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15/07/2018

A objetificação da mulher é uma lei cósmica, ou de Deus. O caso na Rússia.


[Artigo para o público em geral]

A objetificação do homem pela mulher é algo de Deus ou uma lei cósmica. Sem isso, não há gozo. E a objetificação da mulher pelo homem? Mesma coisa. Não há sexo sem objetificação. Faz parte do ato sexual dos mamíferos, ao menos no clímax, fazer do parceiro sexual um objeto e ser tomado como objeto. Os casais humanos, nesses momentos do sexo, chegam a verbalizar isso. Ninguém diz, no clímax, “faça amor comigo agora”. Quem diz algo diz “Ai Jesus!” ou “Fuck me!” ou “Soca mais!” ou coisa parecida. Os gemidos da mulher e do homem são excitantes para eles mesmos exatamente porque trazem à tona esse aspecto do orgasmo, o momento em que ambos se perdem como sujeitos e se tornam objetos, mas ao mesmo tempo se tornam sujeitos, ao se sujeitarem.

É difícil explicar isso para pessoas que não conseguem ter orgasmos. É impossível tirar as feministas de sua militância errada quando elas não gozam. Pior ainda quando elas pensam que gozam.

As feministas inteligentes são, em geral, as que gozam. Elas sabem disso que falei. Mas, às vezes, até estas erram e caem na semântica de tropeço dos movimentos sociais, que acabam condenando a objetificação da mulher e chamando tudo de “machismo” ou de “vítima da sociedade patriarcal”. Isso é uma bobagem. Aliás, uma bobagem que prejudica a mulher e ajuda os que as importunam a ficarem impunes.

O que ocorreu com a moça russa e os torcedores brasileiros, no episódio do “bucetinha”, tem a ver com cafajestismo, não deveria cair na conta de “machismo” ou “império da sociedade patriarcal capitalista”. Esses jargões e clichés não dizem nada. Aliás, até protegem os agressores da moça. Fazem deles gente que é vítima da cultura. Eles foram induzidos pela cultura que vivem, sim, mas elas são fruto de algo mais específico, que é a educação para ser cafajeste. John Wayne e Clint Eastwood eram machistas notórios em seus personagens nos filmes (e na vida real), mas nunca desprotegeram ou humilharam mulheres. A reificação errada, a objetificação da mulher feita de modo condenável, é aquela feita fora do lugar apropriado. E o lugar apropriado quem determina são os parceiros em comum acordo, dentro dos pesos e medidas de suas sociedades.

Infelizmente, uma boa parte da imprensa, induzida pela semântica errada daqueles grupos feministas que não pensam e que não gozam, acabou confundindo tudo ao condenar a “objetificação da mulher”, como se isso fosse o problema. Caíram no mesmo erro de Kant. Este filósofo, pelo que consta, nunca fez sexo. E isso deve mesmo ser verdade. Pois ele condenou o sexo, pois no sexo, dizia ele, o homem instrumentaliza a mulher. “Fazer do outro humano um meio e não um fim” foi seu imperativo moral. O sexo, então, nunca poderia ser moral. Ele fez a ressalva do casamento, como se este fosse, então, uma contrato liberal em que a mulher poderia, para ter filhos, se deixar usar. Pelo bem da natureza e da procriação, a moral poderia fechar um dos olhos – por alguns minutos. Kant não entendeu que o próprio sexo é uso mútuo, recíproco, e que no momento do gozo nos transformamos em sujeitos e objetos ao mesmo tempo, induzidos pela necessidade de gana, ou seja, de “pegada”. O uso mútuo anula a ideia de “fazer do outro um meio”. Pois o uso mútuo implica em gozar gostoso à medida que se faz o outro gozar. Caso contrário, o gozo não ocorre ou, se ocorre, é algo que não atrai a repetição.

Kant condenou o sexo pela segunda vez na história da filosofia. A primeira, claro, foi com Agostinho, que o fez cair para o campo da punição do pecado original. A diferença é que Agostinho assim agiu porque sabia que o sexo era bom demais, e que certamente tinha tudo para virar um vício – algo a ser repetido sem nunca deixar o homem em paz. Ficar em paz é ficar com Deus, sem a ansiedade. Ficar com o sexo é ficar com um pseudo-Deus (o Diabo), uma felicidade momentânea que logo cobra mais e mais. Vício e não virtude.

O uso mútuo dos corpos, a parceria que faz sujeito e objeto se tonarem um só por um momento, e que a palavra “sujeição” explicita bem, é algo que não pode ser tirado dos humanos. O próprio funcionamento fisiológico do nosso organismo não daria seu melhor sem isso. O expelir do sêmen e o ato de recebê-lo de bom grado implicam em contrações musculares. Implicam em uso de energia psíquica e física para a produção do espasmo. O relaxamento pós-sexo é primordial para que as coisas ocorram de modo mais eficiente, inclusive para a inseminação e, portanto, para a preservação da espécie. Sem esse uso que implica objetificação não há sexo propriamente dito – há no máximo luta corporal ou dança macabra. Não havendo sexo, é de se duvidar que exista amor. Sabemos muito bem que os casais tornam a vida a dois uma desgraça quando o sexo vai mal. Só a falta de dinheiro é pior que isso. Mas o sexo, às vezes, chega até a compensar a falta de dinheiro. Ele é a base do amor de casal. E está baseado na objetificação da mulher (e do homem). A mulheres adoram serem chamadas de putas pelos seus parceiros (às vezes, inclusive, parceiros sem grande intimidade). As que não podem admitir isso, fantasiam com isso. Algo diz para elas, as que gozam, que sem a sujeição nunca serão felizes.

Nenhuma dessas mulheres que pensa assim, quer que essa objetificação seja transformada na cafajestagem feita pelos brasileiros com a russa, que se aproveitaram da ingenuidade dela e da barreira linguística para mostrarem que são “um policial, um advogado, um engenheiro e um vereador” – figuras arquetípicas de nossa sociedade bem propensas ao “voto no Bolsonaro”. Esses brasileiros devem ser punidos. Mas, enquanto forem chamados de “machistas” e enquanto feministas acadêmicas que estudam pouco e militam demais continuarem a usar a expressão “sociedade patriarcal” para tudo, essas pessoas sempre poderão rir um pouco da burrice alheia, que é parecida com a burrice deles mesmos. E sempre estarão sendo “vítimas de cultura do estupro”, que faz o homem crescer machista. Ora, ora, vi centenas de homens crescerem machistas nos anos 50 e 60, mas que jamais desrespeitaram uma mulher.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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10 Responses “A objetificação da mulher é uma lei cósmica, ou de Deus. O caso na Rússia.”

  1. José
    27/06/2018 at 09:55

    Eu também achei meio exagerado isso, apesar de que é de mal gosto esse tipo de jargão usado. Acho que mostra uma certa queda cultural. Mas já temos tantas letras de músicas muito mais “pesadas”, seja em que estilo de música for.

  2. LMC
    26/06/2018 at 11:59

    Machismo e racismo não existem.
    Pelo menos pra quem votou no
    Trump ou puxa o saco dele aqui no Brasil.

    • 26/06/2018 at 19:38

      Acho que você não sabe o que é machismo e racismo, apenas toma o que a impressa fala, sem critério.

  3. LMC
    26/06/2018 at 11:37

    Quem deu chilique foi o titio
    Joel Pinheiro da Fonseca na
    Folha de hoje,defendendo
    aqueles cafajestes.Joel é
    ou não é o gênio da raça?kkkkkk

  4. LMC
    25/06/2018 at 11:59

    “Cultura do estupro”?
    ESTUPRO NÃO É CULTURA!!!!

    • 25/06/2018 at 12:14

      Deu chilique? O que foi, não entendeu o texto?

  5. Eduardo Rocha
    23/06/2018 at 17:32

    Paulo, onde estão os pragmatistas hoje? Qual o trabalho mais interessante e recente sobre o Pragmatismo. O pragmatismo virou algo tipo uma doutrina de universidades americanas? Pesquisei rapidamente e vi que todas as referências do Pragmatismo estão no máximo do século XIX até 1960-70 (Brandom, Rorty, Dewey, Davidson, Rawls com sua obra prima publicada em 1971, Lasch mais presente no final de 70). Posso estar errado por não conhecer muito a cultura americana, mas se caras como Sloterdijk vem ganhando atenção nos últimos 10 15 anos, Latour mais recentemente, cadê os pragmatistas?

  6. Roberto
    23/06/2018 at 15:18

    Paulo. Mudando de assunto. Uma vez eu vi um vídeo seu dizendo que caso alguém ache ter percebido um erro em Marx, kant ou Platão, deveria fazer silêncio. Mas teve um youtuber que não fez isso. Veja:
    1. https://www.youtube.com/watch?v=aT52C9nsio4 (Por que a teoria da Mais-Valia é FURADA);
    2. https://www.youtube.com/watch?v=T0DtbxxsV8s (O Erro de Marx e a Caneca – Teoria de Valor e a base da filosofia marxista).
    O que acha?

    • 23/06/2018 at 15:29

      Roberto, mas você vai dar atenção para Youtuber?

  7. Eduardo
    20/06/2018 at 15:25

    “A reificação errada, a objetificação da mulher feita de modo condenável, é aquela feita fora do lugar apropriado. E o lugar apropriado quem determina são os parceiros em comum acordo, dentro dos pesos e medidas de suas sociedades.”

    Espero não ter feito o recorte errado no texto (pra mais ou pra menos) mas porque esse trecho não nega todo o resto que você escreveu, considerando a situação da russa assediada? A sujeição no contexto do sexo é mesmo um privilégio daqueles que gozam, mas onde cabe sujeição nessa história?

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