Go to ...

on YouTubeRSS Feed

25/09/2018

Há mulheres que votam em Bolsonaro?


[Artigo para o público em geral]

Há pessoas que votam contra seus próprios interesses? Essa pergunta foi feita nos anos vinte e trinta do século XX por vários teóricos, em especial pelos filósofos da Escola de Frankfurt. Os trabalhadores haviam “perdido o ímpeto revolucionário” e estavam abandonando o projeto revolucionário pelo socialismo. Muitas vezes, preferiam a social-democracia, uma fórmula de convívio do sindicalismo de esquerda com o capitalismo. Mais tarde, em diversas outras circunstâncias, essa questão dos “interesses” nas opções políticas da democracia foram invocadas. Nem sempre essa pergunta é boa! Por quê?

Por uma razão simples: quando falamos em “interesses”, não é difícil imputarmos algo parecido com a tal “consciência de classe”, em um sentido mais ou menos próximo ao de Lukács, a quem estamos querendo analisar o comportamento. O que é “consciência de classe”? Trata-se de uma “consciência” que, criada a partir de uma racionalidade ideal, deveria procurar fazer seu portador, também ideal, seguir aqueles candidatos ou programas que viessem torná-lo mais livre, mais emancipado e com melhor vida. Mas aí há dois problemas: o que parece racional a uns, pode não parecer racional a outros. Portanto, a questão não é a diferença entre o empírico e o ideal-racional, mas, ainda só no plano ideal, a questão é a de se saber o que é mais racional, ou simplesmente o que é o racional.

Essa questão da consciência, que antes era atribuída à classe, pois se falava em “proletários” e “burgueses”, depois da Segunda Guerra Mundial foi sendo repetida para cada minoria emergente: gays, negros, mulheres, etc. A “luta de classes” de Marx foi em parte ou substituída ou complementada pela “luta por reconhecimento” de Hegel. Mas o enfoque de Lukacs se manteve. E a questão central permaneceu, ao menos para a esquerda americana e, mais recentemente, para a nossa: há minorias que optam por programas e candidatos que vão contra “seus interesses”.

Em suma: mulheres são ofendidas por Bolsonaro o tempo todo, e ele diz claramente que não vai fazer nada para valer os seus direitos. Não apoia a Lei Maria da Penha; diz que não vai mexer uma palha para fazer valer as leis que implicam no salário igual em igual função quanto a empregos de mulheres em relação a homens; adota comportamento agressivo e prático contra mulheres, inclusive agredindo deputadas e jornalistas etc. Mais que machismo, Bolsonaro é realmente um anti-mulher. Chegou a dizer que fazia sexo com animais, no interior, “por falta de mulher”. A maior parte das mulheres, segundo as pesquisas, então contra ele. Mas há mulheres que votam nele. Qual a razão delas votarem contra “seu  próprio interesse”? Qual a razão de votarem “sem racionalidade”?

A questão é: mas de que racionalidade falamos? Primeiro: nem toda mulher se acha mulher como outras mulheres. Há mulher que se considera paradigma de mulher, e imagina que a outra, a que não vive submissa, para o lar, para servir tipos como Bolsonaro, não é mulher. “A outra” – eis um nome bem conhecido entre as mulheres. A “outra” é, por definição, alguém que faz o errado, faz a vida mais difícil, pois o mais fácil é obedecer o homem. Ora, se a economia de energia é mais racional que o dispêndio, então, ser submissa é economia de energia e, portanto, super racional. Votar em Bolsonaro, por esse tipo de pensamento, não é irracional, é racional par excellence. Mudar o mundo, para várias mulheres, é algo muito trabalhoso. Há mulher que acha que se esse mundo mudar, ela não vão ganhar nada, só perder.

Isso lembra bem o negro capataz no filme Django, de Tarantino, o personagem de Samuel Jackson: quando ele viu Jango a cavalo, livre, como homem branco, ele começou a perceber que logo viria a Abolição, e que o seu tempo de reinado como capataz que podia agir como branco, principalmente diante de um patrão fraco, estava com os dias contados. O mais racional para ele era,  no tempo que lhe restava de vida, exercer a vingança contra Django, ou seja, exercer o poder dos últimos dias antes da Guerra Civil que viria, que de fato veio e que eliminou a escravidão.

A mulher que é oprimida muitas vezes se acha recompensada pela situação de opressão. Ela vê que, se todas as cangas desaparecerem, ela, na posição intermediária de estar só sob meia canga – por exemplo, a posição de dona de casa que reina no lar, que reina sobre a empregada doméstica, e que só não reina no escritório do marido, onde então a amante é a princesa – até pode se vangloriar se estar em boa situação. Muitas mulheres de classe média alta, que possuem informação o suficiente para jogarem a canga fora, vivem assim perpetuando o status quo antiquado. Elas odeiam o feminismo. E o feminismo, por sua vez, nem sempre é inteligente para perceber isso, e apela para a dessexualização, o moralismo, afastando de si até mesmo a amante que reina no escritório, e que poderia estar no movimento.

Mas, apesar disso, se há uma força que pode derrotar a extrema direita hoje no Brasil, essa força e das mulheres anti-Bolsonaro. Talvez essas mulheres salvem o Brasil. Tomara que, para salvá-lo, não o entreguem ao PT, que é um cancro nacional. Isso todos sabemos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filosofia

Tags: , , , , ,

One Response “Há mulheres que votam em Bolsonaro?”

  1. Carlos
    17/09/2018 at 10:58

    Acho que sim, Inclusive uma delas quase foi sua vice-presidente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *