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21/10/2018

Aborto para Janaína funciona como o Impeachment?


[Artigo para o público em geral]

Janaína Paschoal quer que o aborto continue sendo crime e ao mesmo tempo quer que as mulheres não sejam punidas e sim “acolhidas”. É o mesmo modo que ela fez acontecer no Impeachment: Dilma sai, mas não sai. Ou seja, Dilma está aí, candidatíssima!

Acolher mulher colocando-a nas grades é algo bem estranho, que ainda não entendi!

O problema que Janaína carrega, e talvez ela própria ainda não saiba, é que ela não sabe o que quer. Ela é cristã, tem uma alma boa, quer acolher as pessoas. E eu acredito totalmente na sinceridade dela (caso não, já teria parado de escrever sobre ela e sobre muita coisa). Mas, por destino familiar, nasceu em um lar conservador e se tornou refém de posições à direita. E da direita, já dizia Helio Bicudo, não se pode esperar nenhum ato humanista. Janaína não ouviu o Dr. Hélio, simplesmente por não ter convivido com ele, apenas estagiou alguns meses, e foi só na hora do anti-petismo de todos nós. Cá entre nós, Lula conseguiu nos fazer sentir raiva! Lula consumiu nossa energia. Lula é um cancro.

Mas e Janaína, como ela vive? É duro e triste falar disso. Mas talvez não para ela, e sim para nós, que olhamos “de fora”. Talvez Janaína não sinta nenhuma problema nela mesma, talvez não perceba que seu coração está se dilacerando e sua biografia se desfazendo. Jesus a chama de um lado, para o lado do perdão, a direita a joga para outro, para o lado da culpabilização e da crueldade.

A direita funciona na base de hierarquias rígidas. É a própria definição básica de direita, desde a Revolução Francesa: acreditar que os “bípedes sem penas” são de dois tipos: os que nasceram para a indolência e obediência e os que nasceram para comandar (e que na realidade são os verdadeiros indolentes – palavra da moda agora).

Uma parte da direita admite que as hierarquias possam ser flexibilizadas, por exemplo, pela educação. Assim é o liberal conservador. Mas o problema é que a direita, mesmo em se tratando do liberal conservador, tem dificuldade de aceitar que existem pobres que nascem em lares que estão aquém de se chegar e ficar numa escola razoável. E nesse âmbito, as minorias (sociológicas – ufa!) às vezes sofrem do duplo problema: o preconceito e a pobreza. Mas só o preconceito já é dose! O preconceito contra a mulher existe sim. Ela, mulher, em grande parte da literatura ocidental, foi feita para o pecado e para a submissão – há um lastro cultural na nossa civilização ocidental para reforçar isso (isso não significa que eu endosse a teoria feminista do patriarcado – gosto mais da Butler). Janaína tem dificuldade de perceber que a direita, onde ela própria foi fixar sua posição partidária, não quer saber de mulher livre de modo algum. É uma direita tacanha, que tem pessoas como Bolsonaro, que não serve para ser empresário e viver no capitalismo. É uma direita que vomita “o mercado é livre”, mas só vive por conta de benesses do estado. O empresariado inteligente (senão ele, ao menos o seu pessoal de Marketing) já sabe que para vender, hoje, é preciso sim falar a favor da “mulher emponderada”. Bolsonaro e Mourão estão aquém do liberalismo conservador e aquém de uma “sociedade de mercado”. Representam o arcaico do arcaico.

Janaína falou “eu não meu calo”, para uma mulher de esquerda (nossa, era uma senadora!). Mas para um homem de direita, Bolsonaro, ela diz que não abaixou a cabeça e realmente abaixou sim. Não tirou o apoio dele. Apoia o machismo. Apoia o anti-cristianismo que está na base da criminalização do aborto. Ninguém pode acolher uma mulher e ao mesmo tempo colocá-la na prisão, deixar os outros filhos dela na rua. Na prática, é isso que ocorre com a criminalização do aborto. “Acolher a mulher” e ao mesmo tempo deixá-la, como está, sob a tacão de uma lei injusta, é imoral.

Janaína tenta argumentar fora dos parâmetros religiosos. Mas fora deles, ela não tem argumento. Ela fala duas coisas rasas, que não honram o título que ela tem de professora da USP. Primeiro: “legalizar o aborto é como legalizar o tráfico de drogas”. Segundo: legalizar o aborto é incentivar a indústria de clínicas para tal.

O primeiro argumento da Janaína cai fácil. Ela sabe que nossa sociedade é dinâmica e podemos tornar crime o que não era crime e tornar legal o que já foi crime. Nos Estados Unidos hoje o consumo de álcool é alto. É uma droga. Causa mortes. Mas ele só pode ser relativamente controlado porque é legal. Quando a sociedade experimentou a “lei seca”, piorou muito. Todos já viram os filmes do gangsterismo americano. A descriminalização do uso da maconha vai, agora, nessa ideia. Antes controlável que ilegal e não controlável. Isso sem contar os gastos que toda criminalização implica. A criminalização do aborto cria o gangsterismo, as mortes na clandestinidade, a prisão, a decomposição da família das mulheres pobres, a ida para a rua de seus filhos etc. É uma chaga nacional. É muita gente morrendo nisso. A energia e o dinheiro nisso tudo são perdas irreparáveis.

