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22/09/2017

Nenhum governo quer “privatizar a educação”


NEM ALCKMIN nem governo algum quer privatizar a educação. Ou, dizendo de modo claro: não há uma determinação para isso.

Quando alguém da universidade diz que há “plano de privatização” da educação básica por parte do Alckmin ou de outros governos estaduais, temo que seja um professor de um departamento de educação. Os departamentos de educação das universidades são lugares onde um certo discurso de esquerda, meio manco, se aloja e funciona em sentido exclusivamente retórico e pouco inteligente. O campo de formação de licenciados hoje, no Brasil, não sabe elaborar uma educação que agrupe a leitura dos clássicos e as técnicas de alfabetização e ensino de ciências. E isso é difícil mesmo: a clientela que possuem é a que se sai pior no vestibular. Aliás, infelizmente, a direita se aproveita da incapacidade desses departamentos de educação (e de seus alunos) para dizer que a formação do professor é “muito teórica”, e por isso os professores não sabem alfabetizar. É uma bobagem isso: toda pessoa inteligente que foi alfabetizada sabe alfabetizar e fica melhor se mais cultura tem. Ou seja, em cima do erro da esquerda, a direita faz também seu erro e até leva vantagem (o “muito teórico” para a direita é “eles leem Paulo Freire”!).

Agora, sobre o movimento de ocupação de escolas em São Paulo e sobre o movimento anti-terceirização em favor de comandos militares na escolas públicas, que ocorre na Bahia e Goiáis, a conversa toda precisa ser posta em termos melhores que o tal “medo da privatização”.

Não há que ter medo da privatização. O que ocorre é já pior que a privatização que, enfim, não está nos planos de nenhum governo, menos ainda do governo Alckmin.

No caso de Goiás e Bahia, sobre a militarização das escolas, o que se fez foi ceder aos gostos da população, que aprova tais medidas. A ideia da população é a da ilusão autoritária, bem própria dos nossos tempos. Vivemos uma maré conservadora: “disciplina é o que falta”, e escolas que trata as crianças como soldadinhos vai mostrá-las a disciplina, a obediência aos mais velhos, os valores da família etc. Todos os valores tradicionais devem ser repostos. E aí, por “tradicional”, há enganos: a população quer bons filhos, os militares querem cabeças obedientes. O nome disso é “disciplina”, mas com semânticas diferentes para cada grupo que, não checando os termos sobre o que é pedido, pensam estar falando da mesma coisa. Bons filhos e filhos com cabeças obedientes não são a mesma coisa, ainda que a palavra “disciplina” possa aparecer aí em ambos os casos. Ora, os governos cedem a esse pensamento confuso. Além disso, jogando a escola para os militares, têm a vantagem de se desincumbirem de uma área para a qual não possuem, nos quadros políticos locais, gente para administrar o setor. Sabemos o quanto os partidos atuais estão sem intelectuais filiados. O resultado é o pior: enquanto uma parte da sociedade pede a desmilitarização da polícia, uma outra parte (às vezes a mesma) põe seus filhos para uma formação militar.

No caso de Alckmin e sua “reorganização”, a questão é só um problema de caixa e de diretriz pedagógica estreita. Alckmin quer dinheiro sobrando para atividades de campanha eleitoral, e seu secretário (que coisa feia aquele homem!), vindo de formação tecnológica, está contente com as ETECs crescendo e tendo sucesso entre a população, e não quer de modo algum escola pública que ainda funcione nos moldes relativamente humanísticos. Além disso, claro, o secretário quer ficar de boa com o governador ao mostrar ao chefe que pode economizar. O movimento contrário ao secretário está correto e já é vitorioso na medida em que uniu pais, professores e alunos em favor da preservação de um bem social, a escola pública. Não é necessário que esquerda fique pulando em volta gritando “nossa, viva, é volta do movimento estudantil”. Isso é chato e não tem nada a ver.

Nada de privatização. Nenhum empresário quer investir em escolas. Escolas, hoje em dia, dão prejuízo ou simplesmente reproduzem um esquema de má educação. O investimento não compensa para nenhum empresário. As escolas particulares que existem estão com problemas de caixa. A crise econômica atual está mostrando aos pais que a escola particular não é alcançável  ou sustentável para uma família que ousou achar que poderia ir para a classe média. Além disso, a dinâmica do país não favorece privatização além do que já existe. Tanto é que, no cômputo geral, em todos esses anos, desde o fim da ditadura militar, o que se tem é sempre o crescimento da escola pública em todos os níveis. Na educação não existe nenhum governo “neoliberal”. Aliás, será que existe algum governo “neoliberal”? O discurso ideológico da esquerda come seus intelectuais (!) pela perna. A esquerda não para de lutar contra aquilo que ela mesmo cria. Aliás, nisso se parece com a direita da revista Veja ou semi-alojada na Folha de S. Paulo ou Estadão: recria o “comunismo” (sim!) para poder sobreviver falando alguma coisa ainda!

O problema atual da educação brasileira? Ah! É o círculo maldito: salário baixo leva a escola pública a ter profissionais mais fracos, tendo profissionais fracos, surge o desrespeito da sociedade por eles, sendo assim, os professores perdem a capacidade reivindicativa e, então, não conseguem ter melhorias salariais. Esse movimento circular se aprofunda desde os anos setenta. Para quebrá-lo é necessário uma mão exterior, que seja generosa: faz necessário obter um aumento salarial ou um sistema de bolsas que inicialmente mantenha os concursados nas escolas. A evasão de professores concursados tem sido grande. Mante-los no emprego já seria um primeiro movimento para recuperar o ensino, sair dessa desgraça que abocanha nossa educação pública básica. O resto pode se dar por meio de uma federalização paulatina, direta ou conveniada, tentando trazer as escolas para o nível da rede federal de ensino técnico, que se integrou à rede de universidades federais. Todavia, aí a rede federal vai ter de crescer no orçamento do MEC – e essa será a briga.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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6 Responses “Nenhum governo quer “privatizar a educação””

  1. 22/12/2015 at 23:52

    Tema fundamental e nada de consenso. Quero deixar aqui um ponto esquecido pelos gestores, os professores foram incumbidos de serem assistentes sociais, já que na maioria das escolas de periferia as familias são destruídas por alcool, drogas, analfabetismo, desemprego, etc. As crianças chegam com zero auto estima, zero respeito e zero orgulho próprio. Vejo que as questões são muito acima dos discursos tradicionais independente da parte ou lado ou cor ideológia. A verdade é que ninguem ousa resolver a questão.

  2. Maicos
    03/12/2015 at 14:33

    Concordo que não existe vantagem para o governo privatizar o ensino. Repassar o ensino básico para as OS (Organizações Sociais) é tecnicamente um terceirização, porém ela é e só deve ser pontual, onde se faz necessária e em um regime de transição. Em uma tentativa de melhorai da Educação foi aprovado o PNE (Plano Nacional de Educação) ainda estou lendo acerca, mas quase não vejo discussões sobre ele, sei que as 20 metas geram muitos assuntos a serem tratados, mas é nesse momentos em que precisamos da figura dos filósofos, a exemplo, a discussão sobre a Base Nacional Comum que esta prevista no PNE, gostaria de saber a sua contribuição para esse debate?

  3. Alexandre Aleixo
    02/12/2015 at 11:15

    Ao meu ver faltou um ponto crucial: a “economia” que estaria sendo feita seria para abastecer os “cofres da campanha”. Bem nesse caso me parece que toda economia é errada afinal temos o paradigma de que gasto de campanha é ruim (apesar que o gasto de campanha serve para comprar a nós mesmos). E se essa tal economia fosse destinada não a gastos de campanha mas a outros problemas sociais? Ou mesmo simplesmente diminuído os impostos? Seria então essa reorganização correta? O que quero dizer é: Pode-se fazer mais com o mesmo que está aí?

    • 02/12/2015 at 12:50

      Alexandre NÃO há necessidade de fechar escolas se o objetivo é o de organizar escolas em ciclos que, afinal, em muitos lugares, já vem ocorrendo.

  4. 30/11/2015 at 17:35

    Reflexão interessante.

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