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16/07/2018

Chega de brincar de feminismo, OK?


[Artigo para o público em geral]

“Se você tem medo que um homem na rua passe a mão na sua bunda, e se isso a paralisa, acho que você tem terror da sexualidade”. Essa é uma frase bombástica da Folha de S. Paulo, tirada da boca da escritora francesa Catherine Millet (28/04/2018). Talvez a Folha queira, com isso, apenas fazer manchete e vender jornal. Tem o direito a tal coisa. E talvez com isso provoque, no Brasil, a mesma polêmica entre americanas e francesas, em que se diz que o feminismo atual é apenas denuncista, barulheira de mulheres imaturas e vitimistas, algo pouco democrático.

Essas polêmicas entre Millet e o movimento Me Too, sobre a qual já escrevi aqui por ocasião de manifestação de Oprah e Deneuve (fiz três artigos, veja um aqui), se continuar nesse nível de frases jornalísticas, não vai levar a lugar nenhum, a não ser a uma confusão completa. As questões no Brasil, sobre essa assunto, são de fato questões brasileiras, mais que quaisquer outras. Nesse quesito, não estamos “globalizados”.

Vou ser didático, peço que me perdoem.

Minha esposa, a Fran, é trinta anos mais jovem que eu. Nasceu em 1985. Estamos juntos desde os 17 anos dela. Praticamente são 15 anos de casados. Minha esposa é bonita, atraente e inteligente. Aos 32 anos, tem cara de menina ainda. Ela está longe de ser anti-feminista, mas está mais longe ainda de endossar o feminismo atual. É formada em filosofia e conhece muito bem, além da média, Simone de Beauvoir. Ela não tem traumas sexuais. Muito ao contrário! Se recebe uma cantada agressiva na rua, isso não a mete medo. Nem ela tem reações pudicas histéricas. Minha esposa não tem nenhum problema com homens no trabalho que possam falar coisas brutas. Nem está ela acesa e desesperada em denunciar “assédio sexual”. Todavia, minha esposa não deixa de ter algum receio de pegar o metrô. De modo algum ela entra no metrô com uma saia curta ou com uma roupa que ela sabe que é provocante. Ela se auto-censura. A violência das ruas não é incomum contra mulheres que “chamam a atenção”. Ela, minha esposa, quer um mundo diferente desse, claro – mas ela não vai ficar chamando a violência para cima dela. Todavia, ela sabe que outras moças, para irem numa festa, maquiadas e com uma roupa que “chama a atenção”, vão ter de ir de metrô, não poderão ir de carro, e passarão apertos ou coisa pior. Esse mundo tem que mudar.

Tenho várias amigas que adorariam serem cantadas por um segurança do metrô paulista, que dizem elas são “pedaços de mal caminho”. Mas isso é fantasia. Se forem de fato abordadas, o fantasma da violência – especialmente a violência vinda de amantes ou potenciais amantes ou namorados – é algo que emerge para a maior parte das mulheres brasileiras, até mesmo diante de homens bonitos e simpáticos. Não é o Gasparzinho, o fantasma camarada. A violência de homens aparentemente “boa gente” contra namoradas, esposas, amantes etc. não é algo de filme. É o cotidiano da mulher brasileira. Homens armados, policiais, gente que nunca usou a arma contra um bandido, usa contra a esposa. A ideia de que mulher faz parte das posses do homem está em nossa sociedade de maneira arraigada, pois nosso passado do senhor de escravos e terra não foi abalado pelos Sixties como em outros lugares. Essa situação tem reflexos esquisitos: faz com que um estuprador morra na prisão. Ora bolas, todos os que matam na prisão o estuprador, eles próprios, já agrediram alguma mulher.

O homem pode ter a fantasia de se relacionar de uma só vez com várias mulheres. Pode até  querer realizar isso (é um erro, mas pode). A mulher pode ter tal fantasia, mas que não tente realizar isso. Vai ser executada, mais cedo ou mais tarde, por um dos participantes. Americanas e francesas no debate não estão entendendo a mulher no Terceiro Mundo. Por mais que exista uma situação de não-trauma no comportamento sexual de uma mulher do Terceiro Mundo, se ela não ficar esperta, ela vai acabar tendo um trauma fora de época, um trauma que não é o comum “trauma de infância”. Este já  faz bastante estrago por aqui. Mas o segundo está sempre à espreita. Duvido que as autoras americanas e francesas que escrevem aos borbotões sobre feminismo, e induzem homens conservadores a falarem contra o feminismo aqui, saibam de fato o que é ser mulher e jovem no Brasil. Aqui é o lugar em que mais se acessa pornô de travestis, e é o lugar onde há o maior número de assassinatos de travestis.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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3 Responses “Chega de brincar de feminismo, OK?”

  1. Roberto
    04/05/2018 at 09:18

    Paulo, “O homem pode ter a fantasia de se relacionar de uma só vez com várias mulheres. Pode até querer realizar isso (é um erro, mas pode). A mulher pode ter tal fantasia, mas que não tente realizar isso.” Há muitos anos vc fala isso. Eu já te questionei sobre isso, vc disse que se a fantasia for realizada deixa de ser fantasia e que praticar de sadomasoquismo não é necessariamente fantasiar. Por isso reitero a pergunta. Por que não realizar uma fantasia? Quais os riscos? Decepção, traição, vício…?

    • 04/05/2018 at 10:15

      Roberto, que tal você realizar suas fantasias e depois escrever sobre isso? Talvez você perca a noção do que é fantasia, talvez você descubra que não tem fantasia etc. Não sei. Tente. Se a sua fantasia for matar alguém ou cometer algum crime, não me acuse. A decisão é sua.

  2. Hilquias Honório
    28/04/2018 at 16:32

    Texto tocante e instigador. Eu sempre fico sem saber como reagir diante dessas discussões.

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