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10/12/2018

O corpo da mulher é seu rosto


[Artigo para o público em geral]

Marina Moschen

Marina Moschen

Ao contrário do que dizem as feministas incultas e o Chico Buarque, a mulher na Grécia Antiga não era “submissa”. O conceito de submissão para mulheres é algo moderno. A diferença entre homens e mulheres na Grécia Antiga obedecia outras regras. O feminino tinha a ver com a natureza, o masculino com a cultura. E, claro, essa noção estava enraizada no vínculo da mulher com o parto, os ciclos menstruais, a procriação, a atividade da parteira, o curanderismo e a atividade dos Oráculos. Não era pouco o poder da mulher. A cultura sempre precisou fazer muito para tentar conter a natureza!

Se olharmos com certo cuidado as estatuetas greco-romanas e as pinturas notamos uma equalização entre o nu masculino e o nu feminino que nunca mais se repetiu na história da arte. Aliás, é interessante que o Renascimento fez da mulher uma figura de traços arredondados e, dizendo estar imitando a Grécia Clássica, criou sim, na verdade, uma imagem pouco próxima do que foi a mulher grega. Mas foi justamente a partir do Renascimento, com a sua visão ideológica do corpo da mulher, que tudo então se diferenciou na arte quanto a tal assunto.

Bruna Marquezine

Hoje nós precisamos menos da arte quando queremos falar do corpo da mulher. A mídia substituiu a arte no registro necessário ao historiador. Fica mais fácil, atualmente, não ficar restrito só ao olhar do artista para conceber a estética feminina de uma época ou região. Podemos então, por esses registros, perceber como que os traços naturais da mulher foram alterados de modo bastante radical nos últimos anos. A chamada beleza feminina, até mesmo entre nós, latinos, amenizou o culto pelas formas arredondadas e optou claramente pelas formas mas agressivas, deixando os traços de boneca apenas para as bonecas. Sobrancelhas como a do Dr. Spock ganharam as mulheres. Brincos como os de qualquer alienígena deixaram de serem adornos para fazerem parte da orelha. A tatuagem se tornou praxe e o piercing de nariz uma obrigação. A mulher musculosa não é mais considerada “masculina” e, por fim, o andar da mulher, que condiz com seu novo corpo, ganha as passarelas atuais segundo um tom impositivo, firme, talvez até mais decidido que o masculino. O empoderamento se expressa no corpo de uma forma jamais vista. A mulher pós-feminista é quase homem. Mas como não sabemos mais o que é o homem, o que temos é, então, uma outra mulher.

Atrizes de Malhação 2017/2018

Já falei aqui neste espaço de como a Barbie nunca mudou seu nariz. Mas falei, também, de como os narizes atuais de mulheres tidas como belas podem ser menos arredondados e até aduncos. O que não pode ocorrer é os dentes não serem brancos e grandes, e a boca não ser a boca de puta-sem-vergonha. A boca precisa mostrar que fala, que domina o mundo, e que não tem nenhum pudor em abrir e abocanhar objetos, e que há pode dispensar o cigarro. A boca dispensa o cigarro à medida em que pode abocanhar  o pênis publicamente, ou fazer sinais disso. Seios e nádegas disputam terreno em idas e vindas estéticas. Mas não contam mais para realmente distinguir decisivamente a sensualidade. Não precisam mais contar. O rosto da mulher é, sim, hoje, o elemento central não de sua beleza somente, mas de sua sensualidade. Sensualidade que precisa denotar uma capacidade de se por ativamente no sexo – o que não implica em nada no coito por cima – mas expressar “caras e bocas” para o sexo, o gozo. A mulher não pode mostrar que ainda não goza. O homem, por sua vez, não sabe bem o que fazer com isso tudo.

Renata Vasconcelos

Renata Vasconcelos

O corpo da mulher se desvinculou, finalmente, da natureza. Ela menstrua se quer. Ela tem pouca resistência se quer. Ela tem filhos se quer e assim por diante. Claro que o trabalho escraviza, ainda, milhares de mulheres. Torna-as feias. Mas até mesmo a mulher pobre já começa a sentir os efeitos dessa revolução da silhueta que é um subproduto poderoso do feminismo, mesmo que as feministas não saibam nada disso. No Brasil, isso é decisivo. A classe trabalhadora feminina passa aperto, mas não deixa de ir no “salão de beleza”. A “depilação brasileira” se tornou famosa no mundo todo. A mulher não foi feita para o sexo, agora ela é que se faz para o sexo.

 

 

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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