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20/11/2017

A surdez diante da redação do ENEM


Este texto é indicado para o público em geral

Todos esperavam algum tema relativo à diversidade. Acertaram: educação do surdo. Mas ao se depararem com o papel em branco, alunos, professores e críticos começaram a gemer. Qual a razão: interpretaram o tema como assunto técnico. Aliás, achavam que só o gay, o negro e a mulher poderiam ser minorias. Não souberam ampliar a noção de surdez como um campo que explode a distinção metafórico/literal e literatura/sociologia. Que coisa! Ficaram meio surdos diante do convite do ENEM.

Quem é o “surdo”? Um “deficiente auditivo”? Ou um não-deficiente e, sim, um “portador de necessidades especiais”? Cachorros captam sons que nós não captamos. Então, somos surdos para o cachorro que, afinal, só por polidez não nos diz isso cara-a-cara. Se pudermos pensar assim, o “surdo” não é nem portador de necessidades especiais e nem deficiente, é apenas alguém que se enquadra na definição de mais um conjunto que pode ser uma minoria sociológica. E toda minoria sociológica (o que é bem diferente de minoria numérica) é definida por termos positivos e negativos. Em geral, se os termos negativos se propagam com força maior, então a minoria ganha socialmente o que chamamos de “consequências do pré-conceito”. Pré-conceito logo vira preconceito. Muitas minorias trabalham a noção de sentimento de orgulho para reverterem suas bordas conceituais, caso contrário os seus membros começam a se definir antes pelo pré-conceito que pelo conceito, com consequências morais, intelectuais e emocionais danosas para o grupo e para o indivíduo.

Essa questão do cuidado com minorias está avançando a passos largos no Brasil. Temos de admitir.

O Brasil é oficialmente bilíngue. Falamos oficialmente o português e a linguagem de sinais. Então, oficialmente, surdo não é um caso de enquadramento patológico, mas é sim um caso de minoria sociológica. A Nova Zelândia tem universidades com aulas em inglês e maori. O Brasil tem TV em linguagem falada e escrita e em linguagem de sinais. Nós não conseguimos, ainda, equipar nossa educação com esses recursos.

Pode haver minorias constituídas por patologias, por etnias, por religião etc., mas pode haver minorias constituídas pelo queer, ou seja, sem apresentar patologias e, no entanto, mostrar um corpo que pode beirar o “corpo abjeto”, para usar o termo de Kristeva apropriado por Butler e outras feministas. O surdo é quase um queer. Como surdo ele não tem um corpo bizarro, mas tem um modo de se comportar que é bizarro: num primeiro momento pode fazer o papel da “velhinha da praça”, num segundo momento pode fazer o papel daquele que gesticula numa rapidez incrível e se comunica com outros na linguagem de sinais, coisa que espanta alguns, principalmente os que adoram ver a gesticulação da linguagem de sinais como parecidos com gestos obcenos. Tudo é esquisito, ou seja, queer, para quem vem de um mundo que não é o de quem é tomado como queer. Os humanos estranham os humanos mais que quaisquer outros seres terráqueos. É próprio dos humanos contradizer o dito “tudo que é humano não me é estranho”.

Se assim é, por que não trazer para a redação do ENEM um tema como este? Nada mais belo que falar do esquisito. Ninguém pediu para que o aluno fosse um especialista em pedagogia relativa à “educação especial” ou coisa parecida. Redação nunca é tese. Redação escolar é sempre um momento para averiguar se o aluno pode se expressar na língua dele, em padrão culto, e com ideias concatenadas e alguma criatividade. Por isso mesmo, eis tudo que não se pediu ao aluno: uma aula ou um tratado ou um ensaio. Aliás, o tema até foi convidativo, se pensarmos no momento político atual. Podia muito bem possibilitar ao aluno falar da surdez – até literal – do governo em relação aos governados, ou dos fanáticos que adotam um salvador da pátria na política. Esse tipo de surdo é aquele que nem mesmo com a linguagem de sinais pode entender os parceiros. Ele sim está naquela condição que o cachorro, que escuta bem mais, diria: “putz, tá aí um surdo absoluto”.

A redação do ENEM poderia, também, lembrar que o INEP, formulador do exame, quis deixar as pessoas não surdas, mas mudas, pois tentou censurar o exame dias antes, inventado a maluquice de que a censura é o melhor caminho para se ensinar direitos humanos, mesmo que se saiba que entre os direitos humanos está o de livre expressão. Um aluno inteligente poderia ir por esse caminho, e se mostrar corajoso. Nunca faz mal ao jovem não ser capacho. Bem, é isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 06,11/2017

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

PS: quis propositalmente, ao comentar o tema da Redação, fazer eu mesmo uma redação para que o jovem, da próxima vez, não se perca no impasse.

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17 Responses “A surdez diante da redação do ENEM”

  1. 08/11/2017 at 20:06

    Meu primo, de 20 anos, que fez a prova dee domingo, escolheu o seguinte título para a redação sobre a educação de surdos no Brasil,com algumas críticas à atuação do próprio MEC, no passado e no presente: “”Ouvidos de Mercador”.

  2. Ronaldo Ângelo
    08/11/2017 at 01:16

    Boa noite Paulo. Parabéns pelo texto. Tenho uma dúvida: sobre a redação do enem seria errado falarmos no velho problema da inclusão, quero dizer, as dificuldades que as escolas e alguns professores ainda possuem em lhe dar com a criança que necessita do ensino especial, em uma sala de 30 e 40 alunos? Também, a falta de extensão com as universidades, que poderiam de fato oferecer as devidas orientações?

    • 08/11/2017 at 01:53

      Ronaldo, redação é algo livre, não é tese.

  3. Elizeu Santos
    07/11/2017 at 22:54

    Professor, eu recentemente li o seu livro “o que é pedagogia”, li a última versão, acho que de 2007 e li a primeira, gostei bastante das duas, parabéns. Anotei as indicações que você colocou no final do livro, mas qual deve ser a próxima leitura? Estou com o desejo de fazer meu TCC no Rousseau, penso em utilizar o Emílio, poderia me indicar outro livro de sua autoria?

    • 07/11/2017 at 23:32

      Elizeu, sobre Rousseau eu escrevi um pequeno texto no “A filosofia como medicinada alma”. Há vários textos meus sobre Rousseau, inclusive um capítulo sobre ele no meu livro “Para ler Sloterdijk” O que precisar de mim, só chamar no Facebook.

  4. David
    07/11/2017 at 18:53

    Sem dúvida, o fato de eu ter um estudo quase que nulo, ao me deparar com o tema abordado, deu o famoso branco, não vinha nada a mente. Justamente por falta de conhecimento fui por um lado diferente creio eu.

    ” O maior desafio não está apenas na educação que na minha opinião é precária e defasada mas, nos governantes e principalmente no preconceito que existe pôr parte de muitos ainda, ao pensar que uma pessoa por ter uma deficiência, necessite de um tratamento diferenciado dos demais, na questão relacionamento, embora a metodologia de formação pedagógica a o surdo de fato, tenha que ser aplicado de uma outra forma porém, a formação de qualquer indivíduo, independente da condições físicas, financeiras ou o ensino está um bosta, cada trilha seu próprio caminho projetando suas vontades.

    A surdez, a deficiência que me deixa bravo é, o jeito como eles são tratados por outros, muitas vezes com dó e Pena e, isso não gosto. O governo e parte da sociedade tem esse problema”.

    Essa foi a linha que procurei seguir. Certamente minha nota será muito baixa mas, estou cagando e andando para esse povo.

    • 07/11/2017 at 23:33

      David, errado seu pensamento sobre “cagar e andar”. Não se chega a nada pensando assim. Estude, melhore e vença. Você tem condições.

  5. LMC
    07/11/2017 at 11:53

    Esse Pauzudo que escreveu
    acima é gay,PG?kkkkkkkkkkk

    • LMC
      07/11/2017 at 11:55

      Quis dizer,o Pauzudo escreveu
      abaixo.Deve ser algum PAU-
      MANDADO do MBL.

  6. Marcio
    07/11/2017 at 00:58

    Boas observações. Não penso censura, mas se há discurso de ódio penso que zerar a redação seja só uma consequência.

    • 07/11/2017 at 09:41

      Márcio, ficou maluco? Primeiro, o estado não pode substituir o examinador. Segundo, achar que alguém não pode ser um brilhante escritor sendo um Sade, é uma besteira enorme.

  7. Pauzudo
    07/11/2017 at 00:14

    Tema muito difícil e totalmente inesperado, principalmente por isso um pedregulho. Tive que tirar leite de pedra tentando advinhar que porra o ENEM esperava que eu dissesse. Vtnc ENEM. Podia ter proposto desafios das pessoas com deficiência, ou os demais deficientes não importam? Por que algo tão específico? Num exame de seleção geral não pode isso. Sacanagem!

    • 07/11/2017 at 09:42

      Pauzudo, nem lendo meu texto você conseguiu aprender? Acho que você levou um pauzudo na prova.

  8. Paulo Altino Freitas da Cruz
    06/11/2017 at 18:25

    Boa tarde..!

    Creio que a surpresa que o MEC causou utilizando a surdez como tema de redação para o ENEM; Que, de certa forma, deixou muitos atônitos diante de tal ousadia. Expõe a fragilidade e a deficiência da escola básica na educação brasileira. Uma vez que esta não aprofunda os temas transversais no processo ensino aprendizagem. E quem perde com isso são os alunos na hora da prova..!

    • 06/11/2017 at 19:35

      Paulo, nunca tive “temas transversais”. Só verticais. Fiz uma boa escola pública, simples assim.

  9. Ezequias costa
    06/11/2017 at 14:34

    Boa tarde Paulo!

    Bom comentário, como pode esse tema, da redação do enem? , no meu ver falto mas critérios do MEC, paciência com essa turma, e pra não falar outra coisa.
    Um abraço, Paulo.

    • 06/11/2017 at 14:36

      Ezequias, meu comentário é um elogio à escola do tema, não percebeu?

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