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23/11/2017

Somos eunucos científicos


Somos eunucos científicos

O MEC resolveu criar um programa envolvendo alunos e professores de vários níveis no sentido de melhorar a capacidade em ciências do brasileiro. Por melhor que seja o programa, isolado isso vai dar poucos frutos. Nosso problema com esse assunto é maior. Somos eunucos lógicos, e é isso que não temos a coragem de assumir.

O brasileiro tem dificuldade com o raciocínio lógico, necessário às ciências de todo tipo. Mas não acreditamos nisso ou não queremos acreditar. Não entendemos nossas raízes culturais lusitanas e, depois, afrancesadas, desapegadas ao que é científico. Reverter isso é quase impossível, minimizar o impacto disso, no entanto, é possível. Mas implica em tomar atitudes um pouco mais drásticas. Quatro pontos teriam de ser observados aí. Vejamos.

1) Nossa cultura geral não é científica. Privilegiamos o místico desde a infância. Místico não quer dizer religioso. Religião pode ser um incentivo à ciência, uma vez que a cultura teológica e filosófica dos católicos sempre implicou no cultivo da filosofia medieval, uma filosofia altamente ligada à lógica e à linguagem (um dos problemas lógicos mais interessantes, que desenvolve o raciocínio dos alunos, é o da prova da existência de Deus, de Santo Anselmo). E mais: os grandes debates filosóficos do passado entre religião e ciência precisam antes ser enfatizados e recuperados que retirados da vista dos alunos. Isso faria muitos estudantes pegarem gosto pela ciência e pela religião ao mesmo tempo. Povos altamente científicos não raro foram povos altamente religiosos (ainda é o caso). Por si mesmo o debate já envolve o raciocínio lógico.

2) Recrutamos como professores das crianças, por lei, só pedagogas. Ora, na atual circunstância a maioria dos estudantes que vão para a universidade com o objetivo de fazer o curso de magistério para o ensino de crianças forma o grupo que tem pavor de matérias como matemática e física. Mesmo filosofia, no Brasil, é uma área longe da lógica e da filosofia da ciência. Toda a formação do professorado do ensino básico é voltada para a fuga da matemática e do raciocínio lógico. Temos de reverter isso. O curso de formação para o magistério deve incluir forte base lógica e científica e a filosofia deve te sua carga horária ampliada no sentido de abrigar o ensino da lógica.

3) Nossos professores ganham mal, não possuem lugar de trabalho adequado e em geral, nos municípios, nem contratados são. São temporários. Aliás, nossos salários de magistério, nos níveis de ensino mais básicos, são os piores do mundo. Sem que esse quadro seja revertido, qualquer outra medida perde força. A profissão de professor precisa ser atrativa economicamente para que atraia para si gente mais capacitada.

4) A universidade atual, cuja porta de entrada está se caracterizando pelo ENEM, facilita demais o aluno que não tem gosto pela ciências e matemática. A redação, que poderia forçar o raciocínio lógico, também é desprezada.

5) A articulação entre a redação e o pensamento lógico, que é o básico para se escrever bem, é totalmente desprezada no Brasil. Aliás, o ensino do português no Brasil não é visto como o que deve ser, ou seja, o ensino da lógica, a própria forma de pensamento. Não! Ainda tomamos a linguagem como uma capa que cai sobre nós, e não com o elemento nuclear da nossa vida como humanos, e que nos possibilita pensar ou não pensar.

Quem vai atacar para valer esses problemas em uma sociedade que já não tem mais como valor a educação e, no máximo, cultiva o diploma? Ninguém.

2013 © Paulo Ghiraldelli  Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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One Response “Somos eunucos científicos”

  1. M. Luis
    03/05/2013 at 23:31

    Ghiraldelli, não precisa publicar meu comentário, como das outras vezes. Fico satisfeito apenas de você lê-lo. Mas, muita coisa que hoje verificamos tem sua origem lá na década de setenta e oitenta. Lembro da explosão demográfica em que a maioria ficou de fora, amargurando num ensino público decadente e um funil bem estreito para o ingresso nas universidades públicas e militares. O desmonte da educação atingiu em cheio o profissional da educação, destituindo-o de um cargo respeitadíssimo, e o levando a condições humilhantes de salário e meios de trabalho. Somente os “sacerdotes”, professores amantes da educação se submetiam a uma empreitada como essa. A desvalorização do ensino manifestou-se de maneira subréptica na aversão do aluno pelas disciplinas, salvo exceções…

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