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17/12/2017

A professora pedófila no banheiro


Para minha amiga Janaína Paschoal

Dona Iracema era “das antigas”. Seu modo de ser professora, e não “tia”, ressoava pela escola. Estava para aposentar, andava doente. O magistério deixa as pessoas doentes, sabia? Mas mesmo em seus últimos dias, ela estava ela, junto da sua Caminho Suave, a cartilha que usava mesmo contra as indicações da Secretaria de Educação. A cartilha havia sido desaconselhada! Mas ela nunca deu bola para tal advertência. Ela mesma dizia, “sou das antigas”.

Conheci Dona Iracema quando eu ainda saía para dar palestras pelo Brasil afora, isso foi no final dos anos noventa. Ela trabalhava no interior do interior, numa cidade bem pequena, mas numa escola pública que se orgulhava de conseguir educar bem seus pimpolhos. O que trouxe Dona Iracema até mim foi uma pergunta sobre a cartilha. Ela queria saber o que eu achava de “cartilhas”, sendo alguém que tinha conhecido Paulo Freire e que havia sido seu aluno. Disse a ela que eu mesmo havia sido alfabetizado pela Caminho Suave, e que havia alfabetizado minha filha com tal cartilha. Claro que contei para ela que Paulo Freire jamais condenou cartilhas! Dona Iracema ficou minha amiga e passou a se corresponder comigo. Depois, calou-se.

Passou um bom tempo e, um dia, recebi uma cartinha de Dona Iracema. Creio que já estávamos nos anos 2000. Ela me contou, então, que estava sendo processada, ou algo assim, algo como um tipo de inquérito interno da Secretaria de Educação de sua cidade. Estavam-na acusando de “pedofilia” e “abuso sexual”. Qual o seu crime, de fato? Dona Iracema contou a versão dela. Eu acreditei nela, mas mesmo assim, antes de tomar qualquer atitude, fui tentar saber de outras pessoas da cidade mais coisas sobre o fato. Resumindo: o município havia feito vingar a norma de que nenhuma professora podia tocar crianças, quando estas fossem ao banheiro. Dona Iracema descumpriu a regra, limpou com papel higiênico uma garota de 6 anos. A garota contou para a mãe que, por sua vez, contou para uma amiga religiosa, que não tardou a retrucar que tal prática estava proibida. A conversa foi parar na diretoria da escola e, então, fantasmas surgiram das catacumbas. Sabe aqueles fantasmas que estão em todo lugar do interior, e que fazem até os bons se calarem, de tanto auê que inventam? Pois é, foram desse tipo os que apareceram.

Dona Iracema batalhou na justiça interna e externa. Na externa, saiu-se livre, na interna, perdeu o emprego. Sem salário, já com idade, Dona Iracema passou a dar aulas em casa. Foi difícil, pois a fama de “pedófila” foi aumentada por alguns que, enfim, eram justamente aqueles que haviam abandonado a escola. Um vereador da cidade, notório repetente escolar, consegui fazer seguir uma nova investigação contra Dona Iracema, trabalhada no interior da Câmara Municipal. Começaram pela seguinte questão: todas as professoras primárias eram casadas, por que Dona Iracema nunca havia se casado? Não seria ela uma lésbica? Ora, uma vez lésbica, não seria ela, então, “natural e necessariamente” pedófila? Em certas Câmaras de Vereadores, sabemos, poucos valem o que comem!

Acompanhei o caso, tentando ajudar Dona Iracema. Fiz o que estava ao meu alcance prático. Como figura pública da educação, autor e bibliografia de concurso, joguei meu nome na cidade como alguém que dava aval para as aulas particulares de Dona Iracema. Isso a fez sobreviver,  até que o desgosto a consumiu e ajudou seu câncer progredir mais rápido. Enfim, Dona Iracema virou uma estrelinha no céu – que foi como as crianças para quem ela deu aula a desenharam. O tempo passou. Dona Iracema não tinha parentes e eu perdi o contato com aquela cidade.

Mais dias ainda correram e eu mesmo me aposentei da universidade pública. Dediquei-me aos livros e novos afazeres no campo cultural e na filosofia. Até que um dia recebi uma mensagem eletrônica de uma moça que queria orientação para fazer mestrado. Ela se apresentou como Elizabeth, e citou a cidade de onde era. Lembrei do nome da cidade na hora, a mesma de Dona Iracema. Falei da velha professora e a Beth então me disse que havia sido justamente a Dona Iracema quem havia primeiro falado de mim para ela. Conversa vai e conversa vem, após várias mensagens ela me disse de fato quem era, acrescentando a frase terrível “acho que o senhor, de certo modo, já ouviu falar de mim”. Sim, ela era a garota que, com seis anos, havia sido limpada no banheiro pela Dona Iracema. Fiquei sem palavras. Então Beth disse que queria vir até São Paulo me conhecer pessoalmente. Tentei evitar, mas não tive como. Marquei a data e local, mas com a esperança de que a distância se incumbisse de fazê-la desistir. Achei que chegaria o dia e ela acabaria me mandando um recado pedindo desculpas por não poder viajar. Criei a fantasia de que eu escaparia daquele encontro. Afinal, o que eu poderia dizer, caso a moça invocasse aquele passado doloroso? Às vezes eu pago para não voltar às coisas do passado, principalmente às incógnitas. Dona Iracema, de certo modo, havia sido uma incógnita.

Todavia, Beth acabou vindo ao meu encontro. Ela lá na ponta do corredor da livraria, e eu já no interior. Era uma moça na cadeira de rodas. Nunca andou. Sempre estivera ali na cadeira. Nunca se limpou completamente sozinha. Quando ela meu viu e notou que só então eu vi o que precisaria ter visto, ela começou a chorar e me pedir desculpas. Mas eu sabia, então, que ela havia vindo até mim para pedir desculpas – desculpas para Dona Iracema. Conversamos horas. Eu, que nem tenho religião, acendi uma vela para Dona Iracema e, envergonhado, pedi desculpas. Na verdade, eu havia ajudado Dona Iracema, mas a maldade do mundo e o preconceito, por um segundo, haviam me feito titubear. Esse momento de titubeio, até hoje, eu interpreto como fraqueza, pecado, incapacidade de romper de vez com a capa de preconceitos que nos rodeia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 08/10/2017

PS1: Essa história é real. Claro que troquei os nomes e propositalmente não citei o nome da cidade. Sempre que lembro desse episódio, que pela primeira vez conto, me vem à mente o maldito acontecimento da Escola de Base, aqui de São Paulo. Tento então culpar Rousseau, mas não consigo. É covardia. Nós é que somos culpados por criminalizarmos tudo que nos parece sexual, antes de qualquer melhor juízo, e nós é que inventamos essa deturpação de levar Rousseau como uma leitura sem o antídoto dado por Nabokov.

PS2: Janaína Paschoal é uma amiga querida, defensora do ECA. Também sou. Mas o ECA não é Deus. Merece ser discutido e ter suas leis avaliadas caso a caso. Muitas vezes a questão sexual se sobrepõe a tudo, e as crianças mais pobres, desprotegidas não só diante do sexo, mas do trabalho, ficam esquecidas. O fervor com que sexualizamos o pecado, vindo de Santo Agostinho, e o fervor com que achamos que a infância é “pura”, quando se trata da infância dos filhos de brancos de classe média, atrapalha bem nosso pensamento.

Paulo Ghiraldelli  é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). É professor pesquisador convidado na Faculdade Paulo VI, da Igreja Católica, em filosofia.

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7 Responses “A professora pedófila no banheiro”

  1. Orquidéia
    09/10/2017 at 22:43

    Que judiação!

  2. Anilson Tadeu Martins
    09/10/2017 at 14:25

    Uma realidade sem data, sem época e muito atual !

  3. Tony Bocão
    09/10/2017 at 09:11

    Que história forte, destas de se sentir pequeno.

    • 09/10/2017 at 09:28

      Não é uma história para qualquer um, vários vieram aqui para xingar o narrador.

  4. João Neto
    08/10/2017 at 20:26

    Viva, professor Paulo.
    Nao lembro se recomendei anteriormente um otimo filme ( The hunt ) que se adequa ao tema, com foco no acusado e nos acusadores.
    Continuo a ler teus textos e te desejo continuacao de uma vida longa.
    Beba agua.
    Cumprimentos
    Jb

  5. Matheus
    08/10/2017 at 14:13

    ” Muitas vezes a questão sexual se sobrepõe a tudo, e as crianças mais pobres, desprotegidas não só diante do sexo, mas do trabalho, ficam esquecidas. O fervor com que sexualizamos o pecado, vindo de Santo Agostinho, e o fervor com que achamos que a infância é “pura”, quando se trata da infância dos filhos de brancos de classe média, atrapalha bem nosso pensamento ”

    Soube até de nota de associações brasileiras de médicos e de psicólogos pregando que as crianças não estão preparadas para lidar com a nudez e “sexualidade” adultas (só uns imbecis pra deduzirem automaticamente sexualidade de nudez) no caso da menina do MAM. Justo duas classes de profissionais/cientistas que deveriam saber melhor do que ninguém lidar com universalidade X casuísmo já que nem todo corpo ou toda psique são iguais.

    Creio que se essas instituições querem prestar algum auxílio o melhor seria eles mesmo irem sem preconceito ou dogmatismo algum ir avaliar a tal criança, e se assim, partindo de tais premissas, fatalmente chegariam à conclusão: a criança está melhor que esses adultos profissionais-cientistas e passa bem.

    A esperança é saber que algumas crianças estão melhor que muitos adultos, que ainda há futuro pra quem quiser continuar com a cabeça viva.

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