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30/04/2017

O jovem que queria fazer Filosofia


Convivo com gente de esquerda e direita que é inconversável, mas, atualmente, me dou ao luxo de evitá-los. Não posso fazer isso? 

Apareceu no CEFA o jovem. Do mesmo modo que veio, foi embora. Ou quase. Ele queria fazer filosofia. Ainda aluno de colégio. Aproximou-se pela Internet, frequentou hangouts, foi ao CEFA em reunião presencial. Participava, mas logo fomos percebendo que, mesmo para um grupo completamente aberto a pensamentos os mais estranhos possíveis, estava difícil de engolir alguns posts do rapaz na Internet. Questionado, calava-se. Veio então a gota d’água: um comentário dele a respeito do caso do menino de dez anos perseguido pela polícia e morto, notícia de algumas semanas atrás, em São Paulo. Nosso jovem aspirante a aluno de filosofia postou lá no Facebook dele, com a carinha do Bolsonaro rindo sarcasticamente, a seguinte frase: “se estivesse na escola estudando, não teria morrido, kkk”. Eu reagi, como bom educador, e disse para ele que aquela opinião era “tonta”, e ensaiei alguns argumentos. E ele respondeu do alto do seu bolsonarismo: “mas não é verdade, Paulo?” e novamente soltou um “kkk”. Rapidamente um outro membro do CEFA postou: “não sabia que no CEFA havia agora cota para tonto”. Eis então que o jovem bolsonarista reagiu com violência, disse que admitia ser chamado de tonto por mim, mas não pelo colega que era “um b*” etc. E logo disse que sairia do CEFA. E eu imediatamente o felicitei por tal decisão.

O que fazer em uma situação dessas?

O problema todo que me chocou não foi o dele responder de acordo com o senso comum da extrema direita, no estilo Trump ou Bolsonaro ou desses blogueiros e jornalistas que felicitam a desgraça. Afinal, ele já vinha mostrando um tal gosto! O que me chocou foi ele estar convivendo conosco e não perceber que, por mais que estávamos sendo abertos reflexivamente, há algo chamado “ter estômago”. Ninguém iria querer, no CEFA, almoçar com ele. Iria acabar sobrando para mim! Puxa vida, ter de comer diante de um cara que, mesmo conosco instruindo, é capaz de rir da morte de um menino de dez anos que caiu no caminho do crime! E que caminho! Mãe  e pai presos, passagem por inúmeras casas de correção que não lhe atenderam, jogado para morar com parentes que o tomaram por bandido antes do dez anos. Esse é o caso para dizer “se estivesse na aula não teria morrido”, e então rir? Rir junto da foto do Bolsonaro! Teria eu que, na falta de tolerância de outros, ser o tolerante e, quando esse jovem colegial viesse ao CEFA, eu teria de almoçar com ele? Teria de ficar conversando com ele? Por quê?

Seria algo mais ou menos assim: para provar que acredito que o menino de dez anos podia ser recuperado então eu teria de considerar este jovem bolsonarista também recuperável. Seria isso? Talvez, se eu tivesse estômago e se o CEFA fosse uma casa de correção! Mas não é. É uma casa de pesquisa e ensino, mas não creio que seja uma casa com o poder de transformar um jovem bolsonarista em alguém capaz de começar a pensar sobre sociologia e, então, entender que rir do garoto morto não é só falta de piedade, mas é incapacidade de refletir sobre os rumos de nosso país. Tenho clareza do que fiz: do mesmo modo que desistiram do menino, eu desisti do meu bolsonarista. Fiquei feliz dele sumir. Todavia, penso que tenho uma forma de me desculpar melhor do que os outros, os que abandonaram o garoto de dez anos. Será?

Reclamei do jovem bolsonarista pela sua incapacidade de entender o garoto de dez anos, e eu mesmo não fui capaz de entender os condicionantes sociais que o levaram a ser um bolsonarista. Bem, no caso, nem quis saber se existia algum condicionante. Recorri a uma desculpa do tipo: a filosofia tem limites, ela não serve para tornar um jovem que se encaminha para o sadismo bolsonarista em alguém com quem queiramos conviver. Sim, é uma desculpa. Mas, não volto atrás. Não tenho para comigo mesmo essa vontade de ser herói produtor de provas a respeito da benção que é a tolerância liberal ou o poder da filosofia.

Do mesmo modo que muitos ficaram com medo de trazer o garoto de dez anos para casa e se responsabilizar por ele, inclusive gente que tinha a obrigação de assim agir, por estar no Estado para tal, eu fiquei com medo do trabalho que o jovem bolsonarista iria trazer para nós, no CEFA, o quanto teria eu de me aborrecer por ficar ouvindo ele ali, dando valor para a minha fala e não para o colega, apenas porque ele só sabe obedecer a autoridade. Que vontade tenho eu de conversar com um bolsonarista que, se me escuta, o faz por ser bolsonarista, ou seja, alguém que escuta o bater do coturno do mais forte? Nenhuma! Consigo escrever e raciocinar e tentar, às vezes, ensinar alguém a ponderar sobre como a visão de gente como o Bolsonaro é alguma coisa torpe, ainda que, numa democracia liberal, não possa aprioristicamente ser criminalizada. Mas não tenho a força heroica que já tive no passado, quando imagina fazer isso não só pela escrita, mas pela conversa cara a cara, no convívio. Não e não mesmo. Fiquei de fora da universidade para escapar de ter de conviver com gente assim na direita, e gente que imita essa direita na esquerda (e que não são poucos não!). Não vou agora, aposentado, trazer para o CEFA esse cancro.

Posso defender que o estado não atire em crianças, mas não posso defender que todos os que começam a ter comportamento meio que criminoso – seja o do garoto morto seja o do jovem aspirante à filosofia – vá inexoravelmente cair na classificação de “recuperado”. Não! Temos de admitir que há irrecuperáveis. E isso não deve mudar em nada nosso conceito de Direitos Humanos modernos. Pois os Direitos Humanos apenas são uma forma de policiar a polícia, pois sendo ela o braço da violência legítima que é a prerrogativa do Estado, devemos nós, naturalmente, ter alguém que não a deixe extrapolar e fazer dessa violência algo gratuito.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

 

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4 Responses “O jovem que queria fazer Filosofia”

  1. Orquideia
    22/06/2016 at 08:36

    O sr.deve ter estado certo, pois uma criança e um adulto são diferentes na maleabilidade.
    Uma criança pode mudar “da água para o vinho” um dia,um “cavalão” não se altera mais, nem quando quer se alterar. [ enfim, mudar o pensamento].

  2. Luciano
    20/06/2016 at 09:33

    Seu texto me lembrou de uma passagem do livro “Arte da Felicidade” do Dalai Lama, onde ele diz que o natural é termos o desejo de sempre sermos compreendidos, mas para evoluir intelectualmente e espiritualmente, devemos nos afastar deste desejo e aprender a compreender. Não é uma tarefa fácil, (compreender os vários tipos de pessoas) pois conforme vamos ficando velhos, a paciência com algumas coisas vai se corroendo.

    Gostei muito da sua reflexão. Tenha certeza de que você abriu várias portas para este jovem, assim como continua abrindo no mundo virtual e na literatura (ta tudo aí para ser consumido), mas quem tem que passar por essas portas, é ele.

    Parabéns pela reflexão.

  3. LENI SENA
    15/06/2016 at 21:31

    Por que é tão difícil entender o que divinamente explicas? Realmente é um saco mostrar que uma situação não tem nada a ver com a outra. Ainda mais dentro de um ambiente que era de se esperar ter o mínimo de bom senso.

  4. Matheus
    15/06/2016 at 14:54

    Acho que entendi o paralelo que vc quis fazer, Paulo, ambos, cada um a seu modo, eram “irrecuperáveis” (ao menos em hipótese). Mas o fato de alguém ser irrecuperável não justifica a pena de morte, a ação desmedida, a violência não-policiada.

    Você não matou ninguém, tirou a possibilidade de um irrecuperável habitar um dos mundos dentro do mundo (o CEFA); não de todos os mundos do mundo, como fizeram com o garoto de 10 anos.

    Quem sabe em outro “mundo” esse aluno bolsonarista não se recupere hein?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo