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22/09/2017

Por que os jovens brasileiros são burros? São mesmo?


Há dois tipos de aprendizado segundo dois tipos de avaliação. O primeiro tipo aprendizado é aquele em que a avaliação pede para o estudante devolver com as palavras do professor ou com “as suas próprias palavras” o que lhe foi transmitido. O segundo tipo é aquele em que a avaliação solicita que o aluno apresente um comportamento alterado, após o aprendizado, se mensurado em comparação com o comportamento anterior. O primeiro tipo é europeu, o segundo, americano.

Os americanos sempre foram mais comportamentalistas que os europeus. Sempre mensuraram inteligência por meio de “equacionamento” e “resolução de problemas”. Aprender, para um americano, não raro é apresentar um hábito de ação que só surgiu por conta da intervenção pedagógica. Aprender, para um europeu, sempre tem mais a ver com apresentar uma narrativa referenciada que considere o objeto ou problema apresentado. Os europeus ainda olham para os americanos como incultos, pois de um modo geral há menos erudição no que fazem. Os americanos ainda olham para os europeus como prolixos demais, donos de um saber inútil. Ainda que esses pré-juízos tenham diminuído bem, de ambas as partes, principalmente quando estamos no meio de intelectuais da universidade, não é difícil dizer que, de um modo geral, ainda é assim os olhares mútuos.

Nesse quadro, como nós brasileiros nos situamos? Claro que somos europeus. Ninguém há de contestar a crítica do movimento da Escola Nova entre nós, acusando o brasileiro de “cultura bacharelesca” e “livresca”. Anísio Teixeira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e outros fizeram essa crítica ao ensino brasileiro, à cultura brasileira de elite. Também não devemos nos esquecer que uma parte dos conservadores também faz essa crítica até hoje, inclusive com forte ranço de anti-intelectualismo e até mesmo de cultivo à estupidez. Vira e mexe e temos algum conservador dizendo que “o Brasil precisa de mais engenheiros e menos filósofos”, como se estivéssemos todos os dias ganhando um Nobel da literatura ou das Humanidades. Somo fracos em tudo. Não temos porque dizer que isso é melhor que aquilo. Precisamos de engenheiros E de filósofos.

Agora, tanto para as Humanidades quanto para as Ciências Naturais e as Matemáticas, deveríamos sim prestar mais atenção a respeito da forma de aprender que solicita, em sua avaliação,  o modo americano. Se não mudamos ações, comportamentos, formas de pensar e agir, hábitos na vida cotidiana, como podemos dizer que realmente aprendemos algo? Como verificamos se alguém aprendeu natação? Ora, é necessário que uma tal pessoa entre na água e saia nadando. Um expert da técnica da natação talvez não precise disso, mas estará sempre como técnico, não como praticante. Como verificamos que alguém aprendeu a filosofia de Sócrates? Ora, é necessário que uma tal pessoa entre na conversação e se utilize do método do elenkhós para a pesquisa conjunta com os que também estão na roda. Um expert em contar sobre Sócrates pode se abster disso, mas, nesse caso, poderíamos ficar com dúvidas se o que ele está falando é ou não “só da boca prá fora”.

O que estou falando nada tem a ver com a distinção entre prática e teoria. O que estou falando é sobre a burrice do estudante brasileiro e de seu professor, por razão de background cultural. Somos um país que ainda não sabe aprender a aprender. Somos um país em que, por conta da escola não mudar hábitos de modo radical, elas se mostra frágil. Assim fazendo, conquista os incautos para a ideia tola de que se pode melhorar, como país, optando pelo autodidatismo. Não podemos melhorar assim. Nenhum país fez essa opção. Hábitos se mudam por aprendizagem de comportamentos e por treinamento. Só a escola tem um plano ascético para tal em termos de política educacional, em termos de ação coletiva e não de remendo individuais e particularizados. Em termos pedagógicos individuais, aqui e ali o estudo solitário (não o autodidatismo, que é praticamente impossível), em níveis que não o ensino básico, pode ajudar um ou outro. Alguém que passou pela escola pode, com os instrumentos que ganhou, fazer um estudo semi-autodidata. Mas, em termos de formação de um país, o aprendizado precisa ser o aprendizado que faz alguém como o Curupira sair andando com os pés para a frente. É necessário, no aprendizado, que se forme uma espécie de “segunda natureza” no aprendiz. Só então podemos dizer que a tal educação funcionou. Fora isso, dizemos o que se dizia no passado: educação de verniz.

Os brasileiros, nós todos, sabemos pouco a respeito disso. E por isso vamos continuar sempre achando que podemos ser máquinas de repetição, de um lado, ou então gênios (autodidatas) incompreendidos. Quando os brasileiros perceberem que alguém mostra que aprendeu ao mostrar que adquiriu um hábito novo, então estaremos mudando mesmo a educação brasileira e também o Brasil. Claro que isso depende, antes de tudo, de atrair para o magistério as melhores cabeças, e isso depende de ampliação do salário do professor de modo que a profissão volte a ser de fato uma profissão. Se dermos esse passo, será fácil depois encontrar entre os professores os que saberão que ensinar é mudar hábito.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 04/10/2016

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20 Responses “Por que os jovens brasileiros são burros? São mesmo?”

  1. denis
    27/11/2016 at 20:31

    O brasileiro é BURRO MESMO BURRO PRA KRALHO, EU DESCONFIO CERCA DE UNS 90% , PREGUIÇOSO, INVEJOSO, METIDO A ENTENDIDO DE TUDO… É UMA PORRA MESMO, SQUI NO BRASIL SE O KRA E SERVENTE JA SE ACHA QUE É PEDREIRO SE É PEDREIRO PENSA QUE ENGENHEIRO , HUMILDADE 0 .

  2. denis
    27/11/2016 at 19:55

    os brasileiros na sua imensaaaaaaaaaaa maioria são burros sim mtoooooooooossssssssssssss burros, eles não entendem e querem se fazer de entendidos da um ódio tremendo e extramamenteeeeeeeeeeeee invejososssss, e preguiçosssssssss, querem tudo facil

  3. 09/10/2016 at 14:39

    Caro professor, o senhor critica o autodidatismo, e com uma rara acuidade. Porém, nesse universo de “boçais”, não há nenhuma exceção que fuja à regra? Especialmente no campo das Humanidades. Arriscaria, do alto da minha ignorância, um nome bastante famoso: Augusto Comte, como o senhor bem sabe, de vasta influência no Brasil e América Latina nos séculos XIX e XX. Sim, Comte, tão impimpiedosamente atacado pelos marxistas tupiniquins. Simplificando: o filósofo francês, no decorrer de toda sua vida, compreendeu genialmente a realidade político-social do seu tempo, apreendendo e aprendendo tudo sozinho, para além das influências que recebera.

    • 09/10/2016 at 14:55

      Não, dos grandes pensadores nenhum é autodidata. Alguns não passaram por escolas formais, mas tiveram alguma escola e, no específico, tiveram uma confraria.

    • denis
      27/11/2016 at 20:01

      NÃO EXISTEERERRREEEEEEEEEE AUTODIDATISMO, SEJA HUMILDEEEEEEEEEEEE PORRASASAAAAAAAAAA,SUA ANTAAAAAAAAAAAAAA, QUEM ESCREVEU O LIVRO QUE VC COMPROU? ALIENIGINA? KRALHOOOOOOOO, O VIDEO QUE VC VIU ? FOI ASSOMBRAÇAO , MAS QUE BURRICE PORRAAAAAAAAAAAAA! O BRASIL TA FUDIDO MESMO!!!!!!!! MAS QUE MERDA

    • denis
      27/11/2016 at 20:05

      NAO EXISTE AUTODIDATISMO PORRA!! SEJA HUMILDEEEEEE KARALHO!! QUEM ESCREVEU O LIVRO FOI ALIENS??? E O VIDEO ASSOMBRAÇÃO??? PORRA MANO QUE DESGRAÇA! O BRASIL TA FUDIDO MESMO!!!

  4. Edielson
    06/10/2016 at 00:19

    Bom texto. Entre os dois modelos eu prefiro o americano. Gostaria que você me explicasse, porque uma pessoa que se instruí por si, reinventaria o conhecimento? Penso, que ninguém e autodidata para sair da ignorância, da mesma forma que ninguém é sábio por ser sábio. Por que o professor não aponta para o progresso, quando discutir educação não é a sua lisura? A resposta para esse edema da educação é: O melhor aluno e autodidata.

    • 06/10/2016 at 14:07

      Edielson o melhor aluno é o que é o que conversa e discute com o professor.

  5. Valmi Pessanha Pacheco
    05/10/2016 at 15:39

    Prof. PAULO
    Tanto na Europa como nos EUA o magistério continua muito respeitado e o reconhecimento e recompensa, entendido como faceta da Administração de Pessoas, considerado na sua importância.
    Respeitando seu ponto de vista entre as duas pedagogias do aprendizado, penso que os filósofos behaviouristas e pragmatistas americanos influenciaram muito o “american way of life” que tornou essa grande nação de imigrantes, a despeito de eventuais incompreensões e aspectos culturais e sociais até mesmo reprováveis, numa das maiores democracias até hoje construídas.
    Quanto ao chamado autodidatismo, no fundo, no fundo, nada mais é que uma grande demonstração de arrogância.
    Excelente seu texto.

