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19/08/2017

A volta da luta por filosofia e sociologia no ensino médio


O relator da Reforma do Ensino Médio, senador Pedro Chaves (PSC), fez exatamente aquilo que o ministro de FHC, Paulo Renato, sempre quis, e que o governo Dilma endossou: o fim da Filosofia e da Sociologia na grade curricular dos jovens. Aprendeu bem a lição, e apareceu do passado com o discurso típico: “não defendo o fim da filosofia e sociologia, mas sim a transformação delas, junto as artes, em temas transversais”. E completa: “esses assuntos podem muito bem caber nas aulas de história”. Pois é: “temas transversais”, lembram? Novamente transversalizaram o saber filosófico e sociológico.

Na prática, o que o governo está fazendo é voltar ao tempo da Ditadura Militar, mas de modo piorado. Entre 1971 e 1985, Filosofia, Sociologia e outras NÃO deixaram de existir, mas ficaram restritas aos alunos que tinham que se mobilizar para criar uma “classe de ciências humanas”. Eu fiz isso no meu colégio. Mas era difícil os alunos se mobilizarem para tal. A maioria seguia aquilo que era oferecido. Agora, a situação é pior: pois mesmo que o aluno entre para uma escola que tenha todas as áreas previstas (Linguagens, Matemática, Ciências Humanas, Ciências da Natureza ou Ensino Profissional Técnico), ainda assim não encontrará as disciplinas Filosofia e Sociologia e Artes. Ao menos será assim se vingar o parecer do relator senador Pedro Chaves.

É triste ter que de novo reeducar um senador, perdido na argumentação dos Gianottis e pupilos da vida, os que dizem por aí que filosofia é complicada demais para ser vista no Ensino Médio e o que vale é ter um bom curso de História, Português etc. É duro ter de reeducar, também, os que estão com a cabeça no “Escola Sem Partido”, que acham que Filosofia e Sociologia são disciplinas ideológicas, “fábrica de esquerdistas”, e que Artes é fábrica de “vagabundos e homossexuais”. Claro que pessoas como o senador Pedro Chaves não dizem isso, mas, na prática, favorecem esse tipo de coisa.

Os que querem a volta da transversalidade não percebem que vendemos livro no Brasil se há as disciplinas na escola que favorecem o ensino humanista, pois em nosso país o mercado livreiro em geral funciona como adendo do que os estudantes fazem. Menos matéria nas escolas é menos livro e é menos capitalismo, ou seja, menos indústria livreira e, enfim, menos todo um setor da cultura, já integrado ao mercado, que deixar de existir. Sim, falo sério: deixa de existir. A escola como indicadora de compra de coisas é muito forte. Não percebem, também, que não há tempo para se ler A República, de Platão, na disciplina de História, e que sem uma tal leitura não se fez nada no Ensino Médio, nada mesmo. Há livros de filosofia que são para serem lidos, ao menos em uma primeira vez (talvez a única), antes dos 18 anos. Para ler Machado de Assis é necessário sim base de filosofia. Caso contrário, se lê mal. Mas em um país em que Fernando Pessoa já não consta mais do currículo, por que ler Machado, né? Então, por que ler Schopenhauer, base para Machado? A estupidez já vinha caminhando, ganhou corpo agora, na forma pela qual o espírito de FHC e de Dilma vieram nos perturbar.

Vai ser uma luta as audiências públicas sobre o assunto. E mais uma vez teremos que unir forças para explicar para o governo que ele está fazendo um mal negócio. Mas tudo indica que este governo, nesse aspecto, é a continuidade de outros, e que tem uma visão do ensino que visa a economia, ou seja, a retirada de professores. Era o slogan de Dilma na campanha: tornar a escola mais atrativa diminuindo a grade curricular. Ela podia falar, pois os petistas não chiavam. Na prática: tornar a escola mais atrativa para o aluno estúpido, o que não quer estudar. Uma bela união de forças da mentalidade do PSDB com o PT, agora realizada na prática, em meio à fraqueza de todos na crise econômica.

Vamos impedir isso? Conseguimos unir forças para tal? Ou vamos nos perder no “Fora Temer”?

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo

Foto: a beleza viva do PSC, senador Fernando Chaves.

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27 Responses “A volta da luta por filosofia e sociologia no ensino médio”

  1. Lívia Moiteiro Caetano
    25/06/2017 at 18:41

    Fiz o bacharelado em Ciências Sociais na USP e notava a defasagem do curso em textos de Filosofia. Tentei ao máximo sanar essa defasagem cursando disciplinas no departamento de Filosofia. Pois é, lemos Marx sem saber o que é dialética, e por aí vai. E isso na USP. Depois fiz um curso de licenciatura em Filosofia R2 pra dar aula, mas continuava estudando por conta. Agora vejo professores de outras disciplinas ministrando Filosofia, e reclamam que os professores de Filosofia tem má formação?? Estou fazendo outro curso R2, agora de História, e a professora que fiz o estágio comentou numa aula: “essa é a fulana, está fazendo estágio, ela já é professora de Filosofia, uma ótima professora, só não é melhor que eu”. Isso porque ela como professora efetiva de História completou a carga com Filosofia. O Estado não quer ter mais despesas com concursos, então dilui a disciplina de Filosofia em História. Complicado.

    • 25/06/2017 at 20:51

      Lívia, tá na hora de você pegar os professores certos e lugar certo. Venha fazer o pós aos sábados na Faculdade Paulo VI em Mogi. Garanto que vai gostar. Faça inscrição, olhe o telefone: 11 4790 5660

  2. Lívia Moiteiro Caetano
    25/06/2017 at 18:00

    Escolhi fazer Ciências Sociais por ter lido “O mundo de Sofia” no ensino médio, sem ter estudado Filosofia no ensino médio. Depois fiz uma licenciatura em Filosofia e fui dar aula. Agora vejo o governo retirando essa disciplina, e tornando-a praticamente obsoleta. Uma vergonha. Ao invés de colocá-la nos anos finais do ensino fundamental…

    • 25/06/2017 at 18:35

      Lívia, não tirou. Na verdade, os colégios que quiserem manter, poderão manter.

  3. 08/03/2017 at 21:37

    Legal.

  4. Alexandre
    27/12/2016 at 00:09

    Engraçado, porquê o ensino de filosofia e sociologia têm que serem obrigatórios, mas o de eletrônica não? Porque essas disciplinas inúteis(sim, INÚTEIS mesmo se são forçadas!) têm que ser enfiadas guela a baixo dos alunos, enquanto a fantástica ciência por trás de todo o PROGRESSO não?? Pq não respeitar as VOCAÇÕES e permitir que cada um siga as suas próprias aspirações? Ora, a coisa mais estúpida e ineficiente é querer obrigar alguém a seguir(estudar) algo que não tem interesse. Quer ser um burocrata ou esquerdopata que não produz porra nemhuma?! Ótimo, pode escolher ter essas disciplinas aí, mas não queira obrigar todos a perder tempo com isso! Eu sempre me interessei por ciência, pela “mágica” que move as máquinas, e sair do ensino médio sem qualquer contato com a eletrônica(meu interesse INATO), sem nem saber o que são portas lógicas e nem ter idéia do que são algoritmos e de como os fantásticos computadores funcionam. Isso sim é um absurdo, as coisas que mais me interessavam e que justamente são as QUE GERAM O PROGRESSO, jamais me foram apresentadas no currículo do ensino médio. Enquanto isso, eu tive que aprender aquela babaquice tupuniquim de intriguinhas da “semana da arte moderna de 22”, novelinha que fulaninho não gostava da escrita moderninha de cicraninho, que “barroco” era isso, que modernismo era aquilo, que fulaninho escreveu isso e blá blá blá… ora, vai pra porra seus burocratas!!! Não queríamos saber de novelinha não, queríamos era contato com a CIÊNCIA, e disso fomos privados!! “Dê a César o que é de César!!”

    • 27/12/2016 at 00:29

      Alexandre, no seu caso o obrigatório é a alfabetização.

    • Alexandre
      27/12/2016 at 01:09

      Eu sei que fui chulo, mas não “analfabeto” no post. Escrevi de um smartphone, sem ter campo de visão ao conteúdo prévio do meu post. Sei que no começo conjuguei um verbo erroneamente no plural quando ele era singular: “serEM obrigatórios” , se não me engano. Isso não o faz o post ser “analfabeto”. Se tem uma coisa que eu sei, é escrever certo. Tanto que em praticamente todos os.textos de internet que leio me irrita o uso frequentemente errado de vírgulas. Noto um padrão claro de analfabetos funcionais que acham que enfiando(chulo denovo) vírgula em todo lugar estão escrevendo certo.
      Vc até poderia me classificar como grosso ou até estúpido, mas “analfabeto” , convenhamos, não.

    • 27/12/2016 at 01:32

      Bem, com esse pré-conceito todo em relação à cultura e às humanidades, não tenho nada a lhe dizer.

    • Alexandre
      27/12/2016 at 02:05

      Eu sou contra a obrigação. Defendo a livre vocação.
      Vc é um filósofo, deveria evitar cair no uso de jargões de termos genéricos e imprecisos. Eu não estou sendo exatamente “preconceituoso” e sim discriminador mesmo. (A priori esse termo não deve ser subentido como uma contravenção, como exemplo uma máquina que reconheça garrafas defeituosas de um lote está discriminando esses defeituosos, e isso não é “errado”). Não estou pré-concebendo que humanas são potencialmente inúteis, estou afirmando isso embasado por fatos consagrados. Mas, veja bem, esse potencial de inutilidade se verifica apenas pelo sua potenciabilidade de ser obrigatória, de ser enfiada guela abaixo dos que não estão aptos a apreciá-las, como no caso de instituição num currículo comum obrigatório.
      Posso deduzir, por mera questão estatística, que vc não tem interesse e nem conhecimento em CIÊNCIA(sempre escrevo essa palavra em maiúscula pq pra mim ela é sagrada e deturpo a gramática nisso). Pq vc não precisou ser obrigado a estudar por exemplo a eletrônica, mas eu fui obrigado a estudar a filosofia? Se todo o progresso da humanidade está embasado na eletrônica, pq ela não é obrigatória, mas a filosofia è?

    • 27/12/2016 at 02:14

      Alexandre você não tem noção do que fala e nem sabe, em filosofia, o que é “termo impreciso”. Vai dormir a amanhã você faz matrícula na escola fundamental.Depois que se alfabetizar, tiver sociologia e filosofia, história, literatura, matemática correta aí você faz o cursinho de eletrônica que tanto quer.

  5. Marcos Lima dos Santos
    20/11/2016 at 10:27

    Certa ocasião assistindo a TV SENADO me detive em um pronunciamento do senador Cristóvão Buarque no qual ele defendia o ponto de vista que a educação em nosso país deveria estar voltada essencialmente para a área tecnológica e que os recursos governamentais fossem canalizados prioritariamente para esta área. O Brasil precisa de tecnólogos são estes profissionais que em seus laboratórios produzem o progresso e desenvolvimento da nação – defendia o senador. Se esta defesa tiver respaldo nos fatos, pergunta-se: para que diabos precisamos de filosofia? Voltaire afirmava que preferia 1 engenheiro a 10 filósofos, de fato, para que serve a filosofia? Se esta não se presta, sequer, “para pregar um prego numa barra de sabão”. Ora vivemos em uma sociedade cada vez nais tecnológica na qual homens e máquinas se confundem, para que, então, pensar a Antiguidade Clássica, o Medievo, ou mesmo o Moderno, quando vivemos o contemporâneo e que dele dependemos exclusivamente para a nossa sobrevivência?

    Convém ressaltar professor Paulo Ghiraldelli que tenho pelo senhor grande admiração.

    • 20/11/2016 at 10:31

      Os filósofos dizem que não são necessários. É comum isso. Mas o pai da filosofia nunca disse isso, Sócrates. Ele disse claramente que Atenas precisava dele como mosca, como uma forma de “consciência de Atenas”. Dewey fez isso pelos Estados Unidos, seguido de Rorty. Sartre assim fez pela França. Habermas agiu assim pela Alemanha, o que hoje é serviço de Sloterdijk.

    • Alexandre
      27/12/2016 at 00:49

      Eu sempre tive um pé atrás com o Cristóvão, pq nos discursos dele sempre o vi priorizando a educação básica em detrimento da educação superior, visão essa que é o contrário da minha. Mas com esse seu relato(se confirmado), passo a vê-lo com MUITO melhor olhos, pois é essencial separar o joio(humanas) do trigo(CIÊNCIA) quando se referem ao termo genérico “educação”. É PRECISO PRIORIZAR OS INVESTIMENTOS PARA AS ÁREAS CIENTÍFICAS. A cada 1 milhão pra CIÊNCIA, 1 centavo pra humanas. Se o Cristóvão está lúcido para isso, ele passa a ser a única figura parcialmente de esquerda que eu possa futuramente votar.
      Quanto ao Voltaire, eu não sabia que ele tinha dito isso, se o disse mostra mais ainda o quão sábio foi, ainda mais porque no seu tempo a engenharia ainda era muito incipiente, só existiria a forma civil ou mecânica ainda muito rudimentar, e ele já enxergava e divulgava a realidade que os burocratas e aversos ao progresso tentam negar.

  6. Erik Kierski
    27/10/2016 at 12:44

    Ótimo texto, Paulo! Confesso que, inicialmente, até achei interessante a proposta do BNCC, quando li o documento prévio e vi as disciplinas divididas em componentes curriculares obrigatórios; porém, não tinha pensado nesse ponto da diluição em “temas transversais” e não tinha ideia dessas questões históricas. É bastante preocupante pensar que Filosofia e Sociologia poderiam se perder no ensino, com o risco de serem banalizadas e permitindo que profissionais de outras áreas possam ensiná-las!

    Você viu que a MP saiu da câmara com 586 emendas? São interessantes as do deputado André Figueiredo, que pede pela obrigatoriedade de Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes, tanto no ensino médio quanto no fundamental; e ainda por uma língua estrangeira obrigatória no ensino fundamental. Há tantas controvérsias que, ao final, o texto estará bem diferente do inicial. Esperamos que nesse devir-político-educacional, torne-se mais convidativo por oferecer mais, e não por enxugar disciplinas.

    Abraço!

    • 27/10/2016 at 12:50

      Erik é por isso que a audiência pública é fundamental.

    • Maria santos
      27/10/2016 at 18:02

      COMO LUTAR PARA A FILOSOFIA NÃO SER RETIRADA DO CURRICULO

    • Lívia Moiteiro Caetano
      25/06/2017 at 17:54

      Na prática muitos professores efetivos de outras disciplinas completam carga horária com filosofia e sociologia. Mas essas questões não são discutidas nas redes de ensino, é prática comum.

  7. Henrique Farias
    25/10/2016 at 18:52

    Sem contar na “covardia’ e falta de planejamento que colocará muitos profissionais numa frustração profissional. Muitos, como eu, poderiam ter escolhido outras áreas de licenciatura. Mas como havia uma demanda de professores de Filosofia veiculadas nos jornais juntamente com a abertura de cursos voltados ao ensino básico nas academias, estes escolheram a Filosofia como formação. E agora? $ anos jogados no lixo?

    • 25/10/2016 at 19:17

      Henrique olha, não foi uma boa observação. Filosofia não é algo que a gente faz para pegar profissão meu caro.

    • Henrique Farias
      25/10/2016 at 19:18

      Qual a sua profissão ? No mínimo a principal? Vende r tapioca? kkkkk
      Que hipocrisia.

    • 25/10/2016 at 19:29

      Henrique já vi a razão pela qual você reclamou, não fez filosofia, foi na escola mas não entendeu nada. Uma coisa é gritar pela política educacional melhor, outra coisa é achar que o curso de filosofia não valeu porque não lhe deu profissão. Tem dó cara. Putz!

  8. Filósofo Pablo Maranello
    23/10/2016 at 00:17

    Paulo Ghiraldelli,
    Não estou conseguindo dormir, estou pensando em você…
    Tudo que mais quero é um beijo seu… Tô carente…

  9. Daniel
    22/10/2016 at 21:24

    Sou daqui de Mato Grosso do Sul. Pedro Chaves nós conhecemos muito bem. Ele é suplente de Delcídio do Amaral. Assumiu porque Delcídio foi cassado. Pedro Chavez é Magnata da educação aqui em Campo Grande capital. Se tornou milionário quando vendeu universidade para o grupo Anhanguera. Usa o dinheiro da educação privada para patrocinar candidatura de caciques daqui. Não dá para esperar muita coisa de Pedro Chavez, por aqui sabemos disso, principalmente na área da educação. Em relação ao texto, está parecendo que essa mentalidade de Pedro Chavez e companhia acaba por transparecer uma vontade de adaptar de qualquer forma as ciências humanas e a filosofia ao mercado, no sentido de que parecem “filões”, ou melhor, restos que ainda não entraram nas leis comerciais, como se ainda fossem um mal negócio. Um dos problemas pode ser nem tanto a importância da Filosofia, mas a forma que ela é vista hoje. Isso também é causado por filósofos como Ponde que ajudam a filosofia perder espaço no discurso. Parece que a formação em Filosofia está prejudicando a importância desta.

    • 22/10/2016 at 21:48

      Daniel o governo está indo contra o capitalismo, nesse caso. Um país capitalista desenvolvido é um país de leitores. Filosofia ajuda isso.

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