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19/11/2018

Pensar (filosoficamente) é errar


[Artigo destinado ao público em geral]

Pensar é refutar-se. Quem afirma suas crenças, não pensa. Ou pensa apenas em um sentido restrito do verbo “pensar”, que é o de criar representações. O verdadeiro trabalho do pensamento é o de arrumar estratégias de colocar-se no chão, de perder a razão, de por-se na incômoda posição de não ter mais defesa.

Portanto, pensar não é duvidar. Pensar é conseguir criar armadilhas para as certezas e dúvidas, é jogar-se na perdição, no desalento, no desespero. Pensar é fazer doer o que há para doer em si mesmo. Pensar é descobrir como se colocar na berlinda. Pensar é correr risco de trombar e de fato trombar. No pensar não há vitória. Por isso, filosofia não é debate, mas investigação.

Os humanos acreditam que pensam, mas o que fazem é a atividade do pseudo-pensamento. É a pseudo-natação de quem dá braçadas fora da água e, por isso mesmo, está sempre a salvo de qualquer perigo de afogamento. Pensar exige o colocar-se à prova. Isso é para poucos. Pouquíssimos.

No mundo atual o que se ensina na escola, por razões óbvias e por uma didática que parece não poder se diferente, é a atividade do acertar. Mas acertar o que? Acertar a resposta, dar a resposta certa. Isso não exige pensamento. O pensamento é exigido se somos colocados diante da tarefa de nos decepcionarmos com as respostas certas. Decepcionar-se com respostas certas é errar. A única didática de uma boa escola filosófica é aquele capaz de dar as melhores notas aos mais capazes de errar, aos produtores de auto-desespero. Esses estudantes estariam de fato tão desesperados que, ao ganhar a melhor nota, não iriam mais ligar, não iriam achar que foi bom, pois estariam demais incomodados por terem estado errando.

Vejamos um exemplo. Digo: acredito piamente que “todos os homens são iguais perante Deus”. Eis aí uma resposta certa para quem pergunta se, diante do Deus judaico-cristão, há ou não diferença entre os homens. Mas essa resposta não é pensada. Pensar é imaginar um meio racional de fazer uma resposta assim se tornar uma resposta errada. Não estou colocando aí o pensamento à serviço da dúvida. Volto a dizer, não se trata de duvidar. O que faço é realmente encontrar um meio de, com essa resposta dada, entrar pelo cano e me ver errando. Se não consigo criar caminhos para eu mesmo naufragar, como posso querer se um bom general que capaz de, na guerra, naufragar o navio alheio? Não entender de guerras e não ter afinidade com o pensamento.

A filosofia é o local do erro. As outras áreas do saber, as outras “ciências”, o conhecimento alheio ao filosófico, cria o espaço do acerto. Não se pode errar ao se propor ir à Marte. Não se pode errar ao se propor criar uma Constituição. Não se pode errar ao elaborar uma vestimenta para esse verão. Mas devemos errar ao propor uma teoria sobre razões para ir à Marte. Devemos errar ao propormos um procedimento para confecções de uma Constituição. Temos de cometer um tremendo erro ao fornecer um motivo pelo qual é necessário, nesse próximo verão, usar uma tal vestimenta proposta. Nos acertos fazemos ciência. Nos três erros subsequentes fazemos o exercício do pensamento e, com alguma sofisticação ditada pela consulta à tradição inaugurada por Platão, fazemos filosofia.

Se assim é, o professor de filosofia cabe na escola, mas a escola precisar adquirir a inteligência de saber que ele vai incentivar os alunos à frustração. Ele vai gerar alunos que erram. Ele vai fazer da sua sala de aulas um campo de pessoas com êxito em colecionarem fracassos. No jogo de “dar e acolher razões”, que é o jogo da filosofia, é exercício do pensamento dar razões que não satisfazem e receber razões que podem destruir aquelas razões que satisfazem. Pensar é estrepar-se nesse jogo, e recomeçar.

Os faladores por aí não estão dispostos a pensar. Eles são gente que acerta.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS: este artigo é uma profissão de fé, não é pensamento. Precisava dizer?

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11 Responses “Pensar (filosoficamente) é errar”

  1. Joao bosco
    29/04/2018 at 08:15

    Ou será que eu estou falando de duas perspectivas distintas?

  2. Joao bosco
    29/04/2018 at 08:06

    Entendo perfeitamente que a filosofia ao espaço do erro, conceitualmente porque a filosofia é o espaço do erro? Para que serve o erro filosófico? Para depois da investigação encontrar solução? Uma vez você disse que a filosofia existe para resolver problemas…

    • 29/04/2018 at 10:38

      Em filosofia podemos errar, aliás, temos de errar. Isso no sentido pedagógico e no sentido filosófico mesmo. A filosofia não é positiva, positiva é a ciência.

  3. Hilquias Honório
    30/12/2017 at 03:22

    Agora ficou muito mais claro aquele texto:
    “Na ciência, você não pode errar.
    Na literatura, não existe o erro.
    Na religião, você sempre está certo.
    A filosofia é o espaço do erro.”
    Confesso que, hoje, lendo o texto pela segunda vez (estava distraído da primeira), entendi finalmente esse conceito. Dá certinho. Muito bom!

    • Hilquias Honório
      30/12/2017 at 03:24

      Esse trecho foi libertador:
      “Não estou colocando aí o pensamento à serviço da dúvida. Volto a dizer, não se trata de duvidar. O que faço é realmente encontrar um meio de, com essa resposta dada, entrar pelo cano e me ver errando.”

  4. Donald Asno Trump
    29/12/2017 at 12:47

    Well, tá muito frio aqui, podia vir um pouco desse aquecimento global… Ou isso ou podíamos abrir um portal para o inferno; dizem que é quente por lá!

  5. Orquidéia
    29/12/2017 at 08:27

    Feliz ano novo a todos,feliz ano novo ao vc,prof.Ghiraldelli_ e à família.

  6. Tony Bocão
    28/12/2017 at 09:29

    A palavra do ano pela oxford dictionary é a pós-verdade, uma doença do pensamento que afasta definitivamente o exercício filosófico, objetivando a verdade dogma, a verdade plena. O que me recorda Nietzsche, quando diz que as pessoas não se importam em serem enganadas, mas apenas se a mentira à elas trouxeram prejuízo. O Pensar colocando à prova na era do pós-verdade se torna um esporte radical, afinal é argumentar contra o absurdo e seus capangas. (Penso no Olavão como centro germinal desse movimento da era da confusão, desculpe, gosto de pensar na historiografia). Um ótimo ano novo a todos!

    • Tony Bocão
      28/12/2017 at 09:31

      Há e claro… pós-verdade como verdade argumentada em fakenews!

    • 28/12/2017 at 12:20

      Olavão causa menos mal que Pondé e Karnal.

    • LMC
      30/12/2017 at 12:55

      Olavão é igual ao Pondé.
      A diferença é que ele mora
      fora do Brasil.kkkkkk

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