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19/11/2018

O destino da “frente hormonal da grande revolução”. Ainda sobre Oprah e Deneuve


[Artigo indicado para o público em geral]

Nos anos sessenta a juventude do mundo todo, tanto no chamado “mundo livre capitalista” quanto no mundo “por detrás da Cortina de Ferro” – para usar duas expressões típicas da época, ao menos na mídia pró-Ocidente – descobriu uma verdade: “está tudo errado!” E o principal erro viria da proibição. O Maio de 68 ficou emblemático em nossas mentes por conta dos muros pichados. Em Paris: “Il est interdit d’interdire”. Aqui no Brasil: “Abaixo da ditadura”. No Leste, o slogan que dava nome ao que daqui assistíamos: “A primavera de praga”. Nos Estados Unidos, uma juventude toda tomou as universidades para escutar um professor dissidente do capitalismo e do sovietismo: Marcuse. Na prática cotidiana, um monte de gente, de todos os lados, traduzindo Reich em favores chulos: vamos gozar. Ninguém saiu imune! Muitos não saíram impunes.

Peter Sloterdijk é um filósofo que viveu os Sixties profundamente, como estudante. Em entrevista de 1999, ele lembrou a época dizendo “nós éramos partidários das definições de Wilhelm Reich e julgávamos que a libido corria à esquerda (…) Era para nós uma parte da contra-cultura, a frente hormonal da grande revolução”.

Peter Sloterdijk tem hoje seus setenta anos, e eu sessenta. Eu peguei a cauda do movimento reichiano, quando o Maio de 68 já havia sido enterrado e quando as alternativas à esquerda se radicalizaram em “luta armada”, “terrorismo”, e uma saída posterior no Eurocomunismo, menos agressivo. Essa minha geração viveu a libido não propriamente como “frente hormonal da grande revolução”, mas como uma época ingênua que foi encerrada no enfrentamento da AIDs.

Depois, com o esfacelamento da URSS, viemos a sonhar com um mundo mais plural. Mas logo apareceu a conversa sobre “pensamento único” e, em seguida, essa situação atual de um dualismo não mais ideológico, mas ainda assim um dualismo. No plano do pacto sexual, esse dualismo – vigente hoje – quer se caracterizar por formas imbecis, como se ao feminismo não houvesse outra saída senão ficar falando entre direito ou não direito de se passar a mão na bunda de uma mulher. A bunda de uma mulher é sim um lugar que devemos passar a mão, mas precisamos saber se nossa mão soube ler a linguagem corporal exata da dona da bunda, isto é, se houve convite da bunda para a mão. Para quem não entende de linguagem corporal, então, é bom que se vá devagar. Em todo caso, é melhor saber de fato que mulher não é uma bunda. Ela apenas tem uma. Mas não é demérito se o rebolado dessa bunda atrair olhares – dançar é um adendo sexual.

A baixa sensibilidade, a incapacidade analítica, a emergência de Trump e, enfim, no caso brasileiro, a desescolarização, levam as pessoas a achar que estamos de fato numa luta (“guerra cultural”, dizem), onde as mulheres viraram lésbicas puritanas, na América, e que na Europa sobrou as francesas despudoradas, ainda querendo que italianos lhes apertem os seios – ou de fato a bunda. Quem pensa assim do debate possível entre o manifesto assinado por Catherine Deneuve (contra o “denuncismo” de assédio) e a fala de Oprah Winfrey (contra o assédio), não entendeu nada da evolução da “frente hormonal da grande revolução”. Não entendeu o destino dessa frente. Não percebeu que as saudades da revolução já se foram, e que vivemos num mundo em que, desde aquela época, estamos gestando um novo pacto sexual, entre outros pactos. Ele se faz urgente agora, e está acima de querelas da política do passado. Há uma minuta desse contrato na mesa de negociações do Ocidente. O mundo do cinema, na Europa e nos Estados Unidos, está acolhendo tal mesa. Está com essa mesa posta, em direção ao futuro.

Esse novo pacto sexual exige um mínimo de capacidade analítica. Mas bolsonaristas no Brasil, trumpistas na América e extremistas de direita na Europa não têm tal capacidade – nem minimamente. Uma boa parte da esquerda, infelizmente, também não. O que as mulheres dos dois continentes estão pedindo não são coisas opostas, como à primeira vista pode parecer ao simplórios. Mas o que pedem é, sim, de certo modo, coisas simples: se eu, homem, quero cantar uma mulher, é melhor que eu refaça a própria frase que acabei de emitir com a palavra “cantar”. Devo dizer: “quero galantear uma mulher”. Isso não é voltar aos anos 50. Mas, é certo, que simplesmente devo me comportar como macho sem ter de ser um eterno senhor de engenho se servindo de escravas, ou um empresário sacaninha que possui mulheres bibelôs. Há muita chance para o homem ser másculo (“ter pegada”, dizem os jovens) e ao mesmo tempo ser suficientemente capaz de entender que na cama, se este é o destino, a disposição espacial é horizontal. O que as mulheres do mundo estão pedindo não é nem o império do playboy estuprador, filho de papai, nem o homem afeminado, incapaz de ter um olhar aguçado para as ancas femininas. O que se está dizendo é inteligível para quem fez o ensino médio: se a posição final é horizontal, no sexo, nada então de começar o sexo a partir de verticalismos, de usos de status e de poder para se ir para a cama ou para sair dela. A mulher não está se negando a se comportar como objeto na cama, ela está se negando em ser objeto fora dela! Ela está se negando em ser objeto por meio da alusão à cama. É preciso parar de vez de achar que mulher lembra sexo e submissão e vice-versa, em todas as situações.

O que muda no pacto sexual atual, que é uma acomodação do “proibido proibir” da revolução malograda, são os pressupostos para o sexo. Se o sexo agora é realmente mais livre, então não há razão para não vive-lo horizontalmente mesmo, como a disposição espacial da cama efetivamente pede, sem que apareça entre os lençóis mil e um subterfúgios verticais que induzam as paredes do quarto a ficarem pichadas com: “é proibido não coagir”.

A moral kantiana do dever não vinga mais, estamos de fato numa sociedade que quer uma moral mais leve, uma moral da generosidade com minorias, cães, outros animais parecidos, a natureza em geral. A mulher faz tempo que está nesse pacote. Querer ridicularizar isso, colocar Oprah na berlinda e jogar Deneuve para o campo dos desejos dos que punheteiros a la Nelson Rodrigues, isso é um erro de análise, uma falta de visão histórica. Não é nada disso. Ambas estão falando contra os conservadores, e contra os adolescentes (de todas as idades) carolas do tipo Nelson Rodrigues. Não há mais espaço para Trump, por isso mesmo ele foi eleito presidente. Quando uma bolha purulenta aparece, é bom que ela realmente tenha “cabeça”, pois então mostra estar está madura para ser espremida, vazar e, assim, fechar sem deixar cicatriz.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Demonstrationt. Paris, May 1968

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15 Responses “O destino da “frente hormonal da grande revolução”. Ainda sobre Oprah e Deneuve”

  1. LMC
    11/01/2018 at 11:44

    O problema de algumas feministas
    hoje em dia é transformar o mundo
    numa imensa delegacia de polícia,
    a la Datena.Elas já começaram a
    bater na Catherine Deneuve(eu
    já sabia!)

    • 11/01/2018 at 11:47

      LMC mas isso do debate faz parte da acomodação desse novo pacto. Felizmente está havendo o debate.

  2. Daniel
    11/01/2018 at 07:33

    Texto muito bom, mas a descrição estereotipada do Nelson Rodrigues é bastante limitada.

    • 11/01/2018 at 11:25

      Daniel isso é sinal de que você ainda está na adolescência e não percebeu a carolice e a mesmice do Nelson.

    • Daniel
      11/01/2018 at 12:44

      Responder diminuindo a pessoa que levanta uma crítica é sinal de uma maturidade e tanto, professor! hahaha. Sou diretor de teatro, doutor em Letras e professor universitário. Entendo bem do Nelson. Só não me acho um pretensioso arrogante que não aceita questionamentos contrários. Felizmente os teus escritos sobreviverão às tuas grosserias.

    • 11/01/2018 at 12:52

      Daniel você é doutor em Letras, mas é um doutor infantil, o Nelson é o Carlos Zéfiro de pseudo intelectual. Você pode espernear e gemer dentro de sua calcinha, mas o Nelson continuará sendo fraco.
      Por outro lado, sua reação confirmou o que eu disse: se alguém fala para um arquiteto que Niemeyer é um bunda, o cara começa a ter ataques histéricos. Se você diz para um filósofo que Sócrates é um bunda, a mesmas coisa. O pessoal do teatro e das Letras não foge dessa regra. Mas o útero um dia acaba, para alguns. E aí ficam adultos. Ficam chatos, é verdade. O bom mesmo é fase Zéfiro-Nelson.

    • Daniel
      11/01/2018 at 13:37

      Dá para ver que sou eu quem está esperneando e gemendo! hahaha. Ok, Ghiraldelli! Você é o adulto inteligente! Beijos! 😉

    • 11/01/2018 at 13:39

      Eu não sou adulto. Jamais consegui isso. Você é. Veja a prova: insiste em vir falar comigo debulhando títulos por conta de que ficou magoadinho por Nelson Rodrigues ser autor que não conseguiu chegar nos pés do Carlos Zéfiro. Isso, vindo de você, é sinal de que é adulto e super inteligente. “Tem que manter isso, viu?”

  3. Elizeu Santos
    11/01/2018 at 02:31

    Professor, o que você acha de Francesco Alberoni?

  4. 11/01/2018 at 01:58

    Nos anos 60 nasceu uma geração, que contrario o sistema, mais todos viraram senhores de família, com os filhos que vieram, não adianta querer mudar o sistema, somente melhorar, as coisas vem assim desde milhares de anos e evolui sem sair da regime principal, alimentar-se para viver e fazer sexo para procriar,

    • 11/01/2018 at 02:00

      Ronaldo, nada disso, se as coisas fossem tão simplórias eu não precisaria escrever nada, não haveria literatura nenhuma sobre o assunto.

  5. Diego Rodrigo da Silva
    10/01/2018 at 17:39

    Olá Paulo.
    Teria uma bibliografia sobre minorias sociológicas para me indicar?
    Pois achei muito interessante o modo que você aborda o tema e gostaria de me aprofundar um pouco mais.

    obrigado.

    • 10/01/2018 at 18:08

      Diego o ponto de partida é o meu Filosofia política para educadores (Manole)

    • Ronaldo Brognoli
      11/01/2018 at 02:03

      Tudo é evolução e revolução é uma mudança radical do sistema, evoluímos apesar de pessoas acharem que o mundo esta acabando, são verdades

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