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21/11/2018

Prefeito arranca no dente a orelha do professor


Zé Resende (PPS) é o prefeito de Boa Hora, no Piauí. Ele realizou diretamente e de modo mais original aquilo que Alckmin, Serra, Richa e outros vivem fazendo “civilizadamente”. O pessoal do sul manda bater em professor, mas Zé Resende resolveu ele mesmo dar um corretivo no mestre. Sim! Em uma festa em escola, questionado pelo professor a respeito de três meses de atraso no salário, Zé Resende pulou em cima do homem e mordeu-lhe uma orelha, arrancado metade da peça que, depois, foi cuspida. 

Serra, Alckmin e Richa gostariam de fazer isso. Aliás, creio que mais de 80% da população brasileira gostaria de fazer isso, sangrar um professor assim.

O Brasil é o terceiro país do mundo em investimento em educação. Mas se mantém estagnado na área, pois é um dos últimos quanto a valores em salários para o professor. Qualquer greve de professor atrai imenso ódio da sociedade brasileira. E toda vez que algum governo faz um gesto que diz ser de melhoria no salário do professor, as exigências são inauditas, nunca postas para nenhuma outra categoria. Os políticos seguem nossa sociedade, que tem um profunda mágoa com a figura do professor.

O professor brasileiro não é menos ou mais autoritário que qualquer outro professor. Mas ele é odiado, e isso por que no Brasil ele representa uma autoridade vinda do saber. Nossa população tem mágoa da autoridade que detém saber. Mais mágoa ainda por conta do professor ter não só o saber dos livros, mas o saber a respeito da vida de cada adulto quando este foi criança. Nossa sociedade não é educada por pais e professores em harmônica divisão do trabalho, mas muito mais por professores solitários e abnegados, para quem se entrega um multidão. Os professores são, então, adultos que permanecem como sombra na vida de cada um, como os que pegaram cada um de nós em momentos constrangedores. Como nossa sociedade não tem coragem de assumir erros, sua reação é a de aversão aos que, somente com a presença, lembram cada um de nós que cometemos erros ou faltas infames. “Erros infantis”. Você fez bullying no colega mais fraco. Você enganou a menina. Você roubou o lápis. Você fez xixi na calça. Você mentiu para acusar um colega. Você foi covarde. Você é hoje um sabichão de araque que colou nas provas. Você é … Toda a infância e a juventude não é tomada como infância e juventude, mas como um poço de erros. O professor sabe tudo isso — ele viu! Ele é o que olha para um governador e diz: “putz, como esse delinquente juvenil se tornou governador?” Ou simplesmente isso: “nossa, esse governador aí era um retardado mental em sala de aula”. Isso determina o ódio brasileiro ao professor. Não temos uma cultura de proteção da escola e do professor, ao contrário, temos uma cultura de vergonha pessoal e ódio de quem nos olha como que apontando erros. Por isso, falar em salário de professor no Brasil é tabu. Cobrar salário de autoridade, então, é pedir para apanhar ou ter a orelha arrancada.

O professor tem de o tempo todo pedir desculpas por ter existido como testemunha de nossos fracassos infantis e de nossa mediocridade juvenil. Nos Estados Unidos, tão logo um presidente é eleito, a imprensa corre em busca de seus primeiros professores. Há orgulho de ambos, educando e educador, e eles se encontram em regozijo. Aqui, ninguém ousa fazer isso. Tudo pode ser um imenso desprazer. Aliás, na universidade, são cada vez menos os alunos que cultivam seus professores e orientadores. Uma boa parte não sabe o nome do professor e o que ele escreveu. Não raro, escrevem cartinhas para imprensa, revoltadinhos por terem de estudar! Esses mesmos alunos não se lembram quem os alfabetizou. Somos o país do autodidatismo. É uma vergonha ser autodidata na Europa e Estados Unidos hoje em dia. Mesmo o que são, sempre tentam dizer que poderiam ser melhores se não tivessem tido de ficar sem escola. Aqui não. Aqui até o que fizeram boas escolas se afirmam autodidatas. O importante é que ninguém saiba como fui na infância e na juventude. O autodidata brasileiro nunca o é por falta de escola, mas por covardia, não aguentou a disciplina dos estudos. Esbraveja e esperneia contra a escola, quer reduzir a escola ao “diploma” para afirmar que nunca precisou de tal instituição ou de professor. Mas, ao mesmo tempo, quer posar de professor.

O que ocorreu em Boa Hora, no Piauí, é o que ocorreria todo dia em qualquer lugar se os políticos não contassem com a polícia para bater nos professores e não contassem com eles mesmos para aumentarem seus próprios salários e nunca poder sequer conversar sobre os salários da carreira do magistério.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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3 Responses “Prefeito arranca no dente a orelha do professor”

  1. Melina Leal
    08/05/2016 at 09:02

    É isso. A falta de controle e falta de respeito. Quando não se tem argumentos. É aí? Vai ficar por isso mesmo? Como estou tão descrente da política desse país. Vai dar tudo em pizza. E, bem provável que o nosso governador do Amapá Wakdez Goes, também gostaria de agir assim. Pena!!!! Queremos mais respeito a classe do professor.

    • 08/05/2016 at 10:10

      Leal, não vai dar tudo em pizza. Saiba ver as coisas.

  2. Hugo Lopes
    21/12/2015 at 00:16

    Somos uma sociedade onde o professor não faz mais parte do ambiente social de cada um.

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