  6. Gustavo
    05/10/2016 at 09:05

    Gosto de pensar que esse texto foi escrito porque o seu daimon não te deixou em paz depois dos comentários dos defensores do autodidatismo em um texto anterior (não que você deva satisfações a quem quer que seja, mas como filósofo talvez se sinta incomodado com a ignorância). Naquela ocasião, ficou uma sensação de que algo ainda precisava ser explicado. Agora está claro, quer dizer, o que para mim era como uma intuição, agora se confirmou.
    As pessoas olham para os “gênios autodidatas” da humanidade e talvez pensam que eles tiveram que reinventar a roda a cada vez que quiseram andar de bicicleta. Não imaginam que por baixo da ponta do iceberg do semi-autodidatismo há uma sólida cultura escolar, uma práxis fundada na convivência, na pesquisa em conjunto, todo um ethos e um pathos que formam uma base.
    Como você bem escreveu, nos falta background.
    Me lembrei de quando vi o filme Whiplash – que trata da história de um garoto que decide ser “O” baterista do século. Naquela ocasião, ao final do filme, pensei: apenas pode subverter as regras quem as conhece de trás para frente, a superação dos limites só acontece quando se chega ao limite. Quando todas as dificuldades técnicas são assimiladas e o difícil vira o natural, só aí acontece algo extraordinário, porque já não se sabe mais o que fazer, para onde ir. Só aí o instinto disciplinado emerge fazendo uso de tudo o que a parte racional aprendeu.
    Me parece que os defensores furiosos do autodidatismo põem em suspensão esse último momento do virtuoso que chegou à glória “sozinho” e o louva, jogando fora tudo o que permitiu que aquele momento se atualizasse.

    Obrigado pela reflexão.

    Inté.

    • 05/10/2016 at 10:05

      Gustavo eu escrevo cem vezes sobre o mesmo tema, pegando por diversos ângulos. O autodidatismo é uma bosta, em todos os sentidos. Entendeu ou ainda não?

    • Gustavo
      05/10/2016 at 10:18

      Sim, entendi e concordo com as coisas que você tem escrito a respeito. Em meu comentário eu tentei compreender a perspectiva de quem defende o autodidatismo e como uma pessoa dessas não consegue enxergar para o que o seu texto aponta. É isso.

    • 05/10/2016 at 10:23

      Sim, mas nem sempre escrevo novamente por causa disso. É filosófico isso. Vou cercando o objeto.

  7. Marcio
    04/10/2016 at 15:20

    Por que os velhos brasileiros são tão burros quanto…essa parece a resposta mais óbvia…Legal gosto de ler suas reflexões.

    • denis
      27/11/2016 at 20:42

      burro e vc, de chamar as pessoas de velhos de burros, eles tem mtooooooooooo mais experiência de vida que vc, E lembre-se a vida é um aprendizado entendeu?????

  8. Rebeca
    04/10/2016 at 13:55

    Professor, sei que não é o objetivo do texto mas me serviu pra pensar nas escolas técnicas que leciono.

    Eu explico aos alunos que eles aprenderão na sala de aula e aplicarão no estágio e posteriormente no trabalho. Eles parecem surdos, buscam decorar algumas leis de física e fórmulas mas não conseguem associar à vida profissional prática e à resolução de problemas. Eu tento. Não sei se não tenho feito do modo ideal. Às vezes é cansativo quando as próprias instituições de ensino não se importam muito e acham que nosso trabalho é bom quando aplicamos provas num estilo “europeu” sem nenhuma avaliação de fato sobre como os alunos aprendem. (Obs. Não estou desmerecendo e nem exaltado nenhum estilo porém acredito que a gente precise refletir sobre ambos).
    Por fim, a qualidade dos professores estão caindo. Me sinto meio desrespeitada pois estudei muito e ainda estudo e já vejo colegas sem muito estudo e dedicação lecionando disciplinas essenciais… Pode ser meio mimimi da minha parte, porém tenho visto o ensino descendo ladeira abaixo.

    • 04/10/2016 at 14:03

      Sua avaliação é que é o problema. Faça-os mudar o comportamento. Ponha-os para equacionar e resolver problemas. Ajude-os a “montar” o problema.

    • Rebeca
      07/10/2016 at 14:58

      Professor, não havia pensado por este ângulo. Faz sentido. Obrigada.

  9. Alex Ricardo
    04/10/2016 at 13:36

    A educação de base com qualidade e bem remunerada se torna essencial nesse caso. A efetivação de uma educação tanto política, quanto humanista.

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