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16/12/2017

O preconceito não é uma questão de mais ou menos energia gasta


Este artigo é indicado preferencialmente para o pública acadêmico

“Nos iludimos ao imaginar que o preconceito seja erradicável. Somos preconceituosos de saída, uma vez que nosso cérebro economiza energia ao catalogar nossas experiências”. Esta é fórmula da psicanalista Vera Iaconelli para explicar o preconceito, em seu blog na Folha (28/11/2017). Mas as coisas não funcionam assim, de modo tão fácil.

Mesmo que aceitássemos o “princípio de economia de energia” na “catalogação” cerebral, que em geral corre nas explicações de psicanalistas como se o mundo fosse povoado de preguiçosos, ainda assim teríamos que notar, contra Iaconelli, que ter preconceitos, ter chaves de interpretação aparentemente rápidas, não é algo da economia de energia psíquica. O preconceito é tão ou mais trabalhoso e dispendioso que o conceito.

Como somos gente da universidade, como estudamos e nos esforçamos para ter conceitos, achamos então que o inverso, o de ter pré-conceitos, ou seja, o caminho ainda não percorrido até o conceito, nos descansa. Mas essa análise não percebe que também o preconceito tem sua estrada, não o adquirimos sem custo, e não arcamos com ele sem um preço – às vezes alto.

O homem tosco, repleto de preconceitos, termina o dia cansado. Ele é colocado à prova a cada palavra que diz. Ele precisa construir inúmeros outros preconceitos e conceitos para justificar o preconceito emitido. Ele pode estar em maioria, mas a minoria que lhe põe o conceito na cara, chamando sua atenção, faz barulho e o esgota. Até mesmo numa sociedade racista ser racista não é cômodo. A África do Sul fez o Apartheid por anos, e os brancos viviam trancados, com medo, e nas relações internacionais, a cada encontro de empresários, esportistas, membros do governo, se gastava enorme energia na justificação da guerra interna do Apartheid. Mandela desgastou o governo da Africa do Sul sentado na prisão. O conceito se impôs perante o preconceito porque o preconceito foi visto como o que gastava mais energia.

Mas, o certo é que a questão da economia da energia não é uma boa explicação. Melhor pensar o preconceito como inerente à linguagem.

A linguagem trabalha com uma divisão, diz Agamben: semiótica e semântica, sentido e denotação, nome e discurso. Quando há a nomeação ocorre a busca do signo para o nomeado e, então, por isso mesmo, há a viabilização de um discurso a seu respeito, que, é claro, se utiliza do nome. A palavra “arvore” denota a árvore em um ato discursivo à medida que nós pressupomos que a palavra “árvore”, tomada antes e depois de qualquer denotação, significa “árvore”. A linguagem está entrelaçada com o ser. Não se trata, em Agamben, de evocar a coisa em si kantiana, alheia à linguagem, se trata de ver que é a própria estrutura da linguagem que não roda no vazio, ou seja, que a linguagem, ela própria, é lógica e ontológica ao mesmo tempo. Nesse sentido, o discurso que se utiliza do nome “árvore” é, sempre, um pré-conceito. Ele é sempre uma primeira abordagem que monta a semântica para o signo “árvore”. Seríamos demiurgos se pudéssemos dar para um signo uma semântica já final, como se houvesse de imediato um discurso único (sobre a “árvore”) e final que se pudesse utilizar do nome (“árvore”). O jogo entre semiótica (o nome “árvore”) e a semântica (o conceito de árvore), a passagem de um a outro é um mistério, mas ele não está sujeito à economia de energia, porque ele ocorre no próprio processo da linguagem, e não em duas etapas. As duas etapas que aqui distingo são “lógicas”, não são temporais. Não tenho um mundo de nomes na cabeça e, depois, um longo trabalho para conceituá-los. Se sei uma linguagem, tudo vem num pacote só.

Portanto, assim, ao pronunciar a palavra “árvore” eu também já tenho junto um discurso que diz o que é árvore. Num pacote só tenho semiótica e semântica. Se o discurso a respeito da árvore que tenho, e que se utiliza, para se por, da palavra “árvore”, diz que “árvore é um objeto marrom e verde que atrapalha o caminho”, então é isso que tenho. A energia gasta para aprender isso é a mesma que gasto para aprender “árvore é um objeto marrom e verde que me dá sombra saudável no caminho”. É por essa razão que o movimento do politicamente correto veio de um fundo super válido, legítimo, de uma visão inteligente – que Richard Rorty saudou como base de uma revolução semântica (as redescrições) – a respeito de como deixar as coisas melhores. Nossos discursos são o nosso mundo e, se eles se fazem sem qualquer cuidado, sem qualquer suavização em favor da “missão civilizadora do capital” (Marx), ao final não teremos a tal missão civilizadora.

Quando aprendemos uma língua,  ou seja, semiótica e semântica de uma vez só, vamos aprender tudo que há para aprender da cultura na qual a língua está imersa e da qual ela é sua matéria corrente. Uma frase como “Black is Beautiful” não surgiu só como slogan, mas antes de tudo como uma semântica para o elemento semiótico “black”. O que é “black”? É um nome. E qual discurso para este nome? Ora, Black is beautiful. Black não pode ser nada outro senão beautiful. Ele, black, é isto: beautiful. Não sou convocado a pensar em black sem pensar em beautiful. Meus atos sociais estarão cognitivamente informados por esse discurso. Ele fará parte de mim. Minha personalidade estará sendo feita pelo aprendizado dessa língua, a que possui “black is beautiful”, e não de uma língua, por exemplo, o português, que usa “negro é uma cor”.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 28/11/2017

 

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One Response “O preconceito não é uma questão de mais ou menos energia gasta”

  1. Orquidéia
    29/11/2017 at 07:50

    Beatiful!

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