Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

26/04/2017

Os estudantes de São Paulo e de Goiás e o auto-engano


Os estudantes de São Paulo conseguiram derrotar Alckmin em uma primeira instância. Ele cedeu, mas já está colocando as manguinhas de fora de novo.

Por outro lado, enquanto escrevo, já são 21 escolas paradas em Goiás, não sabemos se lá a vitória será como aqui. Os casos são diferentes, mas a forma de luta e certos objetivos dos estudantes são próximos.

No caso paulista a disposição foi contra a “reorganização do ensino” do governador, que iria fechar escolas. No caso goiano a disposição é contra a entrega das escolas para a terceirização, em geral apontando como gestora a Polícia Militar. Enquanto o Brasil todo, o Brasil culto, pede a desmilitarização da Polícia Militar, Goiás entrega a própria educação a uma corporação desgastada.

Nos dois casos, o que nós adultos com uma certa consciência do problema e com traquejo em lutas a favor da educação pública, não conseguimos fazer para ajudar os estudantes, é bem claro: sabemos louvá-los como garotinhos prodígios, no estilo “vai molecada!”, mas não temos lhes dado nenhum saber técnico de modo a torná-los mais eficientes quanto aos objetivos que desejam.

As esquerdas que aparecem aqui e ali no interior do movimento, querendo dirigir a coisa, voltam a insistir na forma vertical de organização. Os estudantes mantém a forma horizontal. Os professores de esquerda que apoiam os estudantes às vezes falam em “privatização”, ensinando errado os jovens. Esse não é o objetivo dos governos. Ninguém consegue no momento entregar escolas para grupos privados que queiram ter lucro. Escola não dá lucro. Foi o tempo! E agora em no Brasil em crise, a tendência é o inverso: a classe média tende a voltar para a escola pública.

Os adultos que aparecem no movimento ensinam errado, também, ao louvarem os garotos pela militância, não pelos objetivos. Tudo bem, os estudantes já mostraram competência na ocupação. Mas já deu isso de dizer “nossa, a geração nova vai mudar tudo etc.”.

Não raro, em alguns lugares alguns professores jovens indispõem os estudantes contra a direção da escola, até contra professores, fazendo de uma luta boa apenas um conflito de adolescentes contra as autoridades da escola. A conversa da “escola autoritária” ganha mais espaço do que o necessário. Não raro, quem leva adiante tal inchaço temático são professores que até hoje não largaram o movimento estudantil ou que, no passado, não conseguiram, eles próprios, satisfazer seus desejos de “agitação”. São poucos, são bem chatos, mas existem e às vezes são bons no início do movimento, se tornando um cancro depois. Às vezes já estão até na Universidade, como professores, e fazem da agitação dos estudantes um fenômeno de estudo, confundindo sociologia com desejo de militância de esquerda etc. Esse tipo de gente não se interessa pela educação, se interessa pelo movimento enquanto movimento.

Os problemas são maiores que os que podem ser colocados por essa gente amante da militância. Primeiro, não há privatização nenhuma em curso. Em São Paulo o governador tem feito ETECs. O que ele quer é mudar o rumo do ensino. Quer tornar o ensino público algo menor, mais técnico, e quer pegar as escolas bem localizadas para utilizar na barganha com o setor imobiliário. Não é desejo de privatizar escola, é desejo de trocar patrimônio público por dinheiro grosso e apoio político para ser presidente. Em Goiás os motivos são econômicos também. O governo quer antes de tudo economizar com educação. Quer mesmo é se livrar dela. Além disso, compactua com uma visão que endossa certa aspiração nacional por qualidade de ensino, que é confundida com disciplina militar e com o mito tolo de que escola militar é boa. As escolas federais dos Institutos é que são as melhores, estão agregadas ao sistema universitário federal. São boas porque pagam melhor seus professores. Funcionam num regime quase de College.

Quanto às lutas de fundo econômico, é necessário encontrar instrumentos jurídicos para não deixar os gastos com educação diminuírem, não deixar escolas serem fechadas de modo algum, e não patrocinar qualquer forma de terceirização que não venha em consenso com alunos e professores, e que não fira preceitos constitucionais. Mas há outros problemas ainda. Há questões de ordem pedagógica que precisam ser postas na mesa.

Primeiro: é um erro achar que diretor de escola que não administra a escola como um todo terá a vida facilitada e a escola melhorada. Não existe separação entre administração da escola e administração pedagógica na escola ou da escola. Esse é o caso do de Goiânia. A secretaria da educação vende o peixe da separação, dizendo que o educador não sabe administrar escola, e que empresário sabe. Mas o modo como o empresário “sabe”, ela não diz, não é o modo que serve para uma escola. Escola-empresa é um conceito desastrado.

Segundo: no caso de São Paulo, é um erro o estudante achar que ele pode afrontar um diretor que é contra o movimento, e que esse diretor sai ileso diante de uma pressão da secretaria da educação, que pode inclusive destruir o profissional segundo a lei que tem na mão. Ou seja, pode destruir uma vida. O diretor e o professor, por mais reacionários que sejam, precisam ser ganhos para a conversa.

Terceiro: é necessário notar que o Brasil é o terceiro país em gasto em educação no mundo, mas é um dos últimos no quesito salário do professor. Então, o estudante deve começar a perceber que ele, se não está tendo boa educação ou diálogo com o professor ou mesmo um incentivo, é por questões de prioridade no gasto educacional. Ele não está com a elite dos professores do Brasil. Não deve chutá-los por conta disso, mas deve entender que precisa lutar para que os melhores, os concursados em primeiros lugares, fiquem na escola.

O que temos na educação hoje é um ciclo ruim: o professor mal remunerado é o que fica na escola, o melhor vai embora, então, ficando o ruim, os alunos e pais reclamam dele, e quando este faz greve, não recebe apoio de alunos e pais, e então perde na luta salarial; assim, novamente ficam na escola os que não têm melhor opção. Reinicia-se o ciclo desvalorização econômica—aula ruim—desvalorização social—desvalorização econômica. É necessário quebrar esse ciclo. Que tal a pressão para que o governo forneça bolsa para os professores estudarem em sabáticas, incentivando-os, assim, a permanecerem na escola. Bolsas que aproximassem o salário do professor ao salário do professor dos Institutos Federais. Que tal um sistema de convênios entre estados e união, para esse tipo de “federalização” da educação?

Desse modo, o movimento estudantil de tomada de escolas é inútil se não atentar para o fato de que nada vai mudar, nada vai melhorar, se não puder quebrar esse ciclo perverso. A pauta de reivindicação dos alunos precisa retomar a pauta do salário de seus mestres, nos termos sugeridos acima. Sei que é difícil que estudantes e lideranças caminhem por essa via. Mas é ela a necessária. (veja abaixo os quadros).

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

tributo

gasto com educação

salario-professores-comparacao-brasil-outros-paises4

Tags: , , , ,

7 Responses “Os estudantes de São Paulo e de Goiás e o auto-engano”

  1. Alexandre Aleixo
    20/12/2015 at 11:18

    Caro professor Paulo Ghiraldelli, a dúvida que tenho não é diretamente relacionada ao post, porém venho manifestá-la aqui.

    Estive lendo um pouco mais da doutrina pragmatista e ela me pareceu (se for possível enquadra-lá) como “de direita” muito mais que de “esquerda”. Até mesmo por sua origem nos EUA era de se esperar algo mais desse lado. O que me vem a mente é:a como superar essa aparente contradição entre um doutrinador seguir essa corrente e ao mesmo tempo ser de esquerda. Possíveis respostas são:

    1 – O pragmatismo é uma abordagem neutra que não pende nem para a esquerda nem para a direita e eu apenas entendi errado.

    2 – Realmente pende mais para a direita no entanto pode sim ser interpretado pela esquerda.

    3 – A contradição persiste mas ela pode ser elidida de alguma outra forma.

    • 20/12/2015 at 11:32

      Filosofia é uma coisa, política é outra. Um dos maiores erros é sobrepor política na filosofia, ou lê-la sobre crivo político. Talvez o erro mais estúpido que se possa cometer. Leia: “Richard Rorty” (Editora Vozes). OK? Depois “Pragmatismo e política” (Martins Fontes). James, Dewey, Rorty e tantos outros pragmatistas foram pessoas de esquerda.

    • Victor Hugo
      21/12/2015 at 13:36

      Paulo, a reivindicação dos estudantes aqui em Goiás já não é mais tanto sobre a militarização de algumas escolas, mas sim a entrega da gestão de TODA a rede estadual para Organizações Sociais(OS), estão sendo qualificadas OS que lidam com saúde, segurança, ou seja, que não sabem nada de educação. O principal autor que está dizendo que estamos passando pelo processo de privatização da educação em Goiás, é o Luiz Carlos de Freitas, em palestra aqui em Goiânia ele disse que essas OS são para abrir um mercado de gestão de escolas, para que no futuro se repasse para iniciativa privada de fato.

    • 21/12/2015 at 17:12

      Luiz
      QUANDO EU ESCUTO um energúmeno do PCdoB dizendo que o governo (qualquer um, no Brasil) quer privatizar a educação, então eu realmente entendo a razão dessa esquerda estar aí, diluindo todos os ideias de justiça social por meio de governos extremamente burros, os do PT. Quando o cara hoje acha que algum empresário quer ter escola (de ensino médio) para ter um negócio mesmo, uma empresa de ensino, ele é um burro. Escola não dá lucro. Agora, nessa fase, menos ainda. O fluxo da classe média é nada direção contrária da escola paga. Aliás, se for para lavar dinheiro, é melhor outra coisa. Universidade até é bom para isso, mas há coisa muito melhor: mercado de quadros, editoras e cavalos. Quando o governo começa a empurrar a escola para os homens de negócio o que ele está fazendo é a tentativa de se livrar da educação. Os que recebem a escola sabem que não vão ter lucro, querem os espaços físicos e querem os mecanismos de emprego associados aos mecanismos para fazer política por meio de controle de rede de funcionários etc. O Brasil NAO TEM mercado para a educação enquanto educação. Mas a esquerda precisa falar em privatização, pois essa palavra eles associam a “neoliberalismo”, e tal palavra é o que aprenderam. A esquerda só sabe repetir. Repete então. Fala sempre a mesma coisa.

  2. Hugo Lopes
    19/12/2015 at 22:49

    Os alunos fazem algo de diferente, algo que não faziam a algum tempo. Mas não conseguimos olhar para eles de forma diferente. Continuamos querendo olhar com os mesmos olhos de sempre, daquilo que está desgastado.

  3. Nédi
    19/12/2015 at 22:12

    Olá, Paulo. Sou professor da rede publica do Estado de São Paulo, tenho sentido na pele a desvalorização e falta de incentivos… por isso, já estou estudando para prestar outros concursos fora da educação. O maior problema é convencer a minha alma, que é fascinada pela docência…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo