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20/11/2017

Proibida a Educação Artística no Brasil


Estamos em uma época estranha, de retrocesso cultural em vários setores. A filosofia e a sociologia estão sendo empurradas para a fora da escola. A educação artística já recebeu seu chute. Mas, nesse caso, foi expulsa da sua própria casa: o museu.

Urinada até no calcanhar de medo dos reacionários gritões, a direção do MASP decidiu que o museu pode continuar sendo “de arte”, mas que os jovens, os que estão na época de formação e, portanto, dependem da educação artística, não devem frequentar uma casa de arte. Que aprendam arte no … onde? Em nenhum lugar. A exposição “história da sexualidade” nem precisou receber protestos da direita energúmena de sempre. O próprio MASP criou uma regra estapafúrdia, sem amparo legal, que proibiu o jovem de menos de dezoito anos (!) de visitar a tal exposição. O lugar da arte e da liberdade, ele próprio, resolveu optar pela censura. A casa da arte, receptáculo da educação artística, expulsou a educação artística.

A frequência de brasileiros a museus, teatros e bibliotecas é ínfima. Para o tipo de desenvolvimento econômico que temos, deveríamos apresentar melhores índices de hábitos culturais. Mas não! Somos um povo inculto. E os lugares de cultura que temos, justamente no momento em que podem conquistar os jovens, optam por proibi-los de frequência. Uma “história da sexualidade” interessa ao adolescente que não se interessa por arte. Seria um excelente chamamento uma exposição como esta. Faria a educação artística acontecer. Seria o queijo no prato e a faca na mão! Mas não, o queijo fica lá sem ser comido, pois a  faca se desvia. Por tudo que é legal em termos de censura, nada se aplica, com legitimidade, no caso dessa proibição da frequência do jovem ao MASP, como bem nota, em artigo incisivo, meu amigo Hélio Schwartsman (“Masp fora da lei”, Folha, 20/10/2017). O articulista mostra que a Constituição de 1988 elimina de vez a censura, e emenda que o uso de uma leitura conservadora do ECA também não justifica e muito menos legaliza a ação do MASP na sua fuga diante dos jovens.

Tudo se passa, então, como se no Brasil tivéssemos, repentinamente, um ódio mortal à arte e, na sequência, uma precaução terrível contra a educação artística. A coisa funciona assim: jovens não podem ir ao MASP nem mesmo acompanhado dos país, pois ali, de um modo diferente da TV e da Internet, o olhar do jovem irá ficar chocado diante do nu! Oh!

Se o museu que é o museu não pode educar com sua arte, se ele mesmo assim se declara, então, a educação artística se torna alguma coisa que já não tem lugar algum. O MASP se declara, com isso, uma instituição incompetente.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 20/10/2017

Paulo Ghiraldelli. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

 

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4 Responses “Proibida a Educação Artística no Brasil”

  1. Rafael Costa
    22/10/2017 at 00:37

    Qual será o próximo passo, professor? Proibir clássicos da literatura como o Crime do Padre Amaro, Dona Flor e seus dois maridos e Lolita? Livros extramementes estimulantes para os jovens, serão proibidos também? Onde vamos chegar, professor? Se tudo o que pode ser usado de atração para os jovens serem incluídos num mundo que valoriza a cultura está sendo negado?

    Enquanto isso, na França fazem uma campanha para atrair os jovens declarando que “Venham ver nudez nos museus”.

    Há se essa onda moralista de quinta categoria fosse exclusiva do pessoal da direita, seria péssimo, mas do lado de lá só se espera isso. Neste ano, vários setores da esquerda comemoram tapar a nudez da Globeleza. Como se fosse a nudez de uma bela mulher dançando na televisão as causas da violência sexual no país.

  2. Tony Bocão
    20/10/2017 at 14:18

    Trabalhos censurados justamente nestes espaços, assumem de certa forma rótulo tácito de “arte degenerada”, ao melhor estilo entartete Kunst, quebra-se muito do próprio contexto que o artista expõe, afinal, estamos visitando um lugar proibido, prepare-se ao entrar você pode se chocar. Incluir um fetiche sexual na arte sendo que não há. Penso que pode inclusive retirar o conceito de agência da obra de arte em alguns casos. Nunca pensei que o Masp ia virar aquele quartinho que as locadoras reservavam para porno.

  3. Willams S. de Sousa
    20/10/2017 at 13:29

    O problema no Brasil é que estamos passando por uma fase adolescente. O governo que normalmente atuaria como um pai que puxa as orelhas do filho já não pode mais enfrentar os filhos adolescentes que o desacata sem qualquer pudor.

    É Brasilzão, você está mudando, passando por emoções e sentimentos que não compreende.

    Eu estou convicto de que antes de mais nada, é urgente que psicologia seja a principal matéria no ensino médio. Porque com os sentimentos ainda sendo compreendidos, é apenas pela razão que você pode compreender o outro, e nada mais justo que ensinar a razão por trás do comportamento humano, seu, do adulto, da criança, do idoso, do enfermo, do deficiente, etc..

    Não desmereço a sociologia ou filosofia, mas hoje se torna quase um disparate haver filosofia sem psicologia, este recurso era um privilégio apenas dos velhos filósofos que faziam o que dava com o que possuía na época. Hoje podemos verificar o comportamento humano objetivamente por métodos científicos que nos impelem a engolir até nossas mais profundas convicções: processo essencial para tocar com a razão aquilo que não compreende.

    Obrigado pelo texto.

  4. Matheus
    20/10/2017 at 11:17

    Poutz, o pior é que o MASP é um tanto quanto referência pra todos os Museus no país… Outros ainda vão copiar pra alegria de alguns políticos, das igrejas caça-niqueis é daqueles que nunca frequentaram um museu e nunca vão frequentar mas conseguiram evitar que outros frequentem …

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