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15/07/2018

Wittgenstein para os estudiosos da Comunicação


[Artigo para o público acadêmico]

Um dos problemas centrais e perenes da filosofia diz respeito às tramas da relação entre palavras e coisas. Trata-se da pergunta, que vem desde Platão, sobre o que se dá entre o mundo não-linguístico e o mundo linguístico, sobre a nossa confiança (ou desconfiança) de que o segundo diz algo útil sobre o primeiro.

Wittgenstein tomou essa questão como sendo não só a principal da filosofia, mas talvez a única. Ele abordou a linguagem e, assim fazendo, por  conta das vicissitudes da sua vida e de como foi alterando seu pensamento, acabou criando dois personagens: o Wittgenstein I e o Wittgenstein II. O primeiro, o autor do Tratactus Lógico-Philosophicus; o segundo, o autor das Investigações Lógicas. Daí foram geradas duas concepções de linguagem e, enfim, duas formas de compreensão da filosofia.

Na primeira concepção, há uma crença da isonomia entre mundo e linguagem. A linguagem é de uma ordem e o mundo é o não-linguístico, que é de outra ordem, mas a linguagem consegue muito bem espelhar o mundo. Em ambos os casos, a questão é o do estudo do significado. O poder da linguagem de descrever o mundo, seu poder representacional.

O Wittgenstein I acredita que as proposições, as formulações linguísticas do tipo S é p, são a base de toda a linguagem, e elas podem ser tomadas como figuras lógicas ou modelos de estados de coisas no mundo. Do mesmo modo que uma imagem tridimensional pode representar uma pessoa, um enunciado como proposição é uma figura lógica que mostra parte do mundo. Qual a dificuldade, então? Bem, problemas surgem por razões simples: tanto na linguagem cotidiana quanto na filosófica a mesma palavra pode ser o signo de mais de uma coisa (a manga fruta e a manga de camisa); e diferentes palavras podem apontar para a mesma coisa (a Estrela da Manhã e a Estrela da Tarde eram coisas diferentes, e ainda são, mas para astrônomos são o mesmo Planeta, Vênus). O que propõe Wittgenstein para sair disso: a criação de uma linguagem lógica, ou seja, um simbolismo que siga uma gramática lógica, digamos assim, e não uma gramática histórica, isto é, a gramática da língua portuguesa ou inglesa etc.

O Wittgenstein II renega uma tal proposta. Ele já não é mais o homem da “virada linguística”, mas o homem da “virada linguístico-pragmática”. O mundo não tem que ser espelhado pela linguagem. Não se deve cobrar isso da linguagem. Não se pode pensar numa isonomia entre mundo em linguagem como tendo alguma factualidade. Deve-se notar a linguagem a partir do seu uso, de sua utilidade, enfim, de sua práxis. As palavras são como ferramentas em caixas de ferramentas, utilizamos delas para várias funções, para lidarmos com o mundo, não para representar o mundo. Entender a linguagem é entender como palavras e frases são utilizadas pelas pessoas. Nossa fala, portanto, perde o caráter de espelho, como no Wittgenstein I, e se torna uma atividade a mais que fazemos quando fazemos as coisas que fazemos no mundo – eis o Wittgenstein II. A fórmula sintetizadora dessa segunda fase do pensamento de Wittgenstein é célebre: “o significado de uma palavra é seu uso na Linguagem”. Duvido que algum pragmatista, de James a Rorty, pudesse não endossar tal coisa.

Sai de cena a ideia de modelo pictórico para descrever um estado de coisas e entra em cena o conceito de “jogos de linguagem”. Se a linguagem, ou seja, o significado, é alguma coisa da ordem do uso, o que temos de ver são as regras sob as quais esse uso ocorre. Wittgenstein então diz que a questão toda é ver as palavras e certos enunciados dentro dos jogos de linguagem.

Jogos não possuem essência, não possuem algo em comum exclusivo. Tênis, xadrez, baralho, jogo de bola de criança – o que é isso? Há algo em comum? Ora, há semelhança. Mas que tipo de semelhança? Aquela que chamamos de “semelhança de família”. Não sabemos dizer o que alguém tem em comum com seu irmão ou um tio, mas sabemos que há algo em comum. Assim é a semelhança entre os jogos. E assim são os jogos de linguagem. São um ambiente de uso da linguagem ou, melhor dizendo, um “modo de vida”. Há semelhanças entre modos de vida que os caracterizam como modos de vida, mas não há uma semelhança exclusiva, algo essencial. Falar uma língua é, então, uma parte da nossa atividade vital. Nada há de misterioso numa palavra. Nada há de metafísico nela, que a faz ter poderes de Representar o Mundo Como Ele É, há apenas, para nós, o entendimento para ver como nos movimentamos em determinados jogos de linguagem, ou seja, como que empregamos tais palavas dentro de certos jogos.

Então, aí sai de cena a ideia da filosofia – no traçado iluminista – que visava clarear a linguagem descobrindo o que por detrás dela existe de puro, de lógico, de não retórico, e que realmente espelha as coisas, o mundo. Entra em cena a filosofia como terapia da linguagem. Ou seja, fazer filosofia é dissolver problemas filosóficos, é mostrar como que problemas filosóficos não são problemas, mas apenas um uso de certas palavras dentro de jogos de linguagem que, enfim, não são nada senão erros ou invencionices diante do uso das palavras nos jogos da linguagem cotidianos. Problemas da filosofia são pseudo-problemas.

Na primeira acepção, a tarefa da filosofia é a de forjar uma linguagem lógica pura (inclusive para a ciência – muito da filosofia reduzida à filosofia da ciência dos “positivistas lógicos” assim se fez), deixando os problemas outros para a ciência, ou então, para a prática mística. Na segunda acepção, a tarefa da filosofia é a simples diluição dos problemas filosóficos ao recolocarmos as palavras segundo os jogos de linguagem esquecidos quando os filósofos começam a usar as palavras de um modo peculiar. A filosofia transforma-se, então, na tarefa de mostrar o quanto toda a filosofia é justamente uma produtora de jogos de linguagem que criam problemas desnecessários. Reconduzir cada palavra ao jogo de linguagem original é um modo de mostrar a inutilidade da filosofia ou, pior, sua perversidade ao gerar problemas que seriam tão somente falsos problemas.

Assim, um filósofo tradicional pode perguntar se a montanha que vemos existe ou não, se é uma montanha na nossa frente, ou se é uma aparição. Esse é um falso problema – assim pode dizer Wittgenstein. Basta saber usar a palavra “montanha” no jogo  de linguagem a que ela sempre pertenceu para ver que “montanha” é alguma coisa para ser usada em situações que não são as de poderem ser outra coisa senão o que existe – montanha é montanha. Se fosse para falar que ela não existia, se diria não montanha, mas falsa montanha, montanha sonhada etc.

Segue-se aí, para a filosofia, sua autodestruição e, enfim, o caminho do desemprego para os filósofos. Muitas vezes os filósofos de departamentos de filosofia torcem o nariz para Wittgenstein, uma vez que ele estaria colaborando para os falam da morte da filosofia. Todavia, isso é apenas um entendimento ingênuo.

Muitos dos filósofos que seguem Wittgenstein acham que ele abre não só a perspectiva de abandono da filosofia, ou da simples terapia, mas que ele próprio, com o conceito de jogos de linguagem e da noção de que a linguagem é uma forma de vida, abre também um caminho para a produção de narrativas que não são as da literatura ou da ciência. Cabe uma narrativa que, com a ajuda das narrativas da literatura e da ciência, possa examinar a linguagem, examinar, com isso, modos de vida. Assim, para além da função negativa da filosofia de Wittgenstein, haveria uma função ainda positiva, a da produção de narrativas que iriam da antropologia científica para uma antropologia fantástica, ou coisa parecida.  Em sentido amplo, pode-se dizer que o elogio de Rorty ao liberalismo é algo assim. A ideia de traça a vida do homem como um produto do mimo, por Sloterdijk, é algo assim. Eles seriam, nesse sentido, wittgensteinianos!

Quando as pessoas que estudam comunicação se deparam com isso, logo percebem que essa função positiva da filosofia de Wittgenstein lhes abre um mundo novo. Entender processos comunicacionais é entender jogos de linguagem, é descrever modos de vida. Em suma, há narrativas que não são científicas ou literárias, mas ainda assim descrevem parcelas da cultura, ou seja, específicos modo de vida e específicos jogos de linguagem. Falar de comunicação é, antes de tudo, falar de jogos de linguagem. Compreender o mundo da comunicação é perceber como que determinados vocabulários forjam culturas, criam modos de vida, geram o que caracteriza pessoas, grupos, classes, povos, nações. Grupos profissionais possuem jogos de linguagem bem delimitados. Entende-los é entender a comunicação interior desses grupos. Assim, Wittgenstein abre todo um rol de produção de pesquisas no campo comunicacional.

Falando a partir da perspectiva de Wittgenstein, entrar pelo âmbito da investigação da Comunicação Pública e da Comunicação Política é abrir-se para a investigação do vocabulário e dos jargões que são utilizados pelos grupos em questão onde tal comunicação se faz presente. É ver como que tal comunicação produz o próprio modo de vida, ela própria gerando o conflito no qual se faz presente. Se o embate é entre o estado e entre um grupo minoritário específico, entender o jogo de linguagem de cada um, e também o jogo de linguagem do próprio conflito (há um?) nos dá o entendimento de como o próprio modo de vida que os reúne em um campo conflitual se faz vivo, se faz presente.

É o estudo de um organismo vivo o estudo do jogo de linguagem, por exemplo, que se institui a partir de um grupo que está acampado no Largo do Paissandu, pedindo moradia, em conjunto com a resposta dada pelo poder público, da prefeitura ou do estados etc. Não raro, há desentendimentos que são produtos de choques de modos de vida, ou melhor dizendo, choques de jogos de linguagem que estão produzindo realidades semânticas díspares. Alguém está jogando xadrez diante do outro que está jogando tênis – não estão jogando o mesmo jogo. Então, até o conflito é um falso conflito. Ou um conflito de não instituiu, ainda, o próprio modo de vida do conflito. Não se pode ser adversário e produzir conflito quando não se está no mesmo jogo.

Wittgenstein é  ele próprio uma caixa de ferramenta para a filosofia nova, contemporânea, antes preocupada em criar que fundamentar de modo metafísico o que podemos fazer ao estarmos falando.

Condomínio Jaguaré, 29/06/2018

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4 Responses “Wittgenstein para os estudiosos da Comunicação”

  1. Francisco
    01/07/2018 at 23:58

    Genial. Tenho lido bastante sobre Wittgenstein (livros introdutórios e uma tese-tijolo sobre a qual estou me arrastando na leitura) e um pouco de Investigações Filosóficas numa atividade de extensão na minha faculdade de Direito. Impressionante como você conseguiu, em poucas palavras, mostrar tanto de Wittgenstein. O penúltimo parágrafo, sobre o conflito que não existiu, fala de uma questão crucial no direito, que é o problema de como promover a justiça partir do acolhimento do discurso dos outsiders, de gente que demanda por direito, mas não domina a gramática jurídica e, portanto, não é capaz de jogar o juridiquês. O jurista médio ainda está no primeiro Wittgenstein, parece. Se o fim do direito é promover uma certa ordem social que só faz sentido enquanto justa, então não se pode fechar os olhos para jogos de linguagem que acontecem fora dos tribunais e das faculdades.

  2. Manoel de Sousa
    30/06/2018 at 14:09

    Excelente texto. Sou estudante de História e compreender esse “jogo” que se faz com a linguagem é uma capacidade que busco desenvolver, para melhor compreender a produção da narrativa histórica ou produzi-la.

  3. Giovane Martins Vaz
    29/06/2018 at 15:09

    Sensacional o texto, Paulo. Estou fazendo mestrado em filosofia política, e fico pensando se, às vezes, não seria melhor estudar os jogos de linguagem que envolvem os problemas filosóficos de, por exemplo, John Stuart Mill defendendo a liberdade de expressão diante de um jogo de linguagem público que priorize a censura das opiniões que não seriam consensuais. Será uma ideia muito ruim?

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