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17/12/2017

Só o beijo entre crianças realmente educa


Este artigo é indicado para o público em geral

Crianças se abraçam e se beijam. Os pais ensinam as crianças a mandarem beijos, dar beijos, entre elas e em adultos. Depois, quando as crianças entram na escola, ocorre um natural afastamento entre meninos e meninas, um certo comportamento de grupo se institui, e surgem os “clubes da Luluzinha” e “clubes do Bolinha”. Meninas de um lado e meninos de outro. Poucos são os que cruzam a faixa de separação. Qualquer menção da palavra “namoro” entre colegas de classe cria constrangimento. Alguns pais, nessa fase, também diminuem os carinhos e contatos corporais com os filhos. Alguns filhos se ressentem disso, outros se sentem aliviados!

Quando atravessam a pré-adolescência, em geral as meninas logo passam a olhar para os garotos mais velhos, deixando de lado os meninos da classe. Os que poderão ocupar o campo da população LGBT ficam mais desorientados nessa fase, mas a ideia de seguirem o comportamento binário (ainda que com uma liberdade de olhares mais aguçada) se faz presente. Ao final dessa fase, até mesmo antes dos 14 anos, muitas dessas crianças já experimentaram carícias de outras, de orientações diversas, inclusive boa parte delas já se masturbou, mas daí para diante inicia-se algo realmente diferente do que ocorrera até então. Em geral, na transição da pré-adolescência para a adolescência as relações de namoro finalmente se instituem. O contato sexualizado aumenta, mas o contato não sexualizado também aumenta de forma abrupta e intensa. Os adolescentes se abraçam, se beijam, se esfregam. Fazem isso na dança, no convívio, no esporte e, enfim, Eros os ronda! Numa linguagem menos filosófica e mais naturalizante: uma explosão de hormônios os pega! Namoro e amizade se confundem. Eles se experimentam e buscam identidades de várias ordens, inclusive as identidades a respeito de como se apresentaram corporalmente, e sexualmente.

Até aqui, nenhuma novidade. Nada que um Delamare da vida já não tenha dito há mais de meio século. Daqui para diante, coloco minhas cartas na mesa.

Beijo entre duas adolescentes. Novela Malhação 2017

Em todas essas situações, a pior coisa que pode ocorrer é o aparecimento de um adulto com problemas emocionais não resolvidos, para vir exercer o papel de censor, de chefete do corpo alheio. E nós sabemos o quanto há adultos que tomam atividades corporais como estranhas. O que há de adulto que quer ser fantasma de criança, implantando horror e humilhação, não é pouco não. O bloqueio sobre o corpo da criança, por conta da projeção do adulto problemático sobre as crianças, em qualquer dessas fases, é realmente a desgraça de qualquer processo educacional. Colocar os corpos sob envólucros é como que enfaixar o cérebro, não o deixando respirar. As consequências disto para a atividade cognitiva são tão fatais quanto é a criação da criança no regime das religiões que obrigam a leitura literal da Bíblia, não ensinando para as crianças e jovens o básico de processos hermenêuticos.

Corpo proibido e linguagem asfixiada são a receitas certas para a produção de jovens, em média, mais incapazes cognitivamente que os que puderam usar do corpo para o amor em diversos níveis e graus, e os que puderam participar da linguagem como um campo propício para a atividade imaginativa e interpretativa. Essa conexão já foi estudada por várias áreas do conhecimento. Ninguém até hoje desmentiu essa tese, que de certo modo os grandes educadores sempre souberam. Aliás, não à toa Platão – inventor da filosofia e da pedagogia – fez o caminho filosófico pedagógico como um caminho de Eros, uma escada cujo degrau inicial é a beleza física e o namoro.

Desenho da Disney para crianças exibe festival de beijo gay

O contato corporal é fundamental para criar crianças que não se tornarão sociopatas ou simplesmente gente fria e cruel. O contato corporal dá a pele do outro, e é só pelo toque, pelo beijo, pelo abraço, pelo carinho e, de certo modo, até pela agressão, que aprendemos o que devemos entender sobre a integridade física do outro. Quem não passa pelo corpo-a-corpo não entende a dor do outro. É por essa via que se criam os monstros capazes de exercer a tortura física. A tolerância social nasce das possibilidades de amor corporal. Uma sociedade liberal só surge onde os corpos podem se encostar e se esfregar. Sem beijo não há democracia. Atenas sabia disso e, por isso mesmo, gerou as bases civilizacionais pujantes do Ocidente. Metade do que somos devemos aos gregos.

O melhor trabalho pedagógico é aquele na qual as crianças aprendem o que já sabem antes de entrar na escola: beijar. E isso pode vir junto com o abraçar, o cheirar, o gostar – às vezes o morder. Fora disso, toda pedagogia é mero exercício de preparar estúpidos e pessoas que poderão se tornar incapazes de se insurgir contra a tortura, a crueldade e a injustiça. Uma cidade erotizada por todos os lados é uma cidade melhor. Uma sociedade formada por pessoas que temem Eros, que nem sabem que ele é um demiurgo, que policiam de modo exagerado beijos entre crianças e entre jovens, está fadada a ser uma sociedade tosca, rude, e tendente ao preconceito. Pois o preconceito sempre passa pelo corpo. O preconceito só é vigente nos desgraçados que não puderam ser tocados … com carinho.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 24/11/2017

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8 Responses “Só o beijo entre crianças realmente educa”

  1. Celso
    27/11/2017 at 12:29

    Bom texto!

    Paulo, você acha que a tendência é que daqui pra frente sejamos mais liberais, no sentido de não repreender o corpo, com nossas crianças? Eu fico em dúvida, porque por mais que culturalmente nós estejamos nos distanciando da repressão do corpo (eu acho, me corrija se estiver errado), e nos aproximando da valorização da empatia e da tolerância ao diferente (aquele tal poder civilizatório do capitalismo), tenho a impressão de que também estamos dando mais valor à formalidade, a um afastamento físico para com os outros. Sei lá, sou só um leigo, mas vejo isso na maneira com a qual as crianças estão crescendo, muito ligadas à tecnologia, às redes sociais. Até as brincadeiras mudaram, agora os miúdos estão mais antenados nos jogos eletrônicos. Parece que falta contato, brincadeiras mais físicas mesmo, sabe?

    Mas, enfim, queria dizer que achei as observações do texto bastante pertinentes, especialmente para nós do público leigo aqui do Brasil. Eu tive uma infância com pouco contato físico, e sinto as consequências disso na minha vida adulta, especialmente ao que se refere à minha cognição social. Só me resta agora fazer um esforço para não ser outro desses adultos problemáticos, que deixam extravasar suas mágoas sobre crianças com potencial para serem adultos emocionalmente saudáveis e amáveis.

    • 27/11/2017 at 12:38

      Celso, essas tendências são captadas pelo historiador só depois de bem mais tempo, e olhando por uma visão macro.

  2. Augusto P. Bandeira
    26/11/2017 at 23:49

    É impressão minha ou o texto foi um carimbo de “OK” para os menininhos que estavam se beijando em uma festinha com um bolo do Pablo Vittar?

    É só uma pergunta.

    • 27/11/2017 at 08:55

      Augusto Bandeira! Você também com esse mau-gosto musical! Já não chega os meninos! Alguém precisa educá-los e aproveitar e educação você: Pablo é horrível.

    • Augusto P. Bandeira
      29/11/2017 at 20:27

      Não respondeu coisa alguma.
      Desvirtuou a pergunta para tentar dar a – caricata – impressão de que ouço voluntariamente o cantor em questão.
      A pergunta continua em aberto, mas só pelo seu tom já imagino a resposta.
      Paz.

    • 29/11/2017 at 23:02

      Bandeira, você parece um pouco perturbado mentalmente. Procure um médico.

  3. Ramiro
    24/11/2017 at 15:53

    Sou grato ao meu anjo da guarda, que me deu polainas em que pensar.

  4. Robson de Moura
    24/11/2017 at 10:45

    O texto me adverte que considerar a erotização “da cidade por todos os lados” algo ruim, no contexto de educação de criancas, é um erro. Conhecer Eros agora como demiurgo, foi uma chave importantíssima!

    Vou ponderar.

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