Go to ...

on YouTubeRSS Feed

25/02/2018

Será que a esquerda não vai entender o recado vindo do BBB?


[Artigo indicado para o público em geral]

A esquerda é a herdeira dos ideais dos liberais quanto ao melhor do Iluminismo, e que se concretizou, depois, no conceito moderno de “Direitos Humanos”. Os Direitos Humanos são direitos individuais e direitos de minorias, postos em textos que colocam as pessoas como protegidas do abuso do Estado, em vários sentidos. Não à toa o conceito de Direitos Humanos, como o temos hoje, atento às torturas em prisões e coisas do tipo, surgiu de modo mais acabado após a II Guerra Mundial. Às vezes a direita que adere ao projeto de “estado mínimo” age de modo a tomar só os aspectos econômicos dessa tese, e se esquece que, pela lógica, deveria incluir a defesa radical dos Direitos Humanos. “Estado mínimo” deveria combinar com estado sob o jugo de valores capazes de cercear seus piores tentáculos. Há muita confusão ideológica nessas questões. Os esteriótipos ajudam a complicar as coisas.

O esteriótipo criado pelas próprias minorias não são seu melhores representantes, claro. Mas, incorporados em pessoas reais que advogam serem líderes de causas próprias de minorias, os esteriótipos acabam se pondo socialmente como um retrato do que cada indivíduo pertencente a uma minoria é ou deseja ser ou apoia. Nessa hora, os Direitos Humanos enquanto texto defensor de minorias e direitos individuais perde ponto. Um pensamento conservador, reacionário mesmo e às vezes até com conotações fascistas, se aproveita bem disso, não raro, no conjunto da desinformação e preconceito, mas também de má fé. O esteriótipo já foi denunciado mil vezes na TV. Mil e uma, agora, com o BBB 2018 (excelente com  Tiago Leifert, agora). O Brasil todo participante – que não é pouca gente – votou pela saída da Mara, cientista política e militante feminista, e ficou claro que ela, como esteriótipo, irritou os integrantes da Casa e o público. O Brasil tem pouco tolerância por gente militante que se coloca como vanguarda, que se coloca como defensor de uma causa sem que os grupos que ela queira representar a tenham convidado para ser uma tal liderança. O Brasil não aguenta mais professor universitário “militante”, principalmente “militante de esquerda”. Muita gente que defende Direitos Humanos e que vota em teses de esquerda (a preferência por Lula mostra o quanto há pessoas dispostas, inclusive irracionalmente, a perdoar corrupção em troca de governo “social”) não quer conviver de modo algum com pessoas como Mara.

Dentro da Casa, pouco antes de sua saída, um dos rapazes (sabiamente) alertou bem Mara, mais ou menos assim: “se você não ficasse na defensiva, tudo teria sido diferente”. Sim! A lição de um jovem para a professora doutora. Mas duvido que ela tenha ouvido. O problema do militante profissional, que se auto-elege militante profissional e que vem do âmbito de uma esquizofrenia acadêmica, é que ele está sempre na defensiva. Age como que se todos, de maneira pessoal e direta, estivessem massacrando minorias a todo tempo. E age como se esse massacre contínuo fosse necessário ser rebatido como questão pessoal. Tudo ofende esse auto-eleito oprimido. Vejam, não estou falando aqui de “coitadismo”, termo criado pela direita para exercer a real opressão – que não vou negar a existência. Estou falando da imagem de que tudo oprime para além do que uma opressão pode realmente fazer. Quando uma pessoa chega a esse nível de pensamento e atuação, ela já não sabe mais o que de fato oprime. Tudo e todos transparecem como inimigos.  E nessa hora os jargões de uma esquerda carcomida, de um feminismo rançoso, tomam o vocabulário de uma tal pessoa. O Brasil todo rejeita esse tipo e, principalmente, no caso da militante feminista, isso vira uma arma contra as esquerdas. Em muitos lares brasileiros com gosto pelo feminismo, era só aparecer a Mara e o sofá da sala gritava: “lá vem a feminista, a feminazi, aquele saco – que mulher chata!”.

Temos sempre de lembrar que Madonna, uma vez eleita pela feminista Camille Paglia como “a mulher do futuro”, respondeu da seguinte maneira: “Camille Paglia é um saco de merda”. A agressividade de Madonna é a agressividade das pessoas, inclusive das mulheres, diante de gente como Mara. Nada mais manchou a área de Ciências Sociais na Universidade, e principalmente fora dela, que esse esteriótipo tornado real com o tipo-Mara. A intransigência é a marca desse tipo de militante. O cabeça-durismo é sua prática. A forma desrespeitosa que age em favor dos respeitos é uma marca inconfundível (ai meu Deus, eu sei do que falo!).

As feministas deveriam ler Judith Butler, a feminista que inteligentemente mostrou que a categoria “mulheres” pode não dizer nada. Mas a própria Butler acabou vítima da direita por desinformação provocada pela esquerda. E que esquerda? Essa que se apresentou na pele de Mara, no BBB, que ninguém quer por perto. Diz-se certa vez Peter Sloterdijk que o liberalismo é muito importante para ser deixado nas mãos de liberais. Acho que o feminismo é muito importante mesmo para ser deixado nas mãos das feministas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , ,

15 Responses “Será que a esquerda não vai entender o recado vindo do BBB?”

  1. Thiago rodrigues
    03/02/2018 at 18:55

    Excelente texto. E obrigado por não se acanhar ou tentar agradar esquerda ou direita, gregos ou troianos.

    • 03/02/2018 at 20:49

      Thiago, filósofo que fica defendendo posições políticas NÃO é filósofo, é propagandista.

  2. bardo toad all
    02/02/2018 at 09:55

    desonestidade intelectual. a direita apoia e sustenta os mecanismos do atual sistema.

  3. Bruno
    31/01/2018 at 22:15

    Coisa parecida apareceu na internet esses dias, com a Márcia Tibúrcio defendendo assalto, porque a pessoa está necessitada e “contaminada pelo capitalismo”. E também tomou umas bordoadas da direita, nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=3wNHLE-GqAI

    Creio que uma das razões para esse sucesso atual do Bolsonaro seja essa tacanhice da esquerda.

  4. Luís Carlos
    31/01/2018 at 21:19

    Ótimo texto. Límpido na linguagem e perpicaz na leitura dos fatos. Não assisto o BBB atualmente por está focado em outras coisas; assisti as primeiras edições. Já li outros textos seus sobre o BBB e são sempre muitos bons. Aprendo com eles. Acompanho a Mara nas redes sociais. Gosto dela. Às vezes divertida, outras vezes uma chata que deixa seu oficio de lado para fazer parte da torcida.

    • 31/01/2018 at 21:44

      Luís Carlos! Cheguei a fazer um certo mini-estudo sobre os que falam mal do BBB, num livro “Filosofia & amores e Cia”

  5. George S. Baquero
    31/01/2018 at 21:05

    Ótimo texto, Paulo. Tenho a tristeza de afirmar que isto é presente em grande parte da esquerda. Os intelectuais deveriam usar seu conhecimento como ferramenta de debate, mas optam por dar carteiradas com o diploma e encerrar a conversa. Militantes travam guerras sem fim pela banalidade e ignoram o fundamental. A piada machista do seu avô, o comentário racista da sua amiga e a música de mal gosto não são o fim do mundo e eles não são nazistas. Problematize menos, seja tático.

    • 31/01/2018 at 21:43

      George muito do comportamento da esquerda acaba alimentando gente ir ouvir energúmenos tipo Olavo. Aí os falsos opostos se atraem.

    • Yuri
      01/02/2018 at 10:22

      Gostei desse comentário do George.

    • LMC
      01/02/2018 at 11:07

      George,ninguém que é nazista,
      diz que é nazista.O Bolsonaro
      está no Partido Social Liberal.
      Mas ele nem é social,nem liberal.

  6. Paulo Altino
    31/01/2018 at 18:08

    Creio haver uma certa boçalidade intelectual por parte desse perfil de estereótipos representado pela Mara eliminada no BBB2018. Uma cientista politico, doutora e etc. Sem contar que, penso eu, aqui no Brasil, as pessoas do senso comum têm ojeriza a quem tem um conhecimento mais elaborado ou coisa assim. A pergunta é, será que essa repulsa por parte da casa e do público que a tirou da casa, não seja o reflexo do nivelamento medíocre do público da televisão brasileira..?

    • 31/01/2018 at 19:08

      Paulo Altino, você sabe que não. Ela não se apresentou nem um pouco intelectualizada. Aliás, pelo contrário!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *