bobagem e pura merda, como é o caso das teses sobre “marxismo cultural”, “globalismo” e “climatismo”, tem exatamente essa característica. Para se impor, conquista os que foram, de alguma forma, rechaçados pelos sistema escola tradicional. Estes, então, começam a conversar entre si, se convencem de que não estão falando merda, retro-alimentam suas mágoas (que não são poucas) em grupos fechados de trocas de lamentação, infortúnios e criação de inimigos (em geral fantasmas) e, em seguida, buscam conquistar o poder para, uma vez com poder, realmente aparecer a todos os outros como detendo algum saber. Há um fundamental desejo de vingança nisso tudo.

A democracia atual vinda da mídia favorece uma tal situação. Mas essa democracia não se faz assim por ideologia, no sentido vulgar do termo. Mas por estar inserida nos desdobramentos da “sociedade do espetáculo” (Debord) e por ter celebrado a época da “reprodutibilidade de peças culturais” que, enfim, é o tempo da preponderância do “valor de exposição” sobre o “valor de culto” (Benjamin). (1) Esses fenômenos, que podem ser circunscritos segundo as teses do “fetichismo da mercadoria”, de Marx, como o que reina no capitalismo, nos dão a sociedade de hoje. Trata-se da sociedade da imagem. Mas não qualquer imagem. Vivemos a época do divórcio entre legenda e gravura, uma vez que a imagem se autonomiza, se faz esteriótipo, enquanto a narrativa que antes a acompanhava, o logos que a punha ainda ao lado da legenda, é sufocado pelo engrandecimento da mera visualidade da imagem. Já há muito podíamos intuir que, um dia, chegaríamos a isso: “uma imagem vale mil palavras”. Mas, quando falávamos isso, pensávamos na imagem que imitava a letra, que expunha uma narrativa. Foi a época em que cartunistas disputaram com filósofos e sociólogos a crítica da vida individual e da politica. Isso morreu. A imagem que não precisa de nenhuma criatividade se apoderou completamente de todos. De tanta iluminação no interior do Iluminismo, e eis que, agora, ficamos como mariposas ao redor do candelabro: queremos a imagem pela imagem, a luz pela luz.

Agora, a imagem é apenas uma recordação de impressões mais simplórias que nossos mecanismos primitivos guardaram. Pois para primitivos nada melhor que seus mecanismos primitivos. O logos, o verbo, a narrativa e a crítica perderam espaço para as imagens produzidas por quem tem pouco ou nada a dizer. E esse pouco que tem a dizer, é merda. No Brasil, o candidato da imagem foi Collor, o candidato da imagem sem legenda é Bolsonaro. Suas fotos em posições pornográficas, obscenas mesmo – espancando o boneco do adversário ou fazendo gestos de armas com os dedos – , infestaram a sua campanha para a presidência. Preencheram o campo de intelecção possível de uma grande camada da população que deseja apenas ser preenchida por imagens histriônicas, que lembrem onomatopeias do tipo “boom”, “bang” etc. Imagens de filmes só com efeitos especiais e de jogos de guerra de vídeo game, afinal, educaram já uma geração. O próprio Bolsonaro (re)ensinou seus eleitores esse comportamento. Ele disse: “discutir política não leva a nada, não fiquem discutindo, tentem apenas conseguir mais dois votos cada um”. Traduzindo: “tragam adeptos, não pessoas que querem algum argumento racional”. E soltou essa pérola: “ninguém quer aluno crítico”. E nós sabemos que as próprias imagens fornecidas por ele se puseram como a substituição do argumento. Quem fala merda na Internet e tem a sua claque, acredita ser doutor. A própria origem do Olavo de Carvalho e outros do mesmo tipo mostram isso.

O problema, agora, é que uma vez no poder, o discurso do não-discurso, ou seja, as imagens que traduzem a merda, vão querer ter legitimidade para se auto-afirmarem não como algo do poder, mas como algo do saber. Assim, uma série de pessoas que foram escanteadas por serem realmente medíocres, e que, durante uma vida, foram rechaçados pela Academia, vão usar do poder para se fazerem diplomados. A legitimidade do poder irá torná-las cientistas! Um doido varrido como o Araújo, o chanceler de Bolsonaro, começará a ser levado a sério! Suas teses serão rebatidas, mas, ao serem rebatidas, ganharão certa legitimidade. Ao considerar que elas, como merda, devem de ser combatidas pela razão, eis que elas poderão ser transformadas em alguma forma de narrativa.

É claro que, se pensarmos bem, tais narrativas feitas de merda, são desnecessárias para Bolsonaro. Ele descobriu que não precisa da força militar para mandar, basta que ele tenha as imagens que satisfazem aquela sociedade em que o valor é o valor de exposição. Mas, como um brinde aos seus intelectuais antes fracassados, ele poderá lhes dar a chance de se verem reconhecidos por outros. Os bolsonaristas que se imaginam teóricos, então, ficarão satisfeitos. Trata-se de um mimo do governante para com aqueles que, no meio de trogloditas, usam uma clava menor, quase parecida com um lápis.

Aliás, este artigo, ao considerar essa ralé de intelectuais que sobem ao poder no Brasil atual, como sendo intelectuais, já os legitima, já os faz serem discutidos por nós, os filósofos, a Academia. A resistência vai pisar em ovos. Nós, da resistência, vamos ter de por a mão na merda e, ao mesmo tempo, saber explicar para outros que merda é merda, e não-merda é não-merda. Não vai ser fácil.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

(1) Para aprofundamento, ver: “Imagem e cara do Bolsonarismo”

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22 Responses “A origem de Bolsonaro é o antigo direito à merda”

  1. Andrezito
    02/12/2018 at 15:01

    Trabalho com tratamento de esgosto (merda), sou eletricista, nem podia estar comentando porque aqui vigora lei da mordaça, mas posso garantir que merda é mais facil de tratar do que esse pessoal.

  2. Wellington
    23/11/2018 at 13:22

    Boa tarde Professor Paulo,

    Estou acompanhando o seu canal há 4 meses, de lá para cá , estou tendo um despertar para o pensamento filosófico . Possuo formação voltada estritamente para o mercado de trabalho, onde dificilmente eu teria contato com tanta reflexão. Obrigado pelos ensinamentos, há algum tempo atrás eu dei inicio num livro do Focault ” A microfísica do poder”. O que o senhor me indica de leitura complementar para eu realmente possa entrar no caminho certo para ler este livro ? abraços .

  3. William Barreto Duarte
    20/11/2018 at 00:20

    anatomia inversa

    minha culpa, minha mentira;
    minha doença, minha ferida;
    minha lágrima, minha tristeza;
    minha solidão…;
    crime de mim mesmo.
    sou assassino!
    e a vítima eu mesmo!

    minha carne, minha alma, minha existência
    sangram fria, escura, silenciosa!
    outra, outra, outra!
    identidade.
    tombam, tombam e tombam!
    entre cortes e curativos
    a busca do ser!
    sem ser, sem saber
    só caminhar, caminhar e caminhar!
    apesar de tudo que fizemos
    apenas o nada permanece
    no tempo, no espaço e na realidade infinitos.

    parte 2
    talvez ajude, por enquanto que estamos aqui…

    biologia, química, física
    átomos, moléculas, células!
    matemática do que é ser humano;
    geografia, história, sociologia, filosofia
    território, política, comportamento, pensamento!
    linguagem e literatura do que é ser humano;
    apesar de tudo que fizemos
    ainda falta.

    anatomia complexa
    um cofre complexo
    para o que está aqui dentro
    dentro de dentro também complexo;
    é sempre inverso, é sempre incompreendido
    o que se procura sonhar, o que se procura viver
    paradoxo do que é ser humano.

    não posso esquecer a religião que diz:
    – só a loucura se sustenta, mas o Amor salva!
    a lógica mais plausível.

  4. Leonice
    19/11/2018 at 13:56

    Boa tarde Professor Paulo.
    O senhor tem me ajudado muito, agradeço pelo conhecimento e sua coragem de se expor para nos embasar no enfrentamento nesse disparate de governo. Esse fenômeno para mim estranho, pessoas que aparentemente tem conhecimento, muitos saídos da academia dos mais variados cursos e que entraram na onda bolsonarista, eles fizeram e fazem proliferar desvairadamente as idéias dele e desse grupo de pseudointelectuais.
    O que mais assusta é que eles conseguem entrar na mais variadas camadas da sociedade e passar essas idéias, a partir disso tomam a dimensão do cotidiano de todos nós.
    Dois pontos quero levantar aqui: Como a academia tem formado seus alunos nesses últimos 50 anos? E o que tem feito para trazer o conhecimento para a sociedade?

    • 19/11/2018 at 14:05

      Meu saiu da USP e foi para interior, chegando lá ele próprio e os alunos construíram a quadra da escola. Eu trabalho gratuitamente, antes e depois de aposentado, graças ao ensinamento que tive na UsP, na PUC e na UFScar. Portanto, a universidade que vai à população somos nós. Gente assim tem muita.

  5. Adriana Barreto
    19/11/2018 at 12:37

    Professor,vejo seus videos quase todos os dias daqui de Genebra onde moro. Como gostaria de ter tido professores como vc. Tenho 48 anos e vivi no interior da Bahia até meus 21 anos. Fiz administração Hoteleira no Cefet-Ba e hoje sei e tenho consciência de quanta coisa não aprendi no meu tempo pois não tinham professores formados e capacitados no interior naquela época.Aprendo muito com vc.

  6. LMC
    19/11/2018 at 11:37

    O Ministro da Casa Civil de Bolsonazi
    PERDEU TRÊS ELEIÇÕES PRA PREFEITO
    DE PORTO ALEGRE!Numa delas,teve
    menos votos que a filha do Tarso Genro.
    Nenhum grande jornal ou revista
    falou sobre isso.Por puxa-saquismo,talvez.

  7. Jean Jaques
    18/11/2018 at 22:15

    Professor, boa noite.
    Acho o Bolsonaro “pessoa física” (ou seja, não o político) alguém bastante despojado e que curte uma vida mais sossegada. Lembro que ele disse, antes do 2º turno que “dia 28 é praia”, ao prever suas atividades logo após sua provável vitória.
    Não estaria já o ex-capitão arrependido de ter se metido nessa história de ser presidente ? Não teria ele saudades do tempo em que a responsabilidade não era dele e ele podia ficar tranquilo só jogando pedra no PT ?
    Ou ele está motivado para realizar suas loucuras ?

    • 18/11/2018 at 22:58

      Não sabe o que fazer, então, faz o que sabia: chamar gente de direita para ajudá-lo e continuar na loucura total. Acho que você não leu sobre como ele foi aposentado.

  8. Jeanne Silva
    18/11/2018 at 21:14

    Obrigada! Sou professora de História e seus vídeos são importantes para que eu tb não perca as esperanças. Estou indignada com tamanha ignorância das “olavetes”. Ainda não consigo uma explicação razoável de como essa gente chegou ao poder. Muito triste tudo isso. Muito triste tb olhar para o Brasil da Nova república e verificar que mesmo diante de vários presidentes, apenas o Lula foi taxado como inimigo público desse país. É impressionante o ódio aos pobres alimentado pelas elites conservadoras. Somos RESISTÊNCIA.

  9. Fausto Neves
    18/11/2018 at 21:08

    Olá Professor. Penso que este seu texto é um pouco acima do público em geral. Então, é aí que entra a “autoverdade”, a verdade falsa ou falseada ? Você diz: “explicar para outros que merda é merda e não-merda é não-merda. Não vai ser fácil.” Então um trabalho de Sísifo.
    O André pediu “prognóstico das consequências do desgoverno”
    sua resposta foi precisa. Entendo que, afinal, quando tivermos um Estado de merda, “Jair Mirdas” estará transformando merda em ouro.
    Será que no fim da história não transfomará ouro em merda?

    • 18/11/2018 at 22:59

      Ele não, mas nós podemos ver se conseguimos evitar que ele estrague nossas vidas.

  10. Ruy Miranda
    18/11/2018 at 17:36

    A coprofagia assola o homem há séculos, a obsessão por limpeza faz algo interessante, nos faz comer ‘merda’ ou conviver com a ‘merda’ sem se dar conta, até que é revelada a sua existência, como por exemplo todos os enlatados tem merda dentro, mas se saboreia sem receio, até que se revela que há merda dentro, seja por contaminação de fezes de ratos ou pelos próprios ratos, um dos alimentos mais saborosos para alguns é a linguiça, que é feita com intestinos de animais, mas hoje quase ninguém se dá conta disso.
    Na política foi a mesma coisa, para fazer a limpeza contra a corrupção e alguns bandidos do erário público, colocaram outros com ideias e ideiais muito questionáveis, rodeados de não-intelectuais que ditam agora uma mensagem que não deveria ter propagação e discussão pelo povo.

  11. Tony Bocão
    18/11/2018 at 16:27

    Apesar que meu filho ainda não está em idade escolar, me incomoda imaginar ensinarem bobagens para a molecada. Como explicar para um garoto que olha, você escreve na prova que combustível fóssil é infinito, mas só para passar na prova, tá?
    Teremos risco de mudarem o que se é ensinado? As escolas possuem algum mecanismo para impedir um Olavo da vida virar bibliografia ? Ou mesmo alguma espécie de polícia ideológica da burrice existir? O próprio bozo disse que vai ler a prova do enem antes.

  12. Ana Violeta Cardoso
    18/11/2018 at 14:37

    ”Filósofo” Paulo Ghiraldelli, Para o início de conversa quem escreveu o artigo aí nem foi você, mas o que a sociedade fez de você, ou seja, a sua personalidade. Se fosse você, precisaria ser a sua individualidade que tivesse escrito, mas isso, vocês, militantes de esquerda que acham saberem tudo e muito, ignoram, pois, desconhecem o autoconhecimento. Alguns, atrevidos, escrevem e publicam livros superficiais sobre o tema, coitados.

    • 18/11/2018 at 18:40

      Ana, não sou militante de esquerda e, para mim, o mundo não é dividido entre esquerda e direita.

  13. Alex de Almeida Brito
    18/11/2018 at 12:03

    A esquerda no Brasil precisa de uma narrativa incisiva, que desconstrua esses falsos ídolos. Não é tarefa fácil nessa era de extremos a direita e a esquerda.

  14. Conceicao
    18/11/2018 at 12:00

    Caro Professor, seus textos e vídeos alimentam diariamente muitas pessoas, que com eu, procuram entender este momento tão difícil do nosso país e do mundo em geral. Não deixe de produzir seus vídeos, pode acreditar, estão sendo um bálsamo neste momento de trevas. Além de me instruir me diverte bastante. Adoro quando você é um tanto mordaz… me rende boas gargalhadas.

  15. André
    18/11/2018 at 11:47

    Gostaria de um prognóstico das consequências do desgoverno que teremos.
    Conforme as medidas econômicas não surtirem qualquer efeito positivo e o desemprego aumentar, a população, no ápice da “idiocracia” generalizada, conseguirá ainda ter alguma capacidade de criticar o governo e perceber que é preciso ter alguma racionalidade para administrar o país? Ou será que continuarão achando que qualquer fracasso é causado por sabotagem dos marxistas-globalistas-climatistas-natalistas? Será que a imagem assassinou a legenda de vez?

    • 18/11/2018 at 18:41

      André, eles nunca vão adentrar a vida real do êxito ou fracassado econômico. Mas a populaçao em geral sim.

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