Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

28/06/2017

Uma medida viável em educação


De futebol alguns entendem; uma boa parte das mulheres ainda diz não entender. Agora, pedagogia não. Cabelereiros, físicos, psicopatas e até empresários sabem dizer como educar. No entanto, com tanta gente sabendo tudo, o Brasil já completou mais de vinte anos indo mal em todo tipo de exame internacional de avaliação de nossos alunos. Sempre estamos na lanterna.

Sou filósofo e não entendo muito de pedagogia. Escrevi muito e pesquisei muito sobre o tema. Percebi então que não poderia competir com o resto do pessoal que fala sobre o tema. São gênios. A genialidade chegou às ruas e aos jornais. Querem o Impeachment não de Dilma, mas de Paulo Freire! Há até colega aqui dizendo que se não fosse o marxismo e Paulo Freire teríamos já um povo educado! Não posso competir com essa gente!

Por isso tudo prefiro esquecer a pedagogia. Concentro-me na educação. Talvez seja melhor deixar a sala de aula para os próprios professores, e, uma vez fora dela, tentar apenas viabilizar um modo desses professores continuarem na sala de aula. Isso já é muito em um país em que um governo estadual compra bombas de gás de 800 reais para jogar no rosto de uma professora que não tira 800 reais livre no mês.

Uma questão que faz nosso país decair em educação é a evasão dos professores. As pessoas não querem mais vir para o magistério. E pior, as que se tornam professores, prestam concurso público e logo após assumirem uma escola, abandonam o emprego. Então, o estado acaba recorrendo a outros e outros e, ao final de um ano, todos os professores na ativa são os que foram reprovados no concurso. Assim, o ensino é pior do que aquele esperado, e os conservadores vão para a imprensa gritar: “fazem greve e não sabem nada”, “querem ganhar mais, mas não sabem ensinar” etc. Há de se quebrar isso. E uma medida pode sim ser tomada pelo governo federal, ainda que o nosso ensino básico seja, infelizmente, estadual e municipal desde o início da República.

O governo federal pode entrar, via MEC, com bolsas e regime de sabáticas para estudo para os concursados, de modo a tentar segurá-los na escola, não deixá-los abandonar a profissão. Isso é um passo importante para que os professores melhores fiquem na ativa. Poder crescer na profissão é bom incentivo para os jovens professores. Qual pedagogia eles usarão é uma questão deles e da universidade que os formou, não nossa. Eles saberão fazer o melhor, caso sejam os que passaram com as melhores notas, sendo os que foram melhores formados pela nossa universidade. Nossa universidade tem problemas, mas não está tão deteriorada a ponto de não fornecer, nos concursos, entre os primeiros, gente capacitada.

Um passo assim, aparentemente pequeno, mas que envolve recursos e coragem (que não estão desaparecidos não) precisa ser dado. O ministro da Educação atual, Janine Ribeiro, tem tudo para apanhar essa ideia e tem condições morais e intelectuais de brigar por ela.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Professor da UFRRJ, autor entre outros de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

Tags: , , , , , ,

4 Responses “Uma medida viável em educação”

  1. Isaias Bispo
    02/05/2015 at 22:03

    Ótimo texto, Paulo! Um aviso: quando um visitante entra na ”home” ou na ”posts” do blog, só consegue visualizar os textos que foram postados a partir do dia 26/04.

    • ghiraldelli
      03/05/2015 at 09:29

      Isaias, obrigado. Os textos estão arquivados todos no Blog, e podem ser vistos todos pelo Feedburn, que é quem faz o anúncio desta lista que você viu. Vou deixar isso mais claro. Obrigado.

  2. Richard
    02/05/2015 at 19:44

    Caro Paulo Ghiraldelli,

    Dada as atuais condições da rede pública de ensino, mais especificamente, da rede paulista, tenho minhas dúvidas se a sabática surtiria efeito. Veja, a rede estadual oferece bolsa mestrado e doutorado aos professores, com a condição que permaneçam após o término do curso ao menos o mesmo tempo de duração do mestrado/doutorado. Já colocam essa condição porque sabem que concluindo o mestrado/doutorado o professor quer pular fora, ir para o ensino superior. O aumento salarial para quem conclui a pós é pífio e, além disso, há uma série de imposições. Apenas para citar um exemplo: conclui recentemente um mestrado em Filosofia – que não foi aceito para fins de evolução funcional – porque sou professor de Educação Física, dá para acreditar?

    • ghiraldelli
      03/05/2015 at 09:28

      Richard se você ler e pensar direito sobre minha proposta, verá que funciona. Há milhões de modos de segurar o professor recém concursado no emprego. Estou falando de um, que pode ter mecanismos vantajosos, e que pode ser utilizado pelo MEC. O que você cita aí não tem a ver com o que falo. Basta pensar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *