Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/10/2017

O que ocorreu de fato com o ensino religioso?


POSTEI NO MEU FACEBOOK: “COMEÇAMOS COM O ‘ESCOLA SEM PARTIDO’. Fomos para a tirada da filosofia e da sociologia como disciplinas. Então, veio de novo a “cura gay” e, ainda por cima, generais sem serviço falando em Intervenção e o débeis do MBL buscando o fechamento da exposição de arte Queer do Santander. Agora, introduzimos proselitismo religioso nas escolas. O próximo passo nosso é cantarmos o Hino Nacional todos com o rosto voltado para o Califado do ISIS. ‘Tem que manter isso, viu?'”

Tudo isso acima é verdade? Sim! Mas é também um panfleto. E a vida só às vezes é bem descrita por panfletos. Sobre o Escola sem Partidos, a coisa é pior do que parece. Pois já escrevi o quanto isso é policiamento contra professores, mas também alertei o quanto a resposta das esquerdas ao tal movimento foi completamente ridícula. Sobre intervenção militar, temos de ser honestos: um só general falou, e além do mais ele é um daqueles que já foi transferido de posto por homenagear torturador.  Não tem moral para falar grosso; também sobre esses assuntos todos já escrevi, como também já o fiz sobre o MBL tentando falar de arte sem sequer ter militantes alfabetizados. Por fim, “ter que manter isso, viu?”, que é a fala emblemática do Temer, a Rede Globo já fez o serviço correto, estampando-a durantes vários dias no JN como uma vergonha nacional. De um modo geral, tentei complexificar o que no meu panfleto, por ser panfleto, aparece como algo raso, um grito liberal apenas.

Agora, sobre questões de ensino, escrevi antes de Dilma entrar como Presidente, que a filosofia e a sociologia estavam ameaçadas, e o fiz na Folha de S. Paulo. Só o assunto do ensino religioso eu ainda não havia comentado, mas agora não posso me abster, dada a resolução do STF recente. O que o STF aprovou é fácil entender: o ensino religioso é algo que a escola está obrigada a fornecer, mas a matrícula do aluno é facultativa, e além disso a escola deve oferecer a possibilidade de cada aluno ter o ensino religioso segundo o que deseja, segundo sua crença; por fim, o ensino religioso pode ser ministrado por professores que venham a expor, sim, sua fé religiosa, suas convicções. Isso foi o decidido pelo STF.

Eu passei por um ensino desse  tipo na escola pública dos anos sessenta. A diferença é que a escola não era obrigada a oferecer opções de crenças para a “aula de religião”. Então, a situação atual, aprovada pelo STF, é até mais liberal que aquela situação que eu vivi. Mas os tempos são outros, e que o STF julgou foi um assunto posto pela Procuradoria Geral, que entende que “escola não é igreja”, e que cabe aos templos religiosos e similares, e não à escola, cuidarem da educação religiosa da população, garantida pelo Estado Laico que, sendo laico, protege todas as religiões mantendo a liberdade de culto para todas e se pondo como neutro (Estado Laico não é Estado Ateu). Na verdade, temos sempre de lembrar que a proposta da Procuradoria perdeu por apenas um voto no STF. A matéria não é consenso na sociedade brasileira, se levarmos em conta que o STF não é composto por juristas estranhos ao Brasil.

A questão toda teórica, envolvida nisso, vai ser secundarizada pela prática. Pois o que ficará a cargo dos estados e municípios decidir é quem será o professor habilitado para as aulas de religião. Por exemplo, o estado pode dizer que o professor de filosofia ou de história são os habilitados. Pode até dizer que tais professores teriam mais chance se fossem habilitados em teologia. Mas se o critério for única e exclusivamente a fé professada socialmente, e que, por exemplo, o professor de matemática, sendo alguém indicado pela comunidade religiosa solicitada, poderá dar aulas, aí sim as coisas se complicam. Pior ainda se autorizarem não-professores! As aulas de religião, apesar de estarem agora autorizadas a serem palcos  de simples proselitismo religioso, poderiam ser um lugar a mais, na escola, de conversa sobre conteúdos humanísticos. Ou seja, para os adversários do ensino religioso de conteúdo meramente proselitista, a batalha não está perdida. Pode-se ver, em cada estado e município, mecanismos pelos quais os professores que tenham boa formação em ciências humanas e filosofia sejam os autorizados a ficarem com essas aulas. Um professor umbandista, mas que passou por um curso de filosofia ou de história etc., certamente ao falar da Umbanda não vai se resumir à pregação simples. Esse exemplo serve para todo e qualquer professor.

Assim, na prática ficamos na mão da regulamentação dessa legislação. E isso, sabemos, virá com dificuldade, morosidade e, em alguns lugares, nunca virá. É provável que tudo fique como está mesmo, num sistema de ensino em que o que realmente vale é a letargia e a violência contra o professor, violência esta que já começa a partir do próprio estado, que lhe paga um salário aviltante.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 29/09/2017

Tags: , , , ,

5 Responses “O que ocorreu de fato com o ensino religioso?”

  1. Lali
    02/10/2017 at 11:51

    Lastimável. A sala de aula vai virar local de culto religioso. Se salas do Congresso estão sendo usadas para esse fim pelos congressistas da Biblia, imagine se as escolas se vão escapar disso.

  2. Ezequias costa
    30/09/2017 at 18:09

    Paulo, para me que tenho formação acadêmica, em teologia e filosofia, são duas portas abertas, agora é só esperar com paciência.
    Um abraço.

  3. Hilquias Honório
    29/09/2017 at 14:18

    Exatamente: “E isso, sabemos, virá com dificuldade, morosidade e, em alguns lugares, nunca virá”.
    O Brasil segue tentando soluções mirabolantes para a educação, ao invés de resolver o problema do salário baixo do professor.

    Agora sobre o texto dos homofóbicos gays, achei que essa reportagem tem tudo a ver. Uma lésbica a favor da “família tradicicional”. Aliás, lembra aquele texto sobre a Luana Piovani e Aécio, sobre “vencedores ressentidos”:
    https://exame.abril.com.br/mundo/alice-weidel-a-controversa-lider-da-extrema-direita-alema/amp/

  4. Tiago Souza
    29/09/2017 at 13:58

    Poderiam ter aprovado o ensino de história das religiões, mas de todo modo acho que é muito difícil alguém ser neutro nessas questões se tal pessoa tem já uma religião. Acho que talvez desde sempre teve aula de religião em escola pública. Tem que ser optativo, por mais que a sociedade tenha diversos templos religiosos não vejo problema em que uma escola pública também tenha a possibilidade de oferecer de algum modo o auxílio de fé a alguém, a algum aluno, que queira e procure. O que acho que não pode ter é imposição, é preconceito com alunos que tenham orientações religiosas que sejam minoritárias.

    • 29/09/2017 at 16:44

      Tiago, a questão do história das religiões seria outro assunto. STF lidou com religião em um sentido estrito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *