Go to ...

on YouTubeRSS Feed

21/10/2018

O útero é o martírio


[Texto para o público em geral]

Há homens que se excitam ao dizer para as mulheres que eles vão engravidá-las. A excitação é, no caso, um reflexo do prazer de dominação. Engravidar uma mulher é devolve-la à natureza “de onde ela nunca deveria ter saído”. O que mais dá prazer ao ser humano é imobilizar um outro ser humano, colocá-lo à disposição. Ao homem foi concedida a graça do prazer máximo de ter uma parte toda da humanidade para imobilizar, sem qualquer luta ou perigo. Metade da humanidade é de mulheres, prontas para ficarem expostas ao domínio, à paralisia, por conta de terem sido penetradas. A gravidez imobiliza. A varinha do condão (que nome heim?!) faz o outro paralisar, ficar à mercê, perder a crista, abaixar a cabeça.

O gozo imobiliza por segundos, talvez dias, quando o efeito é o amor. Mas a gravidez imobiliza não só nove meses, mas para sempre.

Guerrear com animais e outros homens envolve perigo físico. Submetê-los para o deleite próprio nem sempre é possível a todos. Mas submeter a mulher pelo instrumento doce do amor, eis aí o mais perverso mecanismo de extração de prazer. Engravidar a mulher e, então, torná-la uma peça barriguda, capenga, frágil, dependente, ameaçada pelo desamparo – isso é tudo que o homem mais quer, conscientemente ou não. Homens com tendência a ter “úteros” são presas fáceis, como as mulheres que já os têm por condição própria.

Homens que se relacionam com mulheres que não gozam ou mulheres intelectuais, ou que são altivas, possuem um desejo imenso de fazê-las voltar à natureza, à inércia, pela gravidez. Desejo de todo e qualquer homem. Penetrar não basta, vê-la gozar não basta, é preciso imobilizá-la pela gravidez. Marcar a planta.

Algumas pessoas bem equivocadas, que tomam o efeito pela causa, chamam isso de “machismo” e acreditam que uma tal coisa explica tudo. Fala-se aí em “sociedade patriarcal” e, depois, em “capitalismo”. São as feministas que desconhecem Judith Butler. Criam uma carreira de confusões. A questão não envolve machos e fêmeas, mas sim cultura-mobilidade versus natureza-enraizamento. Se a cultura introduz a vida veloz e a mobilidade, alguém deve ficar no jardim, com raízes, para melhorar o solo e manter a vida como ainda ligada à natureza. O útero é o instrumento para tal. Enchê-lo é o segredo de Polichinelo. A ideia do aborto livre, mesmo em uma sociedade onde as condições de abundância, pela primeira vez na história, o dispensam, é simplesmente uma ideia de se livrar do útero como raiz. Uma vingança pelas costas. Quem tem útero é da natureza. A mulher sem útero ou com o chamado útero livre pode alçar-se à cultura sem medo. Ninguém a fará virar planta barriguda.

Os homens engravidadores temem demais perder esse plano de prazer. Ter de lutar contra animais e contra outros homens para exercer algum domínio e ter prazer não é uma boa pedida. Exige força, treinamento, coragem, inteligência – tudo o que só poucos homens possuem. O bom é ter ao lado uma carne gostosa com útero, ou seja, com uma carne possuidora de um elemento pelo qual se pode fazer a carne parar de ricochetear e cair em seu lugar, virando de novo apenas um pé de alface.

Tudo que vier fora do útero materno não será humano. Sabemos disso. Mas, se pudermos fabricar algo que tenha todas as condições (inclusive as sociais) do útero materno, teremos nós mesmos andando por aí, sem que a ditadura do amor reduza a mulher a uma peça do prazer dos fracos. O aborto livre é solução paliativa. E talvez não solucione nada (embora não ser presa não seja um nada!), uma vez que é fácil tornar a mulher culpada por não ser mãe.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Condomínio Jaguaré 16/07/2018

Tags: , , , ,

3 Responses “O útero é o martírio”

  1. Guilherme Hajduk
    16/07/2018 at 17:47

    Já tem gente demais no mundo! Recentemente estava eu pesquisando sobre população mundial e me assustei ao ver que só foi a partir da década de 50 que começou a explodir de pessoas no mundo. Foi assustador! Não lembro exatamente no momento, mas mais ou menos em 1900, por exemplo, não tinha nem 1 bi de população mundial! 1900 foi ontem! E os próprios estudos já projetavam mais aumento, mais gente, cada vez mais! Bizarro… Que abortem, transem — e abortem de novo! — até terem plena certeza de que realmente querem pôr um filho no mundo.

  2. Hilquias Honório
    16/07/2018 at 13:00

    Uma coisa que me fica cada vez mais clara é que, assim como no seu “A ditadura do amor”, muitas das mulheres que advogam o direito do aborto, não fogem da regra de querer prender outra mulher na condição de mãe. No geral, as frases são “nem cachorro abandona os filhos”.

    • 16/07/2018 at 13:59

      As ideologias de subjugação são tentadoras pra todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *