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27/03/2017

O meu professor abusador, ahh!


O magistério compensa? A frase agora é equivalente, desgraçadamente, àquela “o crime compensa?”

O professor no Brasil ganha um salário de não-sobrevivência. A carreira não é mais atrativa. Falta professor. Os jovens que buscam a licenciatura logo tomam pé da situação e desistem. Com a deterioração salarial vem a moradia ruim, a roupa sem grife e o transporte pior. Em uma sociedade classista de disparidade insuportável e altamente regrada pelo status do dinheiro e unicamente do dinheiro, o professor chega à sala de aula como um derrotado. “Se ganha tão mal, então é incompetente”. “Se fosse bom, não estaria aqui”. Assim passa pela cabeça dos alunos. E assim passa pelo pensamento da sociedade. Os governantes olham para o desprestígio do professor e, então, não os atende em greves. Sabe que a sociedade não os defenderá e joga a polícia contra eles. Ganha a batalha na mídia. Contra os professores, os governantes se igualam com uma facilidade inaudita.

O professor chega à sala de aula e, em uma sociedade como a nossa, mostrando ganhar menos que o garoto que é “aviãozinho” de traficante, perde completamente a autoridade. A ideia de uma elite do conhecimento, clara no meu tempo de jovem, ficou para os outros países. A esquerda e a direita, tendo aceitado a palavra “elite” como sendo “quem está por cima” apenas, jogou tudo no lixo. O professor é pobre e, então, se tenta dizer algo que o aluno não gosta, é afrontado. Em meio a isso, claro, nasce na Internet a página “Meu professor abusador”. Só pelo tanto de casos denunciados, já se percebe que a mentira está posta. Quem lida com o cotidiano escolar, sabe que os assédios de professor em direção a aluno existem, mas que não alimentam a regra. Sabemos que alunas “dão em cima” de professores, e temos claro, muito bem, o quanto os professores são, hoje, vítimas de violência de todo tipo. Uma página “a professora violentada” seria correta, caso as mulheres adultas, casadas, com família, pudessem abrir a boca e falar. Mas não podem. Quem é adulto, homem ou mulher, sabe que está em desvantagem nessa guerra que o governo e nós todos fizemos acontecer nas escolas.

Com a página “Meu professor abusador” encerra-se no Brasil a legalidade do ato de ensino. Ser professor se torna uma atividade ilegal. Cai por terra a ideia de cumprir o preceito liberal de que o Brasil pode melhorar pela educação. Pois o agente educacional principal, o professor, agora é posto como bandido comum. Qualquer adolescente magoado – e isso existe aos borbotões – pode ampliar o número de casos de assédio da página de orgia pública em favor da destruição de uma profissão.

A imprensa gostou. Com medo da Internet e pegando o caminho errado de segui-la, principalmente no sensacionalismo barato, a imprensa tem agora jornalistas ganhando até menos que professor, gente que não sabe investigar mais nada. Qualquer um é jornalista. Há agora o filósofo ou historiador que trabalha de graça no lugar do jornalista! Esse tipo de gente pode abrir a página “Meu professor abusador” e fazer a reportagem que quiser, ou seja, a reportagem da mentira: veja como no Brasil os professores são abusadores! Logo, quem não for estúpido, verá que há mais abusador que professor, e que mesmo que cada professor abusasse por dia de uma classe toda, ainda assim não daria o número de abusos denunciados. Em uma sociedade com histeria anti-comunista, todos eram comunistas. Os Estados Unidos da Guerra Fria conheceram essa merda do tempo do macarthismo. O Brasil conheceu isso entre 1964-85. Agora o comunista da vez é o “pedófilo” ou o “gay-pedófilo” ou o “padre-pedófilo” ou o “tudo-pedófilo”. Quem será o próximo? Ah, sim: o professor abusador. Ele logo será o próximo: o professor de esquerda e abusador. Aguardem e verão!

Mas a língua nossa é mais aberta e freudiana que imaginamos. A frase revela mais do que quer. A página da Internet revela bem a intenção dos seus autores: “meu professor abusador”. Sim, “meu”. É a construção da fantasia de adolescente: “meu homem”, “meu professor”, “meu abusador”. Ao mesmo tempo, a ideia de posse da criação: “meu”. Não se trata de O Professor Abusador. É o “meu professor”. Ah, ele é o meu abusador. Eu o invento, eu o pego, eu abuso do abusador, e ele continua meu. Ser e ter foram dispensados como dualidade, em favor do aparecer, disse Debord a A sociedade do espetáculo. O meu professor abusador é meu professor se eu puder colocar na Internet, numa forma de aparecer, a minha propriedade. Sou adolescente e não quero dinheiro, quero apenas aparecer no meu mundinho que sabe que fiz o que fiz. Devem me temer, pois sou quem determina na escola, agora, quem é e quem não é o meu professor abusador. Sou a lei do mundo, a lei jovem – a culto da juventude que animou nazistas e comunistas.

Se tivéssemos aprendido que criança fala o que se quer dela, e não a verdade, como deveríamos ter aprendido com o desgraçado episódio da Escola de Base, talvez pudéssemos saber que o adolescente é até mais perverso que a criança, como Nabokov ensinou a todos nós – e não só em Lolita.

Estamos no tempo de revermos o filme argentino A menina santa, para o qual fiz resenha em 2005 para a Folha de S. Paulo. Os inteligentes e tementes a Deus saberão que estou com a razão.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Reportagem do Estadão sobre “Meu professor abusador”

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35 Responses “O meu professor abusador, ahh!”

  1. Paulo Roberto Moraes de Mendonça
    09/08/2016 at 00:45

    Lucidez e inteligência. Artigos em falta, nos últimos tempos, em várias esferas; sobretudo nos meios educacionais. Triste e lamentável a falta de aprofundamento de gente que é capaz de criar algo tão inóspito.

    • 09/08/2016 at 08:49

      Paulo Roberto estamos num era de Pondés e Karnais, gente que perdeu o sentido da educação, da cultura, em favor do modo fácil de fazer as coisas, a mídia, a deturpação.

  2. Nathalia
    18/05/2016 at 14:39

    Sobre sofrerem assédios e não denunciarem: muitos relatos que vi na página, são relatos de abusos verbais.. poucos foram físicos. Eu raramente vejo abusos verbais serem punidos, nem pela justiça, nem por escolas. Acredito que não é denunciado por medo de que a denúncia não dê em nada e depois o tal professor possa prejudicar a/o aluna/o na sala de aula posteriormente. (eu tenho um professor que insulta alunos na sala de aula, é preconceituoso com várias coisas e não denuncio pq sei que não vai dar em nada e não quero ser prejudicada por ele depois – isso também é ser um professor abusador)
    O relato na página é apenas um desabafo, e não é generalizado.
    A profissão de professor é linda, e muito ingrata
    Existem professores ótimos, de bom caráter, mas também existem muitos professores abusadores.
    A página é válida, até porque, muitas pessoas não falam com ninguém sobre o que aconteceu, e isso é uma forma de aliviar.

    É óbvio que há assédios por parte de alunos em cima de professores, mas isso é outro caso, são 2 problemas distintos, e um não deve ser mais importante que o outro.

  3. Marcos
    02/03/2016 at 08:03

    Parabéns, Paulo Ghiraldelli, pelo texto. Quanto a pagina do Face “Meu professor abusador”, para quem não sabe:
    a) Todos os comentarios que possam assinalar que a denuncia são falsa são retirados a fim de parecer que está tudo OK
    b) Ninguem está dizendo que é tudo mentira, mas o anonimato fica uma arma poderosa, nem as administradoras não sabem quem enviou, por exemplo uma menina diz que o professor a reprovou somente por 0,5 ponto, certamente é porque gostava dele e ela não deu bola. Um usuario comentou, mas não seria porque você tirou nota baixa? Removeram o comentario.
    c) Um dos Cursos citados entrou em contato com os administradores da Pagina para que pudessem resolver um “suposto” abuso por parte de um dos professores, a pessoa denunciante não apareceu e somente o curso que ficou mal.
    Forte abraço

    • 02/03/2016 at 10:13

      Marcos, a mágoa pessoal de algumas pessoas alimentando o denuncismo sem fundamento pegou no Brasil. Temos de tirar isso do país.

  4. Alvaro
    17/02/2016 at 10:43

    Melhore seus argumentos, relatar que “Só pelo tanto de casos denunciados, já se percebe que a mentira está posta” não serve de base alguma, por exemplo os inúmeros casos de tortura nas prisões ou de violência doméstica contra a mulher se invalidam devido ao seu número elevado?
    Outra questão na frase “Uma página “a professora violentada” seria correta, caso as mulheres adultas, casadas, com família, pudessem abrir a boca e falar. Mas não podem.”, você aborda apenas mulheres casadas e com família, ou seja, as solteiras e sem famílias não podem denunciar. Observando seu texto entendo que o pq de “mulheres casadas, com familia”, pq na sua última frase vc recorre aos inteligentes, mas o q mais choca é tb recorrer a Deus, por isso um status familiar da mulher. Utilizar Deus como argumento finalizador de um texto, que se trata de uma realidade escolar sem vínculos religiosos é infundado, Deus castiga quem faz denuncia? . Caso os professores queriam criar uma página sintam-se à vontade, mas pq os eles não tem isso não é justificativa para barrar as denúncias dos estudantes.

  5. PAULO PIRES
    17/02/2016 at 08:10

    professor tem k ser profissional ,tem k voltar ao tempos antigo , não importa o salario , se ganha meio salario minimo ou 50 salários minimo ,o importante é a(qualidade do aluno ) convivi co varias cultura , sempre o profissionalismo esta acima de tudo ,

  6. Paula
    17/02/2016 at 00:35

    Excelente artigo!

    O que me deixa estupefata é que qualquer pessoa pode efetuar uma denúncia. E o pior: de forma anônima. Professores, colégios, escolas e cursos por todo o Brasil estão sujeitos a terem suas imagens bastante manchadas por denúncias que por muitas vezes podem ser inventadas ou romanceadas para torná-las mais “interessantes”, dramáticas, comoventes.

    E não se faz nada. É isso mesmo? Não se caracteriza crime cibernético nesse caso? Não há leis que impeçam tamanha sandice, tamanha covardia?

    E termino por dizer: existe, principalmente no meio dos cursos pré-vestibulares, inveja e a famosa puxada de tapete. Almejando o cargo de um colega ou algo do tipo, quem garante que não surgirão denúncias falsas desse tipo?

    Vou um pouco mais além: quantos inimigos não fazemos em vida? Por diversos e variados motivos. Não poderão surgir também relatos fantasiosos apenas para ver a vergonha ou simples queda de alguém que não gostamos (e faz parte desse meio)?

    Abriram as portas do hospício, amigos. Os normais que busquem refúgio nas colinas.

  7. 17/02/2016 at 00:19

    Gostei do texto. Tinha pensado a mesma coisa que o sr, mas pelo lado lacaniano. Como Rorty abordaria esse problema dentro do campo da filosofia da educação?

  8. Bruno
    16/02/2016 at 19:48

    Cansei de ver, na minha época de faculdade professor saindo com aluna (aluna se gabando de ter saído com professor, professores dusputadinhos, etc.). Hoje, como o professor perdeu status, está desmoralizado, andando de ônibus e com dificuldade de todas as espécies, as alunas lutam contra seu desejo de dar para o professor, denunciando-o por coisas que sempre foram cotidianas da relação professor aluno . É só ler os relatos dessa pagina patética do ”meu professor abusador”.

  9. LMC
    15/02/2016 at 11:21

    PG,você já foi no Rio Grande
    do Sul?Esse tal Facebook do
    Professor Abusador foi criado
    lá.Puta que pariu….

  10. Robson de Moura
    15/02/2016 at 09:57

    E eu, que estou agora metido até o pescoço, num curso de licenciatura… Desafios imensos me aguardam.

  11. Armando
    14/02/2016 at 19:45

    Vivemos uma onda moralistoide no Brasil. O Brasil parece ser um pais de poucos, nao so na esfera economica como na moral. Quem nao anda na linha no Brasil eh muito mal visto, recebe olhares de desprezo, tossidas nervosas, quando nao uma prisao, se eh pobre, desprovido de titulos academicos e sem amigos.

    O salario do professor Universitario eh bom ate demais em comparaçao com o salario da maioria das pessoas. O problema eh o salario do professor de ensino fundamental e medio. Em paises desenvolvidos essa diferente entre salarios dos doutores da academia e dos professores de niveis basicos nao e tao grande. No Brasil em geral as diferenças salariais sao enormes, pq a mentalidade do pais eh segregacionista mesmo. Veja quanto ganha o povo do Judiciario em comparaçao com o salario minimo que a maioria do povo ganha. Nao da para viver com um salario minimo, o poder de compra eh muito baixo.

  12. Bruno
    14/02/2016 at 01:00

    Acho que se deveria criar uma página para relatar os abusos que os professores sofrem. Já teve aluna que me ofereceu sexo para aumentar a nota, outra que tentou me agarrar em plena sala de aula, outra que tentou me agarrar fora da sala de aula, entre vários casos de alunas tentando fazer sexo comigo.
    Também já teve casos de alunos que tentaram me agredir verbal e fisicamente.
    As coisas que relataram nessa página ‘do professor abusador’ nunca foram testemunhadas por mim.

    • 14/02/2016 at 12:03

      Bruno, precisamos é sair da merda dessa cultura do “eu processo”.

  13. João Neto
    13/02/2016 at 23:05

    Paulo, Viva.
    Aproveitando a oportunidade aberta pelo penúltimo parágrafo do texto, pra ti e para quem não viu, eu recomendo o ótimo filme The Hunt – A Caça (2012) “Jagten (original title)”.
    Boa sessão.
    Cumprimentos
    J

  14. Ronan
    13/02/2016 at 21:16

    Excelente, professor. Há uma campanha de demonização do homem e de destruição da masculinidade a longo prazo. Campanha tocada por sexistas anti-homem, na linha de Valerie Solanas.

    Muito obrigado pelo texto. Lucidez!!!

    • Thiago Carlos
      14/02/2016 at 14:49

      Você merece ser abusado pelo professor abusador se concluiu que a questão do texto é misandria.

    • LMC
      15/02/2016 at 11:14

      É ISSO MESMO,RONAN!

    • Ronan
      15/02/2016 at 22:48

      Pura misandria. O mais puro sexismo anti-homem. Valerie Solanas deixou muitas seguidoras.

    • Thiago Carlos
      17/02/2016 at 16:40

      Deve ter deixado também muitos retardados que se afetaram demais com as atitudes dela e acham que todas as mulheres são assim;

      Pelo visto, você deve tá na seca de xoxota =)

  15. Francisco Tondi
    13/02/2016 at 20:54

    Os abusos existem em toda a parte, a maioria das crianças e adolescentes que passam por abuso sexual e moral, o passam vítimas de pessoas muito próximas, muitas vezes, da própria família, as estatísticas estão aí..então, não consigo entender a criação de uma página direcionada a um determinado tipo de profissional, classificando-o de cara como abusador…já existem os mecanismos de denúncia, como o disque 100 e etc, onde as denúncias são feitas aos órgãos competentes. Passa a ser um canal sem credibilidade, existem muitos professores também sendo assediados diariamente e, que não atendendo ao desejo de uma adolescente, por exemplo, irá sofrer uma “vingança” em páginas como essa que acabarão com sua carreira…então crie-se meu padre abusador, meu médico abusador, meu chefe abusador, meu funcionário abusador, etc…é um caminho perigoso, onde a vitima pode passar a ser réu, muitas das vezes…parabéns pelo texto.

  16. Maximiliano Paim
    13/02/2016 at 20:24

    Coitado do aedes, bah!

  17. Jordan Bruno
    13/02/2016 at 18:47

    Já existe um movimento dentro do feminismo (imagino qual…) que parte de um principio (sic) de não aceitar leis elaboradas por homens … não duvido que algum professor universitario já tenha problemas pra dar aula por ser homem …

    Depois dessa página que criaram não duvido de mais nada …

    Ótimo texto ..

  18. Matheus Kortz
    13/02/2016 at 18:17

    Estou comentando com os dentes, estaria comentando com as mãos se nao estivesse aplaudindo, até com os pés se nao estivesse aplaudindo de pé!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo