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17/07/2018

Somos pouco afeitos à matemática. Por quê?


Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico

Segundo a Folha de São Paulo, os cotistas vão bem em geral, em notas, mas se dão mal em “Exatas” (Folha, 10/12/2017). Por que cotistas vão mal em “Exatas”? Se saem pior em matemática por uma razão simples: o brasileiro de um modo geral tem uma péssima educação matemática. As causas são as mais fáceis de apontar, mas sanar os problemas não é coisa que se vá conseguir de modo espontâneo, apenas pelo “desenvolvimento geral do país”.

A causa geral a respeito do nosso ensino ruim é o problema da salário do professor. É um salário que não pode ser deixado ao sabor do mercado – não do modo como o Brasil ficou distorcido nesse aspecto. Um professor ganha muito menos que um outro profissional com os mesmos anos de estudo. Nesse caso, até o mais liberal dos liberais não tem como não concordar comigo: é necessário um intervenção salarial de ajuda direta ao bolso do professor. De preferência, isso tem que ser feito pelo governo Federal. Um sistema de convênios Federal-Municipal mais generosos em termos de bolsas seria um bom paliativo inicial.

A causa específica do problema, também geral, é de ordem cultural, com um elemento perturbado incrustado no sistema de ensino. O sistema de ensino brasileiro desloca os estudantes do ensino médio, os com menos gosto e propensão para “Exatas”, para o curso de formação de professores das séries iniciais do ensino básico. Trata-se de um percurso “natural”: há uma fuga das matemáticas que é acolhida historicamente pela Escola Normal e, agora, pelo curso de Pedagogia. Os estudantes desses cursos, uma vez formados professores de séries iniciais do Ensino Básico, passam a aversão à matemática para toda a criançada do Brasil. Também aí, sem uma intervenção extra-sistema e sem uma mudança no currículo do curso de pedagogia, não se chegará a lugar algum. Além do mais, se o curso de Pedagogia continuar a ser “curso de pobre” ou curso de tornar alguém “portador de ensino superior”, não vamos sair de onde estamos. Do mesmo modo que o curso de Teologia está se tornando “muleta de prisioneiro”, o curso de Pedagogia já se tornou muleta de gente com pouco gosto pelo estudo.

Os cursos de formação de professores, no Brasil, não são cursos “teóricos”, como as autoridades dizem. O curso de Pedagogia não tem “teoria demais”. As autoridades só fazem esse discurso quando querem tirar Paulo Freire da jogada. Não fazem isso com sentido objetivo de melhorar. Não verdade, as licenciaturas – e a Pedagogia, nesse caso, lidera o movimento – são cursos burocráticos, com excesso de estágios e com problemas para formar gente qualificada em pouco tempo. Enchem os alunos desses cursos de tarefas que os tiram da rota do bacharelado, os tiram do estudo, os tiram dos “fundamentos”. No Brasil, se formar professor é difícil não por conta do conteúdo específico do curso, mas por conta da burocracia do curso. O curso é chato, desviante e forma um profissional para ganhar uma miséria. É pouco atrativo.

Além disso disso, há o problema específico,  também de ordem cultural: que o Brasil, colônia portuguesa com forte influência francesa, nunca foi um país que superou o que os educadores do passado chamavam de “beletrismo”. Somos um povo que adora o curso de Direito – e se este ficar pior do que já está, mais adorado irá ficar! Nossa intelectualidade sempre foi do campo da oratória. Até nosso curso de filosofia mostra isso, onde a disciplina de Lógica é o terror do estudante. Gostamos de pensar sem pensar, ou seja, pensar ilogicamente.

O autodidatismo do brasileiro, tão querido, é querido exatamente porque o permite a pensar fora de ordem. Os gurus palestrantes e os gurus políticos que metem a “educadores do povo”, mostram isso. Vivem de contradição em contradição em suas falas, e isso não os incomoda.

Isso tudo se associa a um ensino não conceitual de matemática. O povo brasileiro faz uma ideia de que matemática é “fazer conta”. Matemática é “cálculo”, no sentido ruim da palavra. Mas, na verdade, matemática é conceito, não cálculo. Para fazer cálculo há a máquina de calcular. Uma função é um vetor que por sua vez é uma matriz. As linguagens matemáticas falam, em geral, da mesma coisa. Tendo o conceito, troca-se de “frente” de ensino em matemática de modo bastante fácil. Mas não é assim que as coisas funcionam no ensino brasileiro. A cada nova “frente” (álgebra, geometria analítica, matrizes e determinantes, números complexos e probabilidade etc.) começa-se a ensinar “tudo novamente”. Os alunos são tratados como burros e, então, viram burros. O erro todo já começa lá nos primeiros anos de ensino, no âmbito da aprendizagem das operações básicas. Tudo é tratado a partir de “macetes”, e não por meio de conceitos. O resultado é que um aluno “bom” de matemática, depois, em outras disciplinas, se revela medíocre, pois não aprendeu a pensar conceitualmente.

Nesse último caso, é necessário uma intervenção dos próprios matemáticos brasileiros – os inteligentes, que não foram vítima desse tipo de educação. A conversa sobre conceitos precisa ser incentivada. Os concursos precisam cobrar os conceitos matemáticos. Os cursos superiores que envolvem “Exatas” não podem ceder nisso. Não se pode ter engenheiro de cabeça dura no Brasil como temos hoje. Não se pode ter economista com tanto blá-blá-blá e que não tem aptidão conceitual em matemática. Isso tudo é uma afronta!

A prova de que isso é possível é que, quando vamos para um grupo tratado como elite da matemática, conseguimos bons resultados. Não é raro os brasileiros, por meio de grupos pequenos, incentivados por algum professor abnegado, se sobressair em concursos internacionais de matemática.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo, professor (por mais de dez anos) de matemática em Cursinhos Pré-Vestibulares.

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6 Responses “Somos pouco afeitos à matemática. Por quê?”

  1. Orquidéia
    14/12/2017 at 08:51

    Teve um único ano na escola em que fui bem em Matemática,e isso por causa de um professor [no ensino médio] que nos ensinava a matéria com tanto desembaraço que parecia brincadeira.
    Acho que ele era identificado “espiritualmente” com a matéria.

  2. Hilquias Honório
    13/12/2017 at 14:59

    Caramba! Esse texto é uma questão de utilidade pública. Repassando já!

  3. Francisco
    13/12/2017 at 13:55

    Muito interessante esse ponto de vista (de reabilitar o conceito na matemática). Quando fiz computação, lembro de as disciplinas de matemática pura conceituarem as coisas em termos de notação. O conceito, nas aulas de matemática, é chamado de definição e é expresso em símbolos cuja semântica é razoavelmente consensual na comunidade. Quando inferimos algo do conceito, dizemos que a inferência ocorreu “por definição”; aprendemos técnicas de demonstração, como a “indução matemática”, que estabelecem um procedimento praticamente mecânico e livre de percalços. Então acho que mesmo numa pós-graduação em computação, onde são feitas reflexões sobre complexidade de meta-heurísticas e sobre problemas NP-completos, o procedimento fala mais alto do que uma reflexão sobre o conceito, sobre o ser do qual extraímos uma míriade de inferências. Eu não sei se não há um certo otimismo em relação à matemática pura, pois o grosso do que se vê nos departamentos de matemática e de computação (frequentei os dois na graduação e na pós) é a “matemática como cálculo” (ou como procedimento), ainda que seja uma álgebra mais refinada do que a de uma calculadora de quatro operações. Acho um pecado não ter conhecido Wittgenstein no curso de computação, por exemplo, embora hoje eu perceba algumas de suas ideias sendo aplicadas aqui e ali (na inteligência artificial e processamento de linguagem natural, por exemplo).

  4. Guilherme Gouvea Picolo
    11/12/2017 at 10:33

    No History Channel fizeram uma série daquela porcaria de “Manual do Politicamente Incorreto”. Uma barbaridade de besteiras e desconstrução da História oficial.

    A pérola do episódio que vi era o questionamento do porquê a ditadura brasileira não matou tanta gente como as demais da América Latina… no ápice da idiotice, o perguntador (não dá para tratá-lo como jornalista, não) pergunta para o filho do Vladimir Herzog se no Brasil houve uma ditadura ou uma ditabranda…

    O filho do Herzog fica bestificado e questiona: “Você está perguntando isso para mim, mesmo?”

    • 11/12/2017 at 10:40

      O comentário é bom, mas meio que estranho num texto sobre matemática

  5. 11/12/2017 at 08:28

    Isso é muito verdade, tem professor do Ceará, do século passado. Pelo qual passaram três futuros grandes matemáticas brasileiros. Acho que não tá mal pra um professor da escola básica

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