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24/11/2017

“Universidade não é para pobre”


Universidade é para quem gosta de estudar e tem aptidão intelectual para tal. Não é para pobres ou ricos.

Quando as questões sociais e o dó do pobre tomam conta, todo mundo perde. Todas as instituições públicas criadas para não serem públicas, mas como elementos de segregação positiva ou negativa, são perversas e acabam por realizar o contrário do que intencionam. Quando decidiu-se no Brasil que o ensino médio deveria ser popular e que o pobre deveria estar na escola pública, necessariamente, e que então a escola pública tinha de ser preferencialmente do pobre, foi o começo do fim da escola pública. Por quê?

Simples: a classe média mais abastada saiu da escola pública e, então, toda a sociedade deixou de se interessar por tal escola. A classe média tem poder de dinheiro associado ao poder de falar mais e cobrar mais verbalmente, e quando ela para de reclamar de alguma coisa, aquilo que ela deixa de lado passa a não ter mais a atenção de ninguém. Uma escola só de pobres se transforma rapidamente em alguma coisa pobre – financeiramente e, depois, em termos de propaganda de si mesmo. O próprio estado passa a sofrer menos pressão por atendê-la, e logo os pobres da escola tornada escola de pobre terão só um ensino pobre com professores pobres – em todos os sentidos.

A universidade pública precisa saber mesclar a classe média endinheirada junto da classe média baixa e dos mais pobres em seu meio. Caso contrário, se manterá de um modo fraco, incapaz de ajudar os pobres que nela ficarem. Essa é a lei de uma sociedade classista e democrática. O país de economia de mercado capitalista que não aprende isso, não aprende nada, e cava o seu fim.

Os Estados Unidos aprenderam isso: universidade pública tem de ter uma parcela grande de gente de classe média, inclusive gente que, antes mesmo de entrar no mercado de trabalho, já ganhou do pai um carro. Essas pessoas é que garantem que a sociedade olhe para a universidade e cuide dela. Uma universidade de gente pobre perde a influência no Congresso, no governo, fica desinteressante e se torna um estorvo social. Os políticos, mesmo os que se dizem defensores de “trabalhadores e oprimidos”, vão sempre atender necessidades ditas básicas, e não vão incluir entre elas ensino universitário de alto nível. Vão antes participar de populismo, falar em diploma fácil e ensino condescendente ou apenas ensino básico. E isso põe a universidade pública, uma vez tornada lugar de pobre, um lugar que não servirá ao pobre senão para enganá-lo. Para uma universidade só com pobre sacramente o “pacto de mediocridade” entre professor e aluno não custa muito. A ideia de aluno que precisa de “empurrão” porque não tem tempo para estudar é o mote que logo consome a universidade e a transforma num lixo que não ajuda mais o próprio pobre.

Ás vezes é difícil explicar isso para um militante político que diz defender os pobres. Pois o militante político, não raro, gosta do pobre que quer ficar mais pobre.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. Aracaju, 21/10/2016

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11 Responses ““Universidade não é para pobre””

  1. denis
    29/11/2016 at 21:36

    O POBRE É O FAMOSO MARIA VAI COM AS OUTRAS, RSRS, SE A CLASSE A MÉDIA FALA QUE PATÊ DE FIGADO É BOM PRA PELE ELE VAI E ACREDITA, RSRSRS

  2. Orivaldo
    24/10/2016 at 17:56

    Pensando assim, não faz mais sentido um tipo só de escola, onde a escola seja feita pra se estudar, independente de quem seja, bastando para isso querer estudar? Havendo sempre dois tipos (pública e privada) o rico vai sempre pra uma e o pobre pra outra. E não é só uma questão de “ter dó” e nem de “não ter dó” e sim uma questão de por dinheiro em algo que apresente resultados. Se por um lado podemos dizer que o ensino público no Brasil é um fracasso e isso significa que boa parte do dinheiro investido nisso ta sendo jogado fora, portanto seria então mais inteligente só oferecer escola para os ricos… mas se queremos uma sociedade mais igualitária, no sentido de oportunidades, precisamos pensar numa escola para todos. Para todos, onde ser pobre ou ser rico fique em segundo plano e prevaleça a diferença entre quem quer mesmo estudar e quem não está nem ai… É possível um Brasil só de escolas públicas, com professores bens pagos onde o filho do desembargador sente do lado do filho do camelô da esquina?