Aliás, Janaína parece não gostar de pesquisas com dados matemáticos. As sociedades que tornam o aborto legal, o número de abortos diminuiu. As mulheres procuram o médico, e aí sim há condições de atendê-las. Aí sim funciona o programa de adoção. Fora da gravidez já consumada, não existe programa algum que funcione. Nem mesmo em sociedades onde há alto índice de escolaridade.

O segundo argumento é também pífio. As clínicas de aborto existem hoje, são muitas. A criminalização não as atinge. Mas atingem a mulher. A mulher fica com medo da prisão e não procura médico e mais ninguém. Tem hemorragia. Morre ou fica com sequelas. E não faz aborto no primeiro filho, por ser “cabeça vazia”, faz quando já tem muitos, quando vê que está sozinha, quando sabe realmente o que ocorre com gravidez e com filho pequeno para criar. Nessa hora, Janaina não aparece. Pois ninguém na direita aparece. É como o caso da Venezuela: queriam que o regime de Maduro não desse certo, pois não deu, mas agora fecham as fronteiras para os refugiados. Aliás, os bolsonaristas querem culpar os venezuelanos e outros pelas doenças no Brasil! É assim a direita. Talvez a esquerda menos democrática seja assim também, em outros aspectos. Mas o fato é que a direita toma tal diretriz como ordem, como doutrina explícita. Isso piora tudo. Tomam o racismo, o xenofobismo, o machismo, a homofobia como regra! Não é uma questão individual, de opção de personalidade, isso tudo é a regra da direita – é a condição para ser de direita. Os liberais conservadores falam que não endossam tudo isso, mas na prática, veja aí a Janaína: quer que a mulher seja “acolhida” – acolhida pelo delegado! Pela polícia! Tem dó!

Conversei (e fiz TV) com o Hélio Bicudo sobre o assunto do aborto (o vídeo está na Internet). Ele era contra a descriminalização do aborto. Mas não como Janaína. Ele ponderava sobre os aspectos da descriminalização “pura e simples”. Ela via uma tal coisa como uma forma de não se olhar para o problema da mulher e da infância. Ele tomava a descriminalização “pura e simples” como o equivalente ao pedido de esterilização da mulher, que Bolsonaro e a direita defende como política pública. Mas ele tinha projetos alternativos de não prisão da mulher. Janaína não tem. Ela tem frases sobre a acolhida da mulher, sobre programa de adoção etc. Tudo isso é válido. Mas se a mulher está na cadeia, antes de tudo, se a criminalização é o tom da  conversa, tudo isso é secundário e acaba não funcionando. Pois o desespero da pobreza é algo que Janaína não entende. A mulher pobre, na miséria, é pega pelo desespero do desemprego. Ela vê a barriga crescer e sabe que não pode esperar nove meses para que o bebê seja adotado. Ela sabe que será abandonada e que perderá o emprego, ou então, na crise, não conseguirá emprego. Uma semana desempregada? Vem a fome, o desespero, a falta de tudo em casa, inclusive gás. Vem a idade da pedra: cozinhar uns restos em vasilha de Suvenil, com lenha! Milhares de famílias brasileiras são isso. Janaína quer acolher, pelas grades, essa gente. É o fim da picada.

Janaína precisa colocar as orelhas para funcionar e o cérebro para acompanhar antes seu cristianismo e menos o seu Mussolini. É uma moça inteligente, mas perdida dentro de uma ideologia que é incompatível com seu coração e com seu cristianismo. Precisaria tomar aulas de mundo com o Drauzio Varela.

Paulo Ghiraldelli Jr.

 

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6 Responses “Aborto para Janaína funciona como o Impeachment?”

  1. Carlos
    17/09/2018 at 11:01

    Muitas mulheres morrem no Brasil por terem feitos abortos mal feitos, em fundo de quintal, de qualquer jeito. É um drama social importante no Brasil. Sou a favor da descriminalização para que essas mulheres possam ter acesso a um hospital.

    • 17/09/2018 at 11:16

      Sim Carlos, é simples, mas a Janaína é cabecinha dura.

  2. Tony Bocão
    09/08/2018 at 13:59

    tem razão, lembrei de um texto aqui sobre isso…

  3. Tony Bocão
    09/08/2018 at 09:04

    Direita sempre rimou com incoerência. É como discutir aborto simplesmente como assassinato na mesma pauta do direito de andar armado ou culpar a vítima do estupro no mesmo momento que vamos castrar quimicamente o estuprador. Difícil realmente é entender como uma pessoa com um mínimo cognição se envolve com esse pessoal barra pesada.

    • 09/08/2018 at 12:30

      Incoerência não é pecado. É saudável. Pode gerar rebeldias interessantes. Pode gerar burrice também.

  4. LMC
    08/08/2018 at 14:06

    Como é que o Bolsonazi quer ser Presidente
    se o PSL não lançou-nem fez coligação pra
    governador em SP,RJ,RS e MG,por exemplo?kkkk

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