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15/07/2018

Como dar um tranco definitivo em fake news?


[Artigo para o público acadêmico]

Todo estudante de ensino fundamental, com alguma noção de história e filosofia, sabe do julgamento de Sócrates. Em Atenas do século IV a.C., Sócrates foi acusado de não acreditar nos deuses da cidade, de introduzir novas divindades e de corromper a juventude. Fez sua defesa diante de quinhentos jurados. Perdeu por trinta votos e foi condenado à morte. Um dos mais célebres textos da história da filosofia é o A defesa de Sócrates, em que Platão recria ao seu gosto e estilo o episódio de seu mestre diante dos jurados. Sócrates inicia sua preleção fazendo uma acusação contra as fake news.

Diz que tudo de ruim imputado a ele foi fruto de fake news, ou seja, mentiras contadas mais de uma vez que se tornaram públicas, que foram veiculadas também pelo teatro e não só pela boca de detratores. Essas mentiras tinham cara de fake news exatamente porque tinham o componente propício para serem espalhadas. Falavam dele, Sócrates, de modo jocoso, atribuindo-lhe idiossincrasias e o terrível poder de fazer “a razão mais fraca vencer a mais forte”. Fake news é isso: não uma mentira simples, mas uma mentira com o dom de poder se espalhar rapidamente, de modo a aderir às consciências e perfazer o imaginário popular.

Sócrates reclama que a mentira sobre ele foi tão assim, feita de técnicas que a levaram ao êxito, que ele mesmo, olhando para a imagem criada a seu respeito, acabou ficando com dúvida sobre seu verdadeiro rosto.

Sócrates não culpa a Internet. Não culpa a mídia. A chamada esfera de debate público de Atenas era diferente da nossa. Atenas é uma democracia, mas não uma democracia liberal. A democracia ainda não conhecia o capitalismo e o liberalismo, que são modernos. Mas Sócrates culpa algo que tem a ver com o poder de propagação: o teatro. Junto deste, a fofoca. Junto da fofoca, a capacidade de beirar o escândalo.

Se quisermos entender o mundo da pós-verdade ou da fake news atual, talvez não devêssemos confiar tanto na história a respeito da tecnologia e mais na história sobre os modos humanos de espanto. Mas é engano acreditar que não temos arma para separar a informação da fake news com a informação útil.

Uma frase é verdadeira, em filosofia, segundo os critérios de Alfred Tarski: “A neve é branca” se e somente se a neve é branca. O que está dentro das aspas é o enunciado que deve corresponder ao que está fora das aspas, como se o que estivesse fora das aspas pudesse ser não um enunciado, mas uma emanação do real. É um critério que o senso comum tem dificuldade de entender. Mas ele é bem objetivo enquanto critério: S é verdadeiro se e somente se p. Quando usamos essa convenção, percebemos que a verdade é sempre objetiva, e que são os critérios pelos quais podemos confiar em p ou não que variam. A verdade (de S) é logicamente objetiva, e o que cai para o plano da investigação, dos critérios que envolvem alguma subjetividade, são critérios epistemológicos, ou seja, critérios sobre o saber, sobre o conhecimento, sobre como que podemos ou não confiar em p. Como ficamos sabendo de p? Eis a questão.

Quando usamos desse mecanismo, então o problema de Sócrates, de apontar para fake news, fica menos complicado de resolver. Ou seja, deslocamos o problema da verdade para o problema das fontes. Saímos de S, a frase, e vamos para as fontes que nos informam a respeito do conhecimento, de como ficamos sabendo de p. Quem contou sobre p? Quem viu p? Quem registrou p? Com que máquinas ou apetrechos p foi registrado? Quais as testemunhas de p? Como confiar nas testemunhas de p? Se quem registrou p foi máquina, que tipo de máquina e como são suas falhas possíveis? Todas essas questões levam a investigação para um plano factível. A discussão da verdade ganha concretude. O relativismo, então, ganha ares filosóficos, e não vira o senso comum babaca que diz, sem pensar, que “tudo é relativo”.

É através dessa operação que a filosofia ensina, de ir para o lado extremo final da convenção “S é verdadeiro se e somente se p”, que o problema da verdade ganha o campo do que é investigável. Então, a fake news está pronta para ser desmontada. Desse modo, não é por nenhuma novidade que podemos desmontar essa esquizofrenia sobre “pós-verdade”. É pela capacidade de lidar com a filosofia no seu encaminhamento para as possibilidades que a ciência tem de lidar com p.

Claro que não estou dizendo que entre Sócrates e nós tudo é o mesmo. A Internet conta, pois ela põe a fake news no âmbito de decisões que são tomadas de imediato, e que depois nem sempre podem retroceder. Mas é bobagem achar que não nos adaptamos a isso. O tempo do relógio de Sócrates era acompanhado por Sócrates, o tempo de nosso relógio é acompanhado por nós. Aprendemos a viver com mecanismos do instantâneo. Nosso cérebro se adaptou a isso. E pode se adaptar mais. Saber que uma fake news pode matar Sócrates mais depressa do que ele foi morto em Atenas é de fato algo que assusta, mas estamos mais preparados a isso do que imaginamos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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