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26/09/2018

“Posso penetrá-la, senhorita?”


[Artigo para o público em geral]

Peter Sloterdijk, em um livro de 1999, fez uma brincadeira com a versão americana do que é ter relações sexuais. Disse ele que se Freud afirmou que um casal na cama sempre implica em mais quatro pessoas juntas, os pais de cada envolvido, na América isso deveria equivaler a seis, uma vez que cada um, já antecipadamente, levaria também seus advogados. Passado 19 anos disso, a piada voltou-se para a Europa. A Suécia acaba de aprovar uma lei, influenciada pelo movimento “MeToo”, declarando que o sexo não consensual, mesmo sem coação e violência, pode ser considerado estupro. Quem irá avaliar se a coisa foi ou não consensual será o juiz.

Há quem já esteja refazendo a piada: não se trata mais de levar 6 para a cama, a cada dois, mas de levar, também e de antemão, o juiz.

Mas, enfim, vale ou não a piada? Vale. Mas a legislação feita pelos social-democratas suecos também vale. É normal que em uma sociedade onde os sentimentos estejam mudando, alguns intelectuais, em especial juristas, queiram acelerar processos em curso, ou discipliná-los para se chegar a um bom termo que, enfim, seria o caso (imaginário) estacionário. Nessa hora, o melhor modo de entender as coisas não é olhando para o comportamento de cada um de nós somente, e sim olhando para a história. A pergunta que devemos fazer não é a respeito de como nós, homens que possuem preferência sexual por mulheres, nos comportamos em diversas fases de nossas vidas. A pergunta correta é a respeito de como a mulher tem sido vista pelas sociedades ao longo de história da civilização.

O que foi a Guerra de Troia? Nosso primeiro documento ocidental de matriz helênica diz respeito ao rapto de uma mulher – Helena de Troia. O que diz o nosso primeiro documento de matriz judaica? Fala do pecado de Eva, de sua desobediência (sem contar, antes, Lilith!). De lá para cá, salvo situações visivelmente anômalas, a mulher sempre foi tomada como uma força da natureza, algo que precisa ser domado. Algo que precisa ser controlado não para o gosto do homem, mas para o gosto e bem estar final da própria mulher, e para a ordem do Cosmos. A mulher e seu eterno vínculo com a reprodução a fez ligada com a natureza, mais do que o homem, no imaginário de todas as civilizações. Agora que a mulher conseguiu a pílula, o aborto livre (em condições modernas) e o direito ao trabalho sem exploração dobrada – ao menos num nível já visível nas democracias liberais ocidentais – é natural que ela ponha o dedo na má consciência da civilização. É natural que a sua imagem de força da natureza caia em desuso.

Isso quer dizer que o sexo deixará de ser objetificante? As pessoas deixarão de ter gana animal no sexo? Se isso ocorrer, o sexo acaba. Mas a gana e a objetificação que o sexo exige para ser sexo vão ter de conviver com a imagem da mulher como um elemento tão cultural quanto o homem, e não como força a ser domada. Se isso não vem só pela educação, vem pela cultura em geral, ou seja, por novas antropotécnicas que se firmarão pela lei. E isso não ocorrerá senão nos lugares onde a igualdade entre homens e mulheres já não estiver adiantada. Por isso, é normal que seja na Suécia que as coisas tenham andado do modo que tem andado.

É uma bobagem achar que isso se alia a uma onda  conservadora. O conservadorismo que diz proteger a mulher protegeu algumas mulheres, mas não a maioria. Os conservadores não penetravam com violência apenas as mulheres que tinham pais ricos e poderosos. Ora, as pobres, as estrangeiras (ou negras), as putas, as que se sobressaiam profissionalmente e, enfim, as que não tinham retaguarda, sempre estiveram à mercê da penetração sexual como forma antes de dominação e autoafirmação adolescente que de desejo sexual.

Aliás, é preciso notar o quanto há na cultura ocidental a ideia de que não existe lésbica, que basta o homem “chegar a vara nela, e ela vira mulher”. Chamar isso de “machismo” é uma besteira enorme. Isso é justamente o contrário: é a ideia de que a mulher é o elemento forte, o que está sempre se rebelando, e que só vai ceder ao seu destino por meio da força contrária.

Muitos dirão que uma tal legislação sueca irá provocar acusações injustas, que os homens agora ficarão à mercê de acusações perigosas. Sim, ficarão. Mas não mais do que já estão. Se há uma promiscuidade no ar, em baladas, festas e até no trabalho etc., cabe agora a cada homem fazer sexo em quem ele confia, e para tal, terá de se relacionar antes em doses homeopáticas. Não convém tentar ir para cama rapidinho não! E se assim mesmo for traído por uma denúncia falsa e injusta, garanto que isso não terá ocorrido em maior chance que agora. Em geral, um homem experiente sabe quando está diante de uma pistoleira. Se não sabe, terá de aprender. Professores aprendem rápido isso! Que o homem seja homem, e aprenda. Os conservadores não precisam ir chorar para a mamãe punir a nora que não quis ser nora.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: célebre foto das mulheres soldados israelenses, que posaram de calcinha e sutiã nos alojamentos.

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5 Responses ““Posso penetrá-la, senhorita?””

  1. wndyr sachsida
    04/07/2018 at 14:35

    professor, morei na suécia por mais de dez anos(entre 1988 e 1999) e conheço muito bem a “enheria social” sueca. é tudo isso que o senhor descreve e muito mais! conheço também a língua e a mentalidade daquela sociedade.

  2. Felipe
    02/07/2018 at 23:36

    tirando o fato de que uma mulher liberal, educada nos “valores” social-democratas e completamente consciente dos seus “direitos humanos”, é impossível de se amar, para além do boquete momentâneo e regado a conhaque no banheiro , essa canalha sueca tem toda a razão, eles tem mesmo que reduzir todo o amor, todo enternecimento e volúpia, toda ânsia de futuro que supõe o erotismo, a uma relação de “vontades livres”.eu detesto toda essa escória absurda que prefere não enxergar um palmo de distância. Os idiotas que criam as leis na europa hoje, os tipos à la stoltenberg, são a pior espécie de último homem, eles querem abolir o futuro e criar um mundo insuportável, e todos os prostituídos latem em uníssono toda vez que um novo “progresso” é feito no campo da abjeção. aliás, um exército europeu está em andamento.isso significa: adeus a preguiça e às pantufas social-democratas!

    • 03/07/2018 at 00:26

      Felipe, você é apenas um falastrão, e como todo falastrão, não consegue pensar.

  3. Guilherme Hajduk
    01/07/2018 at 19:06

    Que coisa estranha! Se entendi direito essa lei na Suécia, um juiz poderia entender que um cara tem uma boa lábia (– mas claro que sem deixar tão explicitamente assim), afirmando, a favor da mulher que o denuncia, que este rapaz utilizou-se de técnicas só para convencê-la momentaneamente de que seria uma boa ideia transar com ele, mas que se não fosse a persuasão dele, nada aconteceria? Algo desse tipo seria possível? Talvez eu tenha imaginado demais! — Veja, só estou tentando dizer que o arrependimento existe na vida, e que se uma mulher se arrepender de ter feito sexo, ela pode se utilizar dessa brecha para se vingar; e além do arrependimento, existe também a tal da desonestidade, que pode ser vista até mesmo numa Suécia da vida — aqui no Brasil, obviamente, a burrice geral já iria dar um jeitinho de se acoplar como parasita nessa lei, não percebendo que ao obter uma desonesta vantagem para se dar bem individualmente, acabará pagando caro lá na frente, coletivamente; alguém deveria alertar a burrice que depois não adianta culpar o “Carma”, causa e efeito!

    • 02/07/2018 at 01:26

      A lei aposta que o Juiz é um bom Juiz. E que um Juiz não age sem bom investigação. Não pode se diferente.

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