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16/12/2017

“Tu ficarás com tudo que há no seu útero, miserável!”


Texto indicado para o público em geral

“Portadores e não portadores de vaginas são pessoas bem diferentes. Para os que dizem que “homem é homem e mulher é mulher” e associam tal frase sobre gênero e sexo à questão de ter ou não determinados órgãos genitais, esse meu enunciado sobre diferenças é óbvio e banal. Mas se há algo não banal no mundo, desde sempre, é essa distinção que marca o espaço entre virilhas.

Esse espaço entre virilhas cobra do mundo um batismo que não cai entre virilhas, mas sobre todo o corpo. Pessoas com vagina são postas para aprender uma psicologia que deverá lhes nortear a identidade, para si e para outros. Os sem vagina são postos para aprender uma outra psicologia, estranhamente descorporalizada. Só os envaginados, que em geral chamamos de “mulher”, possuem corpo. A mulher é corpo, o homem é espírito. A mulher é dócil e amorosa, se prende aos detalhes. É pura emoção. O homem é razão, vê longe e se dá ao direito de ser mais “objetivo” e poder estar longe da docilidade e, enfim, ser amoroso só quando quer. No mundo moderno, graças ao feminismo de um lado e à “missão civilizadora do capital” (Marx) de outro, o que há entre virilhas passou a contar menos como fator de salário e mando. Eu disse contar menos, mas não não contar! O envaginamento ainda dá suas regras, ou seja, as regras que recebeu e repassa.

Tudo isso faz do envaginamento um elemento importante. Ter corpo, ser “matéria”, está ligada à natureza e não só ao espírito, eis aí todo o ganho da mulher e, enfim, sua desgraça. Desgraça? Sim! Afinal, quem de nós realmente gostaria de ter uma porta aberta entre as virilhas, pronta para ser o local alvo de todos os inimigos de uma nação em guerra com a outra? Quem de nós gostaria de sangrar todo mês, com náuseas? Quem de nós gostaria de ficar com uma pulga na orelha, sem saber qual bactéria está entrando pela porta das virilhas? Mas o pesadelo real não são estes. O pesadelo real é quando um bocado de gente sem essa porta decide que se algo entrar por tal porta, sem ser convidado, à força, deve ficar para todo o sempre. O pesadelo real é nascer com uma porta que não tem chaves. Ou melhor, só tem chave do lado de fora,  que pertence à bancada de deputados não envaginados, e profundamente perversos.

Do ponto de vista metafísico os que defendem a legalização do aborto, de qualquer tipo, não possuem mais argumentos que os que defendem a não legalização. Assim, a decisão não cabe à ciência ou à religião, que lidam apenas com a metafísica, ainda que nunca tenham parado para aprender filosofia. A decisão é sempre política. A questão toda, então, é sobre se os que não possuem vagina podem se imaginar com vagina ou não.

Embora os que não possuem vagina, em geral, gostassem de ter uma, em especial quando são da bancada conservadora do Congresso, eles não são capazes de pensar na vagina como infortúnio. Só como glória. Em seus sonhos, imaginam ter vagina postiça, capaz de gozo somente; vaginas que depois de lhes proporcionarem prazer seriam retiradas de seus corpos e, portanto, não os manteriam sob o domínio de outros. Mas os envaginados do mundo são envaginados mesmo, e não podem fazer isso. Gozam, alguns. Outros não. Mas uma coisa é certa, se alguém deposita neles, os envaginados, algum enviado não aceito, os não envaginados decidem: o intruso deve ficar. Vagina e útero alheio virou local de cidadania compulsória. A questão toda aí é de perversidade e inveja, bem denotada quando o médico diz (sim, ainda há os que dizem), se foi coisa normal: “na hora de fazer, gostou né?”. Ou então, se é estupro: “ah, com aquela roupa, tinha de ser mesmo estuprada”. Ou ainda, como enviados de Deus: “há em você um vida, não importa como foi feita e quem é pai, seu destino é cuidar dessa vida”.

Dentro dos recados de maldade dados pelos não envaginados aos envaginados, não conheço nenhum mais perverso que o da proibição do aborto em casos de estupro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 22/11/2017

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