Go to ...

on YouTubeRSS Feed

13/11/2019

Por que os professores ganham mal?


É uma tolice tremenda, ou mesmo má fé, insistir na conversa de que professor bom trabalha por amor. A verdade é justamente o contrário: professor bom é profissional, ou seja, não faz do magistério um bico, e por isso mesmo precisa de um salário que permita que ele abrace a carreira. Todos que falam que há países que desenvolveram sua educação pública sem bons salários para seus professores ou mentem ou não sabem de nada. Não raro, são paus mandados.

O nosso professor, nos primeiros anos de trabalho, tem um salário que fica entre 1.500 e 800 reais no ensino básico, enquanto que o salário médio do brasileiro com igual escolarização, também no início de carreira, é de 4.500 reais. A diferença é muito grande. Isso torna a carreira do magistério pouco atrativa e, enfim, incapaz de segurar as melhores cabeças, as pessoas que passaram com folga nos concursos. Faz com que os que ficam, se são bons, se tornem revoltados, tristes, desmotivados por não poderem viver inteiramente do que já foi, no Brasil, uma verdadeira profissão: o magistério.

O tempo corre e nada muda. Os governantes, em época de eleição, falam que farão da educação uma prioridade e reconhecem que o salário do professor, do modo que está, não é capaz de sustentar um profissional que possa efetivamente ser profissional do magistério. Mas os mesmos governantes, sem pressão da sociedade, logo depois das eleições esquecem tais promessas antes que quaisquer outras.

Ora, por que nossa sociedade é incapaz de exigir de seus políticos a ampliação do salário do professorado? Por que os governos podem chegar a pensar corretamente sobre pedagogia, mas nunca levam adiante uma política educacional puxada por uma boa política salarial?

Creio que a questão seja  de como que os adultos, em especial políticos e governantes, se imaginam diante da figura do professor, considerando que uma tal figura é a testemunha de sua infância. O professor é aquele que não só deu regras que não foram cumpridas, mas que, se não se responsabilizou pela punição, ao menos esteve presente naquela situação em que todos nós, mais tarde, não nos orgulhamos de ter vivido. O professor é aquele cuja presença nos faz sentir como estando diante de nossos pais capazes falar de nossas travessuras, erros, vergonhas e faltas do passado. Não temos que ampliar salários para essas testemunhas – é o que percorre quase que de modo subconsciente nosso cérebro. Qualquer um de nós pode se tornar um mandatário na educação tendo essa indisposição diante do profissional do magistério.

Caso eu não lance mão dessa hipótese esquisita, o que pode restar para explicar a visível má vontade de todo tipo de autoridade diante do professor?

Talvez esta situação seja universal no ocidente. Agora, se ela é válida,  podem acreditar: trata-se de algo com forte intensidade no Brasil. O brasileiro não gosta de ser menos que gênio. Ele nunca dá os créditos de sua aprendizagem aos professores, nominando-os. Ou quase isso. Não raro, o brasileiro acredita poder se dizer autodidata. Fala com orgulho essa bobagem que, certamente, não ocorreu.,

Nossa sociedade não gosta de professor. Há algo na autoridade desse personagem que incomoda o brasileiro, que, uma vez governante, age ou com desdém ou com ódio do mestre. Nunca vi um político tomar para si a tarefa de resolver o problema salarial dos professores. Nunca vi mesmo.

Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Tags: , , ,

26 Responses “Por que os professores ganham mal?”

  1. João Guimarães
    15/10/2016 at 18:10

    Que acha daquele célebre comentário do Darcy Ribeiro, de que a crise da educação no Brasil não é crise, mas um projeto? Ele parece sugerir que há algum tipo de “conspiração” para manter a desvalorização e desqualificação do ensino no país. Que acha?

  2. Diogo Marques
    19/04/2015 at 21:21

    Caro Ghiraldellli;
    Após muitos anos compartilhando de sua mesma teoria a respeito da educação brasileira, acreditando, piamente, que os professores eram totalmentes injustiçados com salários ruíns e condições indignas, eis que,após vividas algumas experiências mais, consegui chegar à conclusões um pouco diferente:”Ganha mal, professor com pouca qualificação.” – é extremamente impressionante que se você,aleatoriamente, colocar no portal da transparência nomes de professores, até mesmo da educação fundamental e média, verá “horas/aula” na faixa de 120/150, como é o caso do próprio Coluni UFV. Outro fato é que, infelismente, as facilidades nos cursos de graduação contemporâneos promoveram um verdadeiro atentado ao pudor. As pessoas escolhem aleatoriamente os cursos que querem sem analisarem, e até mesmo, pensarem na escolha que estão tomando, tornando-se profissionais não realizados, e como a essa altura você deve ter percebido, os cursos de graduação em licenciatura são, em grande parte das vezes, os que tem menores nota de corte.

    O Brasil precisa sim de uma reforma educacional, mas para isso precisa de professores mais capazes.Pessoas que DECIDAM realizar seus cursos desde o início, e que realmente queiram se torar disseminadoras do saber.

    ESPERO QUE MEU COMENTÁRIO NÃO SEJA MUITO ÁCIDO

    • 19/04/2015 at 23:52

      Esse seu comentário é um pouco estranho. Em nenhum lugar do mundo você consegue ter bons professores para depois pagá-los bem, você tem de pagar bem para atrair boas cabeças e assim ter bons professores, não entender isso é muito, muito mesmo, doido! Ah, a palavra “infelizmente” é com “z”.

  3. Wender de Oliveira Silva
    14/09/2013 at 00:52

    Paulo a estimativa de investimento em educação básica para 2013 é de 116,77 bilhões existem 2,8 milhões de professores na educação basica. Esse dinheiro sendo divido pelo número de professores dá 3475,30 mês. Onde vai parar esse dinheiro que não entra no bolso do professor?

  4. wal
    26/08/2013 at 03:06

    Pra que descutir uma consequencia? Há! pq não temos isso, pq não temos aquilo? Pq existe currupção, pq o sus não funciona? Etc, etc, etc. Não te parece ser outra das infinitas consequências? Paulo, eu sou pobre e ja fui mais pobre, um dia precisei do sus e percebi que não posso depender dele.Não reclamei com ningém. Me esforcei e hj já poderia pagar pela consulta que esperrei 6 meses. Vou me esforçar mais,pra no futuro poder pagar uma boa escola pros meus filhos.Se cada um fizer isso tudo melhora como um todo. Acho que o povo brasileiro, em uma analize genérica, não quer pagar o preço que o desenvolvimento cobra. E todos problemas sociais são reflexo disso.Gostamos de fazer o necessário para viver, mas não o que é preciso para ir além.Antigamente tínhamos desculpas.Informação e condições tem de sobra, o que falta é impulço pessoal.Não é só a imagem do professor e o que ela representa que desagrada o espirito brasileiro, mas tudo que remete ao esforço e a privação dos prazeres. Qualquer idiota sabe; se a questão é o desenvolvimento da sociedade o problema esta dentro de cada um de nós.Eu quero o melhor dos outros mas não quero dar o melhor de mim.Faça cada brasileiro entender isso, agir de acordo, e a sociedade vai melhorar como um todo. Mas que bobagem, que raciocinio defazado, a coisa deve ser mais complicada! Cadê as formulas?

  5. Ecomomista
    24/08/2013 at 21:40

    Mas o professor não pode ganhar mais do que o índice anual da inflação. Eles fazem tempo extra porque quer. Os alunos hj são muito rebeldes e destemidos. A educação vem primeiro de casa. Professor não é babá e não deve valer mais do que um mecânico.

    • 25/08/2013 at 03:21

      Economista, você não chegou ainda no século XVIII. Ou seja, você ainda não ouviu falar da escola pública universal.

  6. Fabio Nobre
    18/08/2013 at 21:05

    Não é por isso que os professores ganham mal, é uma lei muito simples oferta e procura, veja meu video.

    http://www.youtube.com/watch?v=Y3HJ-rb2pxc

    • 19/08/2013 at 00:34

      Fábio, meu caro, no caso brasileiro, não é. Acredite, você está erradíssimo.

  7. 18/08/2013 at 20:13

    Fabiano quis dizer “revolta CONTRA o professor paternalista”… espero.

  8. LENI SENA
    17/08/2013 at 21:28

    Excelente hipótese professor. Dizem que o conhecimento não tem preço, para o governo não tem mesmo!

  9. Fabiano
    17/08/2013 at 20:43

    Essa provocação é demais! Uma revolta inconsciente do professor “paternalista” como culpa da desvalorização e dos baixos salários de nossos mestres. Uma tese muito mais psicanalítica do que filosófica. É “foda”… “não entendi nada” ou “sou burro demais”… “não sou conhecido” ou mais um jargão que o Filósofo tanto esculacha deverá vir por aí, ou dessa vez será mais criativo.

    • 17/08/2013 at 20:57

      Fabiano, uma revolta do professor? Onde você leu isso?

  10. Rick
    17/08/2013 at 20:37

    “O nosso professor, nos primeiros anos de trabalho, tem um salário que fica entre 1.500 e 800 reais no ensino básico, enquanto que o salário médio do brasileiro com igual escolarização, também no início de carreira, é de 4.500 reais.”

    Salário médio do brasileiro com igual escolarização, também no início de carreira, é de 4.500 reais? Quem dera! Entre 1200 e 1800 reais na média pra início de carreira.

    • 17/08/2013 at 21:01

      Nope! Veja as tabelas novas do IBGE.

    • Rick
      17/08/2013 at 23:16

      Paulo, vc tem link pra essa tabela? Se tiver e puder me passar agradeço.

    • 18/08/2013 at 00:06

      Rick, tem dezenas delas por aí. Além disso, as TVs também publicam. Jornais então, nem se fale. As coisas às vezes não bate porque pega-se períodos diferentes como sendo “início de carreira” .Mas o dado é esse e por isso não há ninguém na escola que passou no concurso. A evasão é de 80% dos primeiros colocados.

  11. Thiago Soares
    17/08/2013 at 20:00

    Talvez o trabalho parlamentar de uma figura pública como Cristovam Buarque seja um alento, mesmo que insuficiente, creio…

  12. 17/08/2013 at 18:01

    Paulo,

    como o professor vai conseguir ter uma boa imagem em uma sociedade onde o conhecimento não é admirado e incentivado? Se pais, amigos, vizinhos e meios de comunicação colocam sucesso e dinheiro à frente de conhecimento, o que podemos esperar? Fico muito preocupado com essa sociedade onde os adultos têm pouco a ensinar.
    E se adultos têm pouco a ensinar, como eles poderiam dar importância a quem se destina prioritariamente a ensinar?
    Eu ensino pessoas com idade entre 20 e 35 anos, e vejo a mesma falta de comprometimento com o conhecer e com quem os ensina que vejo nas crianças e adolescentes.
    Concordo que a sociedade não gosta de professor, mas tem sido também incentivada a não gostar do conhecimento.

    • 17/08/2013 at 21:02

      Renê, depende do conhecimento, e isso por vários motivos. Por exemplo, a maneira como se escolhe a professora dos primeiros anos é um, em geral é a garota que fugiu das matérias científicas ou mesmo do saber em geral .

  13. gil
    17/08/2013 at 17:55

    o que penso é que falta a tal da vontade política mesmo. professores bem qualificados, competentes, realizados e decentemente remunerados trabalhando bem, numa escola de qualidade, com recursos, cumpririam seu papel de formar CIDADAOS capazes, críticos e conscientes etc. quem os quer? ou melhor, quem NAO os deseja?

    • 17/08/2013 at 21:02

      Gil, “falta de vontade política” é o que? Nada! É uma frase vazia. É como dizer que o medo é falta de coragem.

  14. Daniel Frias
    17/08/2013 at 15:38

    Olá, Paulo, interessante a sua hipótese. Eu mesmo entrei para a prática docente no ensino público (médio) há pouco tempo e já estou pensando em migrar para a iniciativa privada ou, então, em pouco tempo, para a docência do Ensino Superior. Isso se eu não me desvincular totalmente da Educação! De fato, essa má vontade dos políticos em relação à Educação parece ter motivações internas, psicológicas dos mesmos. A figura do professor aparece como uma autoridade pronta para mostrar nossos erros e, dependendo do caso, a nossa inaptidão, incompetência. Nessas situações, se tivermos uma boa experiência com nossos professores nos anos básicos, podemos perfeitamente reconhecê-los como uma autoridade pronta para iniciarmos uma conversação interessante e desenvolvermos mais ainda a nossa intelectualidade. Já, se tivermos uma má experiência, pode ocorrer o efeito oposto: assim que ganharmos certa titulação, status social e político, podemos querer perseguir os docentes como uma forma de querermos nos vingar deles, um desejo inconsciente. Saberíamos, no fundo, que a figura do professor é aquela que nos reprimiu, apontou nossos erros e, se deixarmos, eles o farão de novo hoje, depois de estarmos velhos e “formados”. E sabemos que boa parte dos políticos é incompetente nesse quesito acadêmico, já que ganham bem sem terem precisado estudar tanto e, não obstante, acreditam ser intocáveis. Eu mesmo, por enquanto, não consigo imaginar outro fator para tamanha falta de interesse de nossos políticos para com a Educação.

    • 17/08/2013 at 16:35

      Talvez tenha algo de verdade na minha idéia, Daniel. Afinal, é uma incógnita essa situação de tantos anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *