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18/11/2018

Torcedores brasileiros desrespeitam as russas e a nós todos – como chamá-los?


[Artigo para o público em geral]

“Machismo” e “patriarcalismo” não dizem nada. “Sociedade machista” e “sociedade patriarcal” também não. Podem dizer algo a feministas acadêmicas e jornalistas que copiam moda e que, enfim, vivem do zum-zum-zum. Mas, para a maior parte das pessoas, se isso diz algo, conta algo que fica bem aquém do que deveria dizer. Infelizmente as feministas não aprendem isso. Infelizmente a imprensa está caindo nessa.

Aliás, mesmo depois de Judith Butler, que desafiou a interpretação de que há na base antropológica de nossa sociedade um patriarcalismo, preferindo optar pelo interdito da homossexualidade – o que é uma hipótese interessante e criativa -, as feministas não querem mudar e aprender mais do que já aprenderam enquanto estavam no colégio. Há uma resistência em ler mais e pensar mais e mudar por parte dessas vanguardas, e elas se tornam mais retrógradas dos que os conservadores que elas querem atingir.

O que foi visto na Copa com brasileiros enganando a russa, gritando “bucetinha” e fazendo-a pular ingenuamente para ser gravada em vídeo é, sem dúvida, algo deplorável. Mas o adjetivo para o comportamento das pessoas ali envolvidas, os brasileiros, é um só: trata-se do que todos nós conhecemos por “cafajestismo”. Um cafajeste é alguém que não sabe respeitar mulheres e amigos. Não sabe diferenciar o ambiente público do privado. Não sabe que expor uma mulher é execrável. Isso é um cafajeste. Chamar os brasileiros que tripudiaram em cima da ingenuidade russa e da barreira linguística de “machistas” é adocicar tudo, pois há um bocado de machistas que não são cafajestes, são apenas pessoas, aqui e acolá, que acreditam que mulheres fazem uma coisa e homens fazem outra e que “cada um deve ficar no seu lugar”. O machismo é chato, o cafajestismo é tendente ao crime. Ao igualar cafajestes a machistas, querendo dar um tom acadêmico aos adjetivos, o feminismo e os jornalistas que o seguem estragam tudo. No fundo, trabalham pela confusão semântica. O resultado é que muita coisa é perdoada. Na sociedade russa, então, nem se fale! A Era Putin marca um retrocesso nessas questões.

Quando alguém diz que a violência do mundo é de responsabilidade do capitalismo, está falando algo tão amplo e abstrato que é o mesmo que dizer, como bom medieval, que a violência do mundo é culpa do diabo. Quando alguém usa termos como “machismo” e “sociedade patriarcal”, não raro comete o mesmo erro. Quem quer posar de explicador do mundo quando o que se pede não é explicação alguma,  o que ocorre é a criação de um vocabulário criminológico desnecessário, fora do lugar. O crime cometido foi o de cafajestagem. Que seja punido como tal. Que seja punido como simples desrespeito que muitos “machistas” não cometeriam, pois não são cafajestes.

A objetificação da mulher é, não raro, necessária para a própria mulher, na hora do sexo. Não são poucas as mulheres que precisam ouvir um “sua puta” na hora do sexo. E isso não é por “introjeção do machismo” na mulher, mas simplesmente pela forma como o ato sexual está envolto, na configuração do homem como mamífero, que precisa se manifestar com a gana muscular necessária. O amor pode ser romântico, o clímax do coito, jamais. As mulheres emancipadas sabem disso. As frígidas e/ou anorgásmicas não. E o problema da confusão semântica do feminismo é o problema de Kant, que não entendia o gozo e, por isso, nunca conseguiu ver o casamento como um ato moral. Kant nunca entendeu que o gozo é mútuo uso e objetificação de corpos, que não se trata de um acordo liberal para que alguém usufrua do outro,  no sentido de mitigar o seu imperativo moral de “não fazer do outro instrumento”. Há muito dessa incompreensão kantiana na denúncia de feministas a respeito da “objetificação da mulher”.

Desse modo, objetificação do corpo da mulher tem níveis e locais. Pode-se objetificá-la no cinema. E isso, em geral. Pode-se objetificar a mulher, como ela aliás faz com o homem, na relação a dois, no ambiente privado. A objetificação da mulher em público não deve ser chamada de objetificação da mulher – vira pedantismo desnecessário, frase feita. Gritar “bucetinha” e fazer a moça russa pular é perder a noção de como usar a palavra “bucetinha”, é um ato de completa falta de educação caseira e escolar. É um ato de cafajestismo a ser coibido. É a objetificação fora de lugar – é o “fora de lugar” que caracteriza o ato como um ato altamente reprovável.

Tratar o episódio dos brasileiros na Rússia como “pessoas que objetificaram a mulher” e/ou que a “reduziram ao seu órgão sexual” é alguma coisa que não caber dizer. Soa jargão, ou mesmo cliché de guetos que abrigam vanguardas que se tornaram retaguardas. No limite, condena a objetificação da mulher em geral, o que é uma bobagem. O resultado dessa bobagem é que os jovens atualmente não sabem o que fazer na cama, pois, de um lado, devem ser dóceis, e de outro, só possuem como modelo o pornô que nada é senão uma atividade monótona de atletismo.

Pessoas que enganam crianças, cachorros e estrangeiros que não sabem o que se está falando para eles, são pessoas desonestas. Gente nociva. No caso, os brasileiros que fizeram aquilo, nós, aqui no Brasil, os conhecemos bem: um policial, um advogado, um engenheiro e um vereador. A gente sabe muito bem que a agressividade dos quatro não é à toa. A gente conhece bem os cursos de Direito e Engenharia, também sabemos que tipo de gente está na vereança e, pior, a nossa polícia não tem sido exemplo para ninguém. Podemos sim, saber, que os ambientes desse pessoal não são lá ambientes que os têm ensinado a respeitar mulheres. Quando se olha a quantidade de gente que desrespeita Direitos Humanos e que vota no Bolsonaro, entre os que vem dessa cultura dos envolvidos na “baixaria” lá na Rússia, é claro que não temos que nos espantar. Quem não conhece os tipos ali apresentados no vídeo? Nesse caso, mais ainda, temos razões de punir essa gente, para que eles voltem e repensem o aprendizado errado que tiveram. Mas, que fique claro: Clint Eastwood e John Wayne, figuras da direita, autênticos machistas da velha guarda, exibiram personagens que protegiam mulheres e indefesos, não o contrário. Não eram cafajestes. Quando perdemos essa distinção, ficamos mais burros.

É preciso urgentemente, no mundo todo, começar a mostrar que há comportamentos que são de direita, sim, que podem melhor ser denominados de banditismo, cafajestagem, e não simplesmente de “mau exemplo machista”. Trump não é um mau exemplo machista. Ele é machista quando, diferente de Obama, sai na frente e deixa Melanie para trás. Mas, quando ele paga para calar prostitutas, ele é cafajeste e mentiroso. E o que vem fazendo ao separar famílias na fronteira americana é banditismo. Dar nomes aos bois é bom. É útil. Não saber dar nomes sempre joga contra o que há de melhor para se fazer.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60.

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16 Responses “Torcedores brasileiros desrespeitam as russas e a nós todos – como chamá-los?”

  1. Felipe
    25/06/2018 at 16:14

    Seria a expressão “O horror! O horror!” a mais correta para esta situação? Parece ser até um eufemismo…

  2. LMC
    22/06/2018 at 17:20

    A internet virou o território da
    burrice.É só ver quanta gente
    disposta a dar a bunda pro
    Bolsonazi defendendo o que
    nossos “cidadãos de bem”
    fizeram na Rússia.

  3. LMC
    22/06/2018 at 12:36

    Caso algumas mulheres fizessem
    com um homem a mesma coisa
    o que os homens fizeram,o que
    nosso filósofo de boteco Francisco
    aí embaixo,escreveria?Mas estamos
    no país em que Neymar é herói(????)
    Vou vomitar e já volto.

  4. Francisco
    21/06/2018 at 18:35

    Linchamento é um termo impreciso. Eles não estão sendo linchados, mas certamente estão sofrendo uma ou mais espécies de punição. A questão é se existe proporcionalidade entre o caso e o crime que lhes é imputado. É fácil encontrar alguém fazendo o seguinte silogismo ao ler uma notícia de furto de celular: houve um furto; quem furta é ladrão; ladrão é bandido; bandido bom é bandido morto; logo, que se mate o bandido.

    Observe que no exemplo eu mencionei apenas furto, sem mencionar tratar-se de furto de celular e as condições em que esse furto se deu. É mais ou menos isso que parece ter ocorrido no caso desses caras: houve uma ofensa à mulher; ofender mulheres é coisa de machista; machistas devem ser execrados publicamente. Logo, vamos execrá-los.

    “Machista” acaba se hipostasiando em um ser que deve ser banido a qualquer custo, e ai de quem receba a pecha de machista, pois contra o portador desse atributo tudo vale para que seja eliminado do mundo. Só que o machismo pode se projetar de formas mais brandas, mais agressivas, pode se associar a outros atributos que atenuam seus efeitos (o arrependimento, por exemplo), enfim, estamos eliminando as nuances porque estamos cheios de certezas. Não se pensa o particular, pois o que importa é identificar o universal de tudo, e sendo esse universal a expressão do mal, contra ele tudo vale para que seja extinto. Parece algo bem primitivo, na linha de Totem e Tabu… esses caras viraram impuros, intocáveis… talvez uma boa dose de execração possa purificá-los.

    • 22/06/2018 at 00:42

      Eles não são machistas simplesmente, eles são cafajestes, e todo mundo que faz um ato público e julgado pela opinião pública – nos tempos atuais, a Internet faz esse papel de espaço público. É simples.

  5. Luciano
    21/06/2018 at 11:21

    Segundo Boris Casoy “nada justifica o linchamento que esses moleques estão sofrendo”. Era só o que faltava!

    • 21/06/2018 at 12:29

      Tadinho do Boris e do Neumame, não possuem mais espaço junto da nova direita, os imbecis tipo Pondé e Narloch, mas, enfim, vomitam tudo a mesma coisa.

  6. LMC
    21/06/2018 at 11:09

    “Linchamento público”,Antônio????
    Daqui a pouco,pra justificar o que
    estes homens fizeram,vão dizer
    que o Holocausto foi uma banda
    alemã de rock metal.Aguardem.

  7. Antonio
    21/06/2018 at 09:12

    Paulo, concordei com tudo! Mas fica um porém, está sendo proporcional o linchamento público ??? Me lembrou o caso do José Maiar !!!

    • 21/06/2018 at 09:35

      ANTONIO, o linchamento público sempre existirá. Só que agora, no nosso tempo, ele é mais civilizado. Antes, a forca pública era espetáculo. Ainda é no Irã.

  8. Paulo Roberto
    20/06/2018 at 20:48

    Infelizmente tem alguns “nem sei como classifica-los”, que nos envergonham simplesmente por se dizerem Brasileiros, melhor seria que fossem alijados do convívio social. IDIOTAS…

  9. LMC
    20/06/2018 at 11:00

    Quando algum machista é
    chamado assim,vão alegar
    que estão sendo perseguidos
    pelo “puritanismo americano”
    ou pelo “politicamente correto”.
    Oprah neles!!!!

  10. Guilherme Hajduk
    20/06/2018 at 01:08

    Oi Paulo, eu te admiro muito; e, por mais que pareça, não virá um “mas…”. Eu realmente te admiro! E é isso! Inclusive eu sinto muita falta de ver você gravando vídeos pro YouTube.

    Hoje de manhã comentei em um vídeo do YouTube no qual o cara estava falando lá que “a mídia” objetifica a mulher e, assim, gera todo o machismo na nossa sociedade, etc. O que é uma verdadeira bobagem… afinal, quem é esse “a mídia”? “A mídia” é uma entidade metafísica? Enfim, eu quis refletir apenas sobre esse aspecto da objetificação e assim comentei:

    “Que papinho furado esse de falar que as mídias e a própria cultura objetificam! O que mais vemos no Instagram, por exemplo – e, aliás, é o que basicamente sustenta esse aplicativo -, são as mulheres mais gostosas e lindas exibindo seus corpos, suas belezas físicas e suas seduções em fotos ou vídeos por conta própria, e ganhando muito dinheiro e status; isso dá sentimento de poder a elas. Quem, afinal, não é objetificado de alguma forma? As mulheres perdedoras nesse jogo da sedução se ressentem e passam a criticar as belas e as sedutoras – por pura inveja! elas gostariam de estar no lugar daquelas, se pudessem, e por não serem capazes, criticam moralmente o outro grupo. O feminismo é, ao contrário do que parece, uma luta entre mulheres: perdedoras contra vencedoras; ressentidas contra aquelas que estão no poder neste jogo da sedução. Um homem entrar nessa competição em favor das atualmente oprimidas é uma coisa ridícula, pois passam a ser apenas objetos nas mãos dessas perdedoras do jogo para que um dia, talvez, essas passem a oprimir aquelas, invertendo o jogo.?”

    O problema: fiquei como “o defensor dos machistas que fizeram aquilo com a russa”, ou “reacionário, atrasado, retrógrado e burro” ou, até, como “alguém que gosta de mulheres que não se valorizam, que são fúteis e pouco inteligentes”. O pior foi ver uns caras bastante reacionários e estúpidos, os quais eu não duvido nem um pouco que votam no Bolsonaro com fervor, me defendendo! Falando para aquelas mulheres que estavam me acusando de ser imbecil, que elas são feministas feias e fedidas, e que nunca viram uma feminista que fosse bonita! Foi esse tipo de gente que eu atraí para o meu comentário; tudo porque eu não tinha deixado claro o meu repúdio com aquela situação da russa.

    Desculpa por ter escrito demais, e, se você leu até aqui, gostaria que você comentasse aquele meu comentário lá do YouTube (o qual eu copiei e colei aqui) e as respectivas consequências lamentáveis que ele gerou. Sua opinião me é muito importante.

    Forte abraço!
    Guilherme.

    • 20/06/2018 at 08:01

      Guilherme, responderam isso para você porque são pessoas que não ouviram o que você disse. Não querem ouvir. Pensar dói o cérebro dessa gente. Tanto os que defenderam você quanto os que atacaram. Pensar não é para qualquer um. Nunca devemos esquecer que Sócrates foi condenado. Foram trinta votos de diferença. Mas foram trinta a mais!

  11. Hilquias Honório
    20/06/2018 at 00:42

    Vendo o Jornal Nacional dessa terça, meio que senti que eles foram direto pela armadilha semântica. Mas agora vejo melhor que mais narraram as colocações de instituições como a OAB, que chegaram a usar os termos “patriarcalismo” e “objetificação”.

    • 20/06/2018 at 08:02

      A OAB já está contaminada pela burrice. É útil o que fez, mas é burra.

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