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21/10/2018

O emburrecimento seletivo


Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 01/08/2018

Em todo e qualquer país há três tipos de pessoas: os cultos, os ignorantes e os semicultos. A anomia é uma ameaça para aqueles lugares em que os semicultos aumentam de maneira desproporcional.

Quem são os semicultos? São os sabichões. São os que xingam um juiz que condenou ou soltou alguém, sem no entanto entender os detalhes técnicos legais pelas quais o juiz agiu. São as pessoas que, por conta de poderem veicular ideias, acham que sabem mais do que sabem. Hannah Arendt chamou-os de filisteus da cultura. Eles barram a explicação douta, escolar, técnica. Como falam pelos cotovelos, conquistam os ignorantes para a adesão à informação errada.

Países como o Brasil, em que a escolarização existe, mas o salário do professor é ruim e a escola pública vai de mal a pior, podem entrar para uma situação de balbúrdia geral sob o império da incompetência diante do texto. Todos os exames internacionais mostram que os brasileiros vão mal em tais provas por não entenderem o enunciado das questões!

Não à toa, há aqui pessoas que, até os anos oitenta, não imaginávamos que iriam poder abrir a boca e serem ouvidas. Mas agora falam grosso. Há o indivíduo que escreve na Internet que a Terra é plana e que não há combustíveis fósseis; há o outro que é contra as vacinas; há aquele que fala que ter filha e não filho é uma desgraça; surge o que diz que cigarro não faz mal algum; sai da cova um outro dizendo que homossexualidade é “aberração” e que mulher grávida prejudica o rendimento da indústria. Enfim, há o palestrante que sabe de tudo, de filosofia e ciência, pois não entende que tais matérias demandam um vocabulário técnico e formação específica. Para estes as palavras são todas transitáveis entre elas. Desconhecem o conceito de conceito.

Um país assim demanda, de modo urgente, um novo trabalho no âmbito da comunicação política e da comunicação pública. O governo precisa de técnicos capazes de criar bons discursos para informar – corretamente, claro – a população sobre direitos e deveres básicos. Os movimentos sociais precisam se reordenar para falar de modo menos ideológico, tanto na conversação entre seus membros quanto com os membros da mídia e do governo. Sem escola, não dá para fazer nada disso. Mas, no momento atual, esperar pela escola, é muito arriscado. Não há mais tempo. Algum voluntarismo heroico é necessário.

As pessoas com saberes técnicos precisam começar a agir de modo menos condescendente com o pseudoculto. Guru político tresloucado que fugiu da escola, youtuber abobado, líder religioso vítima de analfabetismo funcional, advogado mal formado, palestrante que vomita frases banais – toda essa gente que trabalha com comunicação propagando bobagem, precisa ser combatida por meio do trabalho de quem tem cultura técnica.

O Brasil possui gente culta, mas que está se omitindo diante da barbárie. Esse pessoal culto ou está desanimado ou simplesmente não dá atenção para o volume que os semi-cultos estão fazendo. A qualquer momento veremos candidatos à Presidência não escovar mais os dentes ou ter dificuldade em decorar três palavras para falar em público.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Professor da ECA-USP, autor, entre outros, de Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018).

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18 Responses “O emburrecimento seletivo”

  1. Glauber
    15/10/2018 at 00:27

    Professor, parabéns pelo canal no youtube e pelo site. Estou devorando seus vídeos. Como comentei em um deles, suas ideias estão sendo pílulas de lucidez para mim nesses tempos de espetáculo vil e estupidificação geral da nação. Não sou de Humanas, sou da Física/Astronomia, começarei meu mestrado na USP em 2019, e pretendo ser professor (seja universitário ou de ensino básico/médio), trabalhando por uma população mais crítica, curiosa, apaixonada pelo saber e pela democracia. Posso estar sendo ingênuo, eu sei, mas como o senhor disse, devemos nós combater essa proliferação desenfreada da burrice. Mas não vou negar, ando pensando muito na possibilidade de sair desse país. Tenho medo de que as coisas fiquem sufocantes demais. De qualquer forma, obrigado por existir, professor. E por não se omitir. Obrigado pelo trabalho, pela coragem, pela lucidez e pela simplicidade. Muita luz ao senhor!

    • 15/10/2018 at 00:41

      Saia quando tiver feito uma base de estudos aqui. Agora, se quiser sair na louca, para trabalhar e viver de uma vez fora, aí é outra coisa. Aí é uma opção mesmo, com uma decisão pesada, mas vale a pena se for isso que decidiu.

  2. Guilherme souza azevedo
    13/09/2018 at 22:29

    você sempre ataca o Bolsonaro nesses seus artigos,né?

    • 13/09/2018 at 22:57

      Você não sabe ler mais que artigos em que há Bolsonaro. É um problema grave de militantes políticos.

  3. Lucas Sipioni Furtado de Medeiros
    09/08/2018 at 22:03

    Qual dos seus livros você indicaria para iniciar os trabalhos? Confesso que sou muito mais voltado para a área de Jurisdição Constitucional e Hermenêutica Jurídica, por isso leio tudo que Lênio Streck escreve. Inclusive, descobri seu texto por meio dele (ainda bem!).

    Pois então. Qual dos seus livros seria o ideal para iniciar em sua teoria?

    • 10/08/2018 at 08:59

      Lucas, eu posso sugerir Rorty (da Vozes) e Dez Lições sobre Sloterdijk (Vozes) ou o Sócrates (Cortez). Vai encontrar material relativo à sua área, claro que, indiretamente.

  4. Lucas Medeiros
    09/08/2018 at 08:25

    Excelente artigo, professor! Vim prestigiar depois de ler o texto do professor Streck na Conjur. Gostei do que vi e passarei a acompanhar o site!

    • 09/08/2018 at 12:31

      Lucas, pegue meus últimos livros, vamos iniciar um diálogo.

  5. Guilherme Hajduk
    08/08/2018 at 07:48

    “palestrante que vomita frases banais [‘karnais’]” — acercei? Hahahaha

    • 08/08/2018 at 10:37

      É, também serve. Karnal virou um piada nacional, todo sábado o Zorra imita algo dele, e o tonto não percebe. Tonto em parte, no fundo, é um cara que faz palestra de “ética” mas não aparece para dar aula, só para pegar o salário.

  6. Eduardo Rocha
    08/08/2018 at 00:41

    Paulo, por que os norte-americanos não costumam assistir novelas (ou já assistiram em período anterior)? Me lembro quando era menor que o Brasil possuía e ainda possui uma cultura bem forte de assistir novelas dos mais diversos tipo: Maria do Bairro, A usurpadora, O clone, A indomada, etc. E outros locais também México, Espanha creio eu, Argentina, Portugal. O que passa?

    • 08/08/2018 at 10:38

      Os americanos assistem e muito – as séries. E agora dominam o mundo.

  7. Daniel
    05/08/2018 at 01:43

    Parabéns pelo texto, e boa empreitada pra fazer a diferença!

  8. Tony Bocão
    01/08/2018 at 14:41

    lembro de um cartoon que o senhor enviou pelo twitter, onde antes se reclamava da necessidade de se estudar biologia, física, química e a seguir mostrava o cara defendendo terra plana, não vacinação etc… Mas apesar dessa terra seca, nunca vi tanto assunto para ser trabalhado pela área acadêmica sobre este efeito emburrecedor. Pena que ninguém vai ler

  9. LMC
    01/08/2018 at 12:26

    E o progressista(?)Papa Francisco
    disse que o aborto é igual ao nazismo.
    E eu achando que tonto só tinha
    aqui no Brasil:Pondé,Malafaia,
    Olavo,Nerloch…

    • 01/08/2018 at 12:54

      LMC eu temo que você tenha uma cabeça que impermeável à filosofia. Papa Francisco é um professor de filosofia. E Cristão. Um substancialista. A comparação que você fez acaba colocando você, e não ele, na linha dos Narloch.
      QUEM PEDE para que o Papa seja a favor de uma liberalização do aborto precisa voltar para escola. Não entendeu nada ainda. O Papa tem argumentos filosóficos, ele não é um um reacionário que simplesmente quer mandar em mulher.

  10. 01/08/2018 at 11:42

    “Países como o Brasil, em que a escolarização existe, mas o salário do professor é ruim e a escola pública vai de mal a pior, podem entrar para uma situação de balbúrdia geral sob o império da incompetência diante do texto. Todos os exames internacionais mostram que os brasileiros vão mal em tais provas por não entenderem o enunciado das questões!”. Isso explica a imensa quantidade de comentários desconexos na seção de comentários dos portais, e até mesmo aqui. Uma fuga ao tema monumental. Acho ótimo quando você responde ao leitor, sugerindo que leia novamente o texto, pontuando que ele não entendeu o que foi escrito no seu texto.
    Parabéns! Seus textos são ótimos, pois dão a oportunidade de reflexão aos não iniciados em filosofia. Creio que são um ótimo ponto de partido para os que querem se aprofundar.

    • 01/08/2018 at 11:53

      Syd, o que faço é o que falei no artigo: a tentativa de lutar contra os arautos da burrice.

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