    • 24/10/2016 at 18:23

      Eu vivi num Brasil com a escola pública tendo várias classes sociais, embora sem o negro. A universidade pública é isso hoje. Não pode se desvirtuar.

  3. Luís Fernando Lopes
    24/10/2016 at 17:16

    Universidade pressupõe que seja um lugar para todos, todos os saberes, todas as classes… Do contrário não é Universidade. Mas o que percebo é uma disputa. Quem é que “manda”, ou seja, diz quem poderá ou não frequentar a Universidade…

    • 24/10/2016 at 18:24

      Basta que todas as classes estejam nela, e ela dá frutos.

  4. Andre Rolemberg
    22/10/2016 at 14:17

    Concordo com parte dos argumentos uma Universidade publica forte depende de como ela e formada, professores abertos a aprender, alunos dispostos a estudar e incentivo a criação…. etc…..so que entramos no problema cronico do Brasil….corrupção…..Como fazer uma universidade forte se o sistema e que feito para o pobre não ter condições de estudar e a sociedade ser alienada?…..meio complicado…..ate entendo a questão da comparação com EUA um pais desenvolvido…..mas o modelo americano, em alguns pontos, funciona muito bem la…..aqui e necessário criar um modelo especifico que entenda que somos um pais em desenvolvimento e que esta muito longe de um amadurecimento na sociedade e ate em suas leis…espero que um dia podemos chegar ao ponto de união de nao falar sobre pobre ou rico em uma universidade…..porem esta muito longe….uma reforma real em nossa sociedade e necessário….para mudança que nao interessa para alguns…..

    • 22/10/2016 at 14:29

      Andre não pensei no modelo americano como um todo, foi só um exemplo de como numa sociedade classista, todas as classes sociais precisam poder estar no lugar público. Devem estar.

  5. Alisson Guimarães
    21/10/2016 at 16:10

    Você falou que “Quando as questões sociais e o dó do pobre tomam conta, todo mundo perde”. Eu entendo em parte seus argumentos, é correto pensar que a universidade deva ser um local de estudos e que a questão do acadêmico que trabalha, não deva ser motivo para empurrões, porém, não acredito que devamos deixar de lado a ideia de ascensão social através dos estudos, por mais que você fale “A universidade pública precisa saber mesclar a classe média endinheirada junto da classe média baixa e dos mais pobres em seu meio”, não sei se tal condição é correta, é verdade que vivemos numa sociedade democrática e classista, porém, não vejo motivo para abdicar da busca por uma sociedade mais justa, falando que se abandonarmos as universidades aos pobres estas cairiam, talvez, o problema seja necessariamente o fato de não haver políticas públicas que favoreçam os pobres, mas sim políticas que favorecem apenas quem já tem condições de arcar com os estudos.

    • 22/10/2016 at 07:54

      Alisson acho que você tem dó do pobre, e isso faz você não raciocinar e não ler nossa história. Ou ler de modo enviesado. Dizer que não temos um estado de bem estar social elaborado (funciona mal, eu sei) no Brasil é errado. O problema é que se fizermos um lugar para pobre, ele perde força no governo que é regido em boa parte pelos ricos. Isso é fácil de entender.

  6. Filósofo Pablo Maranello
    21/10/2016 at 15:34

    Paulo Ghiraldelli,
    Sou viciado em picolé de carne…
    Significa ou não significa?

    • 22/10/2016 at 07:55

      Depende, se é carne de soja ou carne carne mesmo.

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