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20/06/2018

Salvando criança e matando Deleuze a pau – Coutinho e suas aventuras lusitanas


[Artigo preferencialmente indicado ao leitor acadêmico]

Eu temo que pegar frases de muros pichados como se fossem frases de filósofos não é uma boa prática. Menos ainda para escrever artigos para um bom jornal. O lusitano Coutinho pegou a frase de um muro, como ele mesmo disse, para escrever sobre o caso do malinês que salvou a criança de despencar de um prédio em Paris. A frase que ele usou foi “Ética é estar a altura do que nos acontece”. Na pichação que leu, em Lisboa, a frase é atribuída a Deleuze.

Bem, Deleuze não disse exatamente isso. E quando disse algo parecido, em Lógica do sentido, o fez não para exibir uma ética própria, e sim para comentar o que seria a postura estoica. Fez assim no sentido de comentar o que é o “acontecimento” como tendo o mesmo estatuto ontológico do que é o “incorpóreo” na filosofia estoica. Por isso mesmo, a frase, colocada com o nome de Deleuze nela, não serve para comentar o episódio de salvamento do menino francês, ao menos não do modo que Coutinho fez.

O que Coutinho faz na Folha (02/06/2018) é o elogio ao heroísmo, à masculinidade individualista a la Clint Eastwood. Isso tem a ver com uma perspectiva liberal do homem indivíduo ou do tipo self mad man ou, de modo mais fidedigno com o mentalidade de Coutinho, com o Homem Aranha ou o Capital Marvel ou outro super herói. O imigrante malinês foi um herói, tudo bem, mas pouco tem a ver com a frase apanhada por Coutinho que, certamente, não leu Deleuze.

O que Deleuze fala em Lógica do Sentido é que “ou a moral não tem sentido nenhum ou então é isto que ela quer dizer, ela não tem nada além disso a dizer: não ser indigno daquilo que nos acontece”. Deleuze não está falando para, diante de um acontecimento, alguém ser digno no sentido de ser herói. Não diz respeito ao ato de ver uma criança em perigo em saltar no lago em que se afoga ou entrar numa casa incendiada para salvá-la, e coisas do tipo. Deleuze está simplesmente dizendo que se alguém deita reclamações sobre sua vida, sobre o  que lhe ocorre cotidianamente, então está cedendo à figura nietzschiana do ressentimento, e que isso nada tem a ver com o princípio estoico de tomar o acontecimento como acontecimento, e não como infortúnio ou felicidade.

Desse modo, a moral a que Deleuze faz referência, é uma filosofia, algo a posteriori, de quem percebe que os acontecimentos são como que situações já postas, nas quais entramos. Há uma ferida pronta e, um dia, nós colocamos o nosso corpo para que a ferida seja visível, ou seja, ocorra. Então, há algo aí de amor fati, um pouco no sentido de Nietzsche, em plena possibilidade de ser o próprio sentido daquilo que se chama acontecimento. Eis aí o estoicismo explicado por Deleuze.

Caso se deseje falar segundo a ótica de Deleuze a respeito do rapaz que salvou a criança, então a história seria outra. Seria a história de quem está em um país como imigrante e que não está se lamentando ou se amaldiçoando, e por isso mesmo pode estar apto a acontecer nos acontecimentos. Eis que ocorreu um acontecimento a mais: ele viu uma criança e, como tem força para escalar prédio, foi lá salvar a criança, a despeito dos complicadores que poderia ter com a polícia, dado sua ilegalidade no país. Esse fato, o do salvamento em si, como fez Coutinho, pode ser avaliado por uma moral kantiana ou utilitarista, mas pouco tem a ver com dito atribuído a Deleuze que, enfim, nem é bem do modo que está posto por aí. A teorização de Deleuze sobre o estoicismo iria por outro caminho, como disse, iria pela abertura do imigrante aos acontecimentos – um homem num país estranho fazendo parte de acontecimentos que ele não julga moralmente, e nesse sentido pode vivê-los.

Pela ética estoica assinalada por Deleuze, o imigrante poderia ter visto a criança e, não tendo condições de subir no prédio, apenas gritaria para outros, ou telefonaria para o bombeiro ou, no desespero, tentaria agarrar a criança em baixo ou, ainda, não faria nada, ficando petrificado pela emoção. Em todos esse casos caberia uma dignidade moral, mas ela se romperia se o imigrante, após a queda da criança, ficasse se culpando por aquilo ter acontecido justo com ele, justo na hora que ele passou ali, ou pior, ficasse culpando o pai da criança (que estava na rua jogando Pokemon) ou então se revoltasse contra os vizinhos que estavam lá na janela e não tiveram a coragem de subir no parapeito. Seria o não amor fati. Seria ficar indigno diante do que é um acontecimento.

Olha, por falar em ética, acho que alguns colunistas da Folha de S. Paulo deveriam ser éticos com o jornal e com o leitor, e começar a pensar melhor no que escrevem às pressas, muitos fazem isso só para cumprir tabela – nada têm a dizer.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 02/06/2018

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3 Responses “Salvando criança e matando Deleuze a pau – Coutinho e suas aventuras lusitanas”

  1. Eduardo Rocha
    05/06/2018 at 01:26

    O que é para Santo Agostinho o tempo?

  2. Fábio
    03/06/2018 at 12:01

    Esclarecedor. Fico muito agradecido.

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