Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/08/2018

Só um tolo pediria para a escola acompanhar a mudança do mundo!


[Artigo preferencialmente indicado para o público acadêmico]

“Encontro um marinheiro americano e pergunto-lhe por que os navios do seu país são construídos para durar pouco; ele me responde sem hesitar que a arte da navegação faz, cada dia que passa, progressos tão rápidos que o melhor navio logo se tornaria quase inútil se prolongasse sua existência além de alguns anos”. Quem escreveu isso foi Tocqueville, em 1835, no segundo volume de A Democracia na América.

Quando vemos palestrantes contando para nós a novidade a respeito de que a ciência e a tecnologia mudam rapidamente, e que precisamos educar as crianças segundo a regra do “aprender a aprender”, pois só assim elas podem viver no mundo que viverão, o qual não sabemos como será, dá uma enorme vontade de exclamar debochadamente para esse gurus assim: “ohhhh!”

Tocqueville foi informado da mudança da arte de navegação. Escreveu o que escreveu treze anos de Marx e Engels publicarem o Manifesto Comunista, onde se fez presente a célebre frase “tudo que é sólido desmancha no ar”. No final daquele século, o XIX, John Dewey elaborou as bases da educação nova, cujo lema se tornou o “aprender a aprender”. Essa ideia foi propagada pelo mundo por uma parceiro seu, com o livro de título significativo “Educação para uma civilização em mudança”, o famoso Kilpatrick. O filósofo brasileiro Anísio Teixeira estudou com ele nos Estados Unidos, nos anos vinte do século XX. Quando voltou ao Brasil insistiu nessa educação voltada para a “resolução de problemas” , para uma pedagogia transformada em engenharia social. Mas, por essa época, o ensinamento do marinheiro americano a Tocqueville já estava obsoleto na América. A ideia não era mais fazer qualquer coisa com vida útil curta, mas fazer tudo com vida útil programada. No início do século XX o fordismo inaugurou como regra a fábrica em funcionamento pela linha de produção, e implementou a capacidade de produção de massa segundo o consumo ampliado e, enfim, a ideia de obsolescência programada. De vez em quando um brasileiro, hoje, descobre isso. E um pedagogo qualquer se espanta em saber disso. Um rapaz de esquerda, então, se deslumbra com tal coisa e, no primeiro ano de ciências sociais, revela para outro que o capitalismo é bem malvado, que faz tudo para que tudo acabe bem rapidinho.

Os americanos hoje já suplantaram os europeus em volume mensal de leitura. Até os anos 60 ainda eram “rurais”. Hoje a juventude americana é enorme e, na média, mais culta que a europeia. O sonho do professor europeu é se empregar numa universidade americana. A ideia de que o americano não deve ser dedicar à tecnologia na universidade, mas sim no trabalho e nos laboratórios, se deve exatamente à generalização da obsolescência programada. O mais útil é ter os fundamentos das ciências, mais sólidos. A franja não, a franja muda rápido e é mais facilmente aprendida, com velocidade, pelos que têm os fundamentos. O Brasil não entendeu nada disso, ainda se dedica a propagandear o “ensino técnico e profissional” ligado ao aligeiramento dos conteúdos. Aqui a ideia de que tudo vai passar é frequente, mas é um erro tentar adaptar a escola a uma tal coisa. Pois ela, a escola, não pode acompanhar a mudança. Não pode mesmo. Deveríamos levar a sério o marinheiro de Tocqueville. Todo ensino técnico e tecnológico deve ser deixado para as empresas e laboratórios. A escola é lugar de fundamentos. A escola é lugar de Machado de Assis, Newton e Platão, e não de montagem e desmontagem de celular e muito menos de “aulas de computação”.

“Aprender a aprender” é possível com o aprendizado de métodos científicos. Nisso Anísio Teixeira estava certo. Mas os escolanovistas erraram quando acreditaram que podiam colocar o método científico como conteúdo secundarizando os próprios conteúdos clássicos. O mundo tem pressa. Mas a escola não pode e não deve acompanhar essa pressa. Ela tem que ser sólida e, se quer acompanhar a pressa, deve dar fundamentos para quem, saindo dela, possa se integrar no tal mercado de trabalho, e isso só ocorre se o estudante reteve os clássicos, os fundamentos, e deixou o resto para o próprio trabalho, para as tarefas periódicas de “readaptação” e “atualização”, que obedecem a demanda da nova tecnologia. A escola é um lugar de mudança justamente se ela não muda, se ela se fixa nos clássicos. Só assim ela pode colocar no mundo jovens que mudam. Ela própria não pode e não deve querer se meter com a obsolescência programada.

O pessoal que fala de educação por aí, em palestras (há guru de todo tipo hoje em dia, principalmente se dizendo filósofo e educador), está atolado de novidades que são só novidadeiras. Não percebem que estão descobrindo aquilo que o marinheiro ensinou a Tocqueville há duzentos anos, e que foi depois reposto em termos de filosofia da educação. Isso faz mais de cem anos. Esses gurus não sabem nada disso. Esses gurus nunca estudaram de fato filosofia e muito menos filosofia da educação. Aliás, eles não sabem que o próprio mercado os criou com obsolescência programada.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. São Paulo, 30/03/2018

Tags: , , ,

4 Responses “Só um tolo pediria para a escola acompanhar a mudança do mundo!”

  1. Claudio Dionisi
    18/04/2018 at 12:15

    Magnífico! Não imagino exemplos melhores do que os expostos pelo Paulo. mais uma vez obrigado.

  2. Elton
    03/04/2018 at 08:18

    A produção sobre a educação profissional brasileira peca pelo seu excesso de marxismo. O grosso da produção só faz dizer que existe uma educação propedêutica – destinada aos ricos – e uma educação técnica – destinada aos pobres -, fazendo-nos acreditar que a educação profissional brasileira é tão somente um desdobramento da luta de classes. Também se discute muito sobre a educação integral mediante a influência de Gramsci. Quando abordam o tema das “competências”, o qual está intimamente ligado com sua exposição, restringem-se em declinar que é apenas uma abordagem alinhada com os mecanismos de produção e reprodução do capital. E só.

    Quanto a sua colocação “Todo ensino técnico e tecnológico deve ser deixado para as empresas e laboratórios”, acho importante fazer uma distinção conceitual entre técnica e tecnologia. Quem fez isso com certa sobriedade foi Álvaro Vieira Pinto. Penso que uma escola que focaliza os “fundamentos” da ciência está propondo uma educação, em certo sentido, tecnológica.

    Parabéns pelo artigo

    • 03/04/2018 at 08:45

      Elton! A educação profissional é historicamente isso que os marxistas dizem, no Brasil. Historicamente eles estão certos. Agora, Álvaro era um tipo de marxista também. E a distinção que ele faz não condiz com o que eu quis dizer. Distinguir técnica de tecnologia é completamente inócuo no meu texto. Você pegou meu texto por meio de um background alheio demais a ele.

  3. assis
    30/03/2018 at 20:28

    isso me lembra um conto do Isaac Asimov, onde a profissão era “implantada” no jovem quando a uma idade e de acordo com um questionário, mas depois de pouco tempo já estavam obsoletos, restando apenas a subempregos. O protagonista que passa o conto todo revoltado por não ter aptidão alguma sem direito a qualquer implante, é enviado para um asilo de “rejeitados” que nada mais é do que uma universidade, responsável por criar novas profissões-chips

